Depois das avenidas da esperança

Um ano após as eleições presidenciais, o silêncio e o medo tomaram conta das avenidas de Teerão

Nas mesmas avenidas de Teerão onde há um ano era visível o sopro da mudança está hoje o silêncio do medo. Desapareceram as manifestações, os gestos de coragem que denunciavam a fraude nas eleições presidenciais de 12 de Junho de 2009. Os apoiantes de Mir Hossein Mousavi, o candidato reformista derrotado por Mahmoud Ahmadinejad, garantem que o espírito da revolução verde ainda está vivo. Mas não ousaram sair à rua um ano depois da eleição que desencadeou o maior movimento de protesto na história da República Islâmica. E o Ocidente que no Verão passado se espantava com a descoberta do Irão jovem, moderno, sedento de liberdade, que estava escondido sob o manto sombrio do regime dos mullahs, parece ter-se esquecido. A brutalidade da repressão parece ter sido suficiente para manter o regime a salvo, apesar das divisões internas que a crise do Verão passado tornou claras. E as sanções aprovadas esta semana pela ONU contra o programa nuclear do país não chegam para pôr em causa o regime. Isso significa que, um ano depois das eleições, esvaíram-se as esperanças tanto numa mudança política como numa nova postura a nível internacional. A repressão fez esmorecer os protestos, o regime preservou a sua coesão interna e a recusa em negociar a questão nuclear manteve-se. O Irão permanece ser um beco sem saída para a comunidade internacional. A crise interna não afectou a sua capacidade de influência regional, o que é um duro revés para as esperanças de Barack Obama numa mudança no Médio Oriente. E um sinal de como a ideia de democracia é menos forte no mundo global, apesar de ter inspirado um movimento como o que há um ano tomou conta das avenidas de Teerão.

A educação como detalhe estatístico

Em Portugal, o mau hábito de esconder os problemas da educação atrás de estatísticas atraentes continua a fazer escola. Num certo sentido, pode mesmo dizer-se que a arte do belo efeito estatístico quase substitui o pensamento sobre a educação. O sucesso escolar e a luta contra o abandono da escola são exemplos de situações onde os números têm servido para fazer sorrir os governantes e esconder os problemas. É o caso, também, dos dados que publicamos hoje sobre a descida das taxas de retenção (chumbos, em linguagem corrente) no 3.º ciclo e no secundário. O Governo dizia que esses números eram a prova de que as coisas estavam melhores. E os críticos juravam que isso queria dizer que os exames se faziam com uma perna às costas. Contas feitas, a saída dos alunos do chamado ensino regular para os cursos da via profissionalizante - nos quais não há exames - é um factor central para explicar essa mudança. Um "efeito estatístico" que nada traduz quanto à melhoria da qualidade do ensino, diz ao PÚBLICO o investigador e antigo governante Joaquim Azevedo. Ou seja, há menos chumbos, porque muitos alunos que teriam dificuldades em passar de ano nem fazem exames. Um detalhe estatístico?