O baile que trouxe a vida de volta à "aldeia das mansardas"

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Maria do Céu Almeida, 79 anos

Nas mansardas da Baixa de Lisboa, os idosos viviam solitários, até o presidente da Junta de São Nicolau ter criado os convívios da rua da Prata

o Em cima da mesa Joaquina tem pratinhos com rebuçados, nozes e frutos secos, como se estivesse à espera de visitas, embora há meses ninguém, além dela própria, entre neste segundo andar de oito assoalhadas da Rua dos Sapateiros, na Baixa de Lisboa.

Desde a morte do marido, há 18 anos, Joaquina Ferreira, de 86, vive aqui sozinha. Mas mantém todos os aposentos arrumados, como se fossem as galerias do museu da sua própria vida.

Além do quarto de dormir, enorme, com sofás e mesinhas repletas de bibelôs, plantas, almofadas, tapeçarias, há quartos de visitas, uma sala só dedicada a recordações, postais e folhetos de viagens, outra com santinhos, bonecos, quadros e flores, outra ainda com imagens do Papa e dos pastorinhos, estatuetas da Virgem de Fátima, um certificado de peregrinação a Jerusalém. Na cozinha há colecções de canecas e andorinhas de loiça na chaminé, no escritório fotografias, medalhas, cartões de parabéns enviados pelo presidente da Junta.

Quando Joaquina para aqui veio, depois do casamento, há 60 anos, já o marido cá morava há 30. Ele aliás nasceu nesta casa, alguns anos depois de os pais a terem arrendado, em 1907. Joaquina é filha de camponeses, de Alenquer, mas de tal forma se adaptou à vida da cidade, que hoje não se imagina noutro lugar.

Gostaria de ter tido filhos, mas o marido não quis, para não comprometer o divertimento dos domingos. Tinham uma moto Sunbeam que custou 50 contos, com que percorreram o país.

Não tinha amigos, não conhecia ninguém na vizinhança. Quando ficou viúva, viu-se sozinha, com um amor pelas viagens e uma devoção pela casa. Restabeleceu contacto com uma prima, a Milu, e através dela fez mais três amigas: a Irene, a Dina e a Alexandra. Elas viviam na Graça, Amadora e Campo Grande, mas encontravam-se na Baixa e iam passear para Cascais ou o Estoril. Ultimamente para o Colombo, o que já não agradava tanto a Joaquina. Mas depois, uma após a outra, as amigas morreram. Joaquina conta isso como se fosse um percalço, algo inesperado e evitável. "Tem morrido muita gente."

Descobriu então as excursões, viagens de um dia inteiro, de camioneta, organizadas para idosos. Fez várias, algumas ao estrangeiro. Foi em Jerusalém que conheceu Lurdes, sua vizinha de várias décadas, na Baixa de Lisboa.

Os três irmãos morreram, mas às irmãs costumava visitá-las, e a uma sobrinha, em Alenquer. Agora fá-lo raramente. "Não quero incomodar." E também já não vai às excursões. Deixou de ser preciso. "Agora temos os convívios, não é? Não gosto de perder nenhum. Pode passar-se alguma coisa, e eu não fico a saber."

Maria de Lurdes Agapito, de 83 anos, também frequenta os convívios das segundas e sextas-feiras na Junta de Freguesia. Foi empregada de escritório durante 30 anos, na Rua dos Fanqueiros, viveu na Rua dos Correeiros, num prédio que pertencia ao conde de Carnide, casou duas vezes, escreveu vários livros de poesia, trabalhou com David Mourão Ferreira, foi amiga de Amália Rodrigues. Mas não conhecia os vizinhos.

O marido passava temporadas fora, mas uma mulher não ia ao café sozinha. E não era costume visitar as pessoas. Lurdes vivia para o trabalho e os filhos. "Eram tempos de vida muito árdua."

Maria do Céu Almeida, 79 anos, que morava na Rua dos Fanqueiros, só conheceu Lurdes nos convívios da Junta. Trabalhou primeiro nas limpezas do Metro, durante a noite, depois numa barraca de venda de roupa, mas continuou a ser tão pobre em adulta como fora em criança. "Nunca tive brinquedos, mas não passei fome, nem frio." Casou cedo, e ainda estava grávida da filha quando se separou. O marido bebia, batia-lhe, e ela fugiu para casa da mãe.

Clara Marques Alves Bicho, de 78 anos, e o marido, Gaspar da Silva, de 94, vivem desde 1961 num quarto andar sem elevador da Rua Augusta, num prédio brasonado que pertence à duquesa do Cadaval. Ela é de Vieira do Minho, ele da Póvoa de Varzim. Conheceram-se no Patronato da Infância, em cuja cozinha Clara, de 27 anos, estava empregada. Gaspar, 30 anos, trabalhava nas obras.

Na infância, Clara andava descalça a guardar cabras. Mais tarde trabalhou nas minas de volfrâmio. Mas sempre lhe disseram: "Davas uma criada tão bonita em Lisboa, de camisinha de manga curta."

Veio para ser criada, mas acabou por conseguir um emprego, durante 20 anos, na Fofinha, uma loja de roupa. Duas a três vezes por semana tinha de carregar caixotes escadas acima, sozinha. "Era o tempo da escravatura", diz Gaspar. A reforma dele é hoje de 174 euros, a dela de 303.

Nos convívios da Junta de Freguesia de São Nicolau, organizados pelo presidente, António Manuel, há muito tempo para recordar.

Na Casa Africana, onde hoje é a Zara, havia um pretinho à porta a chamar as pessoas para entrar. As senhoras ricas mandavam o chofer parar o carro, para irem comprar tecidos. As compras correntes faziam-se no mercado da Praça da Figueira. As hortaliças, que vinham em burros, a fruta, que, quando começava a apodrecer se juntava num pacote variado, uma "teca", vendida mais barata. E os chicharros a 15 tostões, os jaquinzinhos a 5, o pão 17 (que custava 17 tostões), a carne de cavalo, os remendos ("gatos") que se faziam nos tachos quando rompiam, os mil pequenos truques que as mulheres conheciam.

Desse tempo, quase só restam mulheres. Os homens já morreram e os sobreviventes não gostam de vir aos convívios. Elas sim. Dois dias por semana aqui, outros dois no centro paroquial, e têm a semana preenchida. Há sempre qualquer coisa para fazer. Aulas de informática, festas de aniversário, lanche, visita ao médico ou ao consultor jurídico, fisioterapia, ginástica. Hoje há sardinhas e baile de Santo António. Dançam à volta da sala, em fila, uma mão no ar, acenando. "Lá vai Lisboa..." Aos poucos, todos se juntam ao "comboio", felizes como talvez nunca tenham sido. "Dona Clotilde, que está aí a fazer sentada? A descansar? Vamos embora!"

Em 2007, António Manuel encomendou à Universidade Católica um estudo sobre os idosos da Baixa. Foram identificados muitos problemas, mas o principal foi a solidão. Teve então a ideia dos convívios. Uma ideia simples e fácil de pôr em prática: bastou disponibilizar uma sala na Junta, na Rua da Prata. E a "aldeia das mansardas", como ele chama à comunidade de idosos que habita a Baixa, voltou a viver.