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A ópera espacial de Flying Lotus

Flying Lotus integra uma comunidade de artistas de Los Angeles que partem do hip-hop para todos os sons do mundo e têm o portátil na cabeceira
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Flying Lotus integra uma comunidade de artistas de Los Angeles que partem do hip-hop para todos os sons do mundo e têm o portátil na cabeceira

É o homem de quem se fala em L.A. Motivo: "Cosmogramma", o disco em que mistura jazz, hip-hop, videojogos e electrónica e nos devolve um mundo novo. Vai haver concertos no Sónar, na Corunha e em Barcelona

É mais um daqueles discos que nasceram no dia a seguir ao juízo final. Vulcões que cospem fogo. Paisagem árida. Restos de civilização industrial. Lixo. Cacos. Uma pilha de computadores portáteis. Consolas de jogos vídeo necessitadas de respiração boca-a-boca. E alguns sobreviventes. Entre eles Steve Ellison, 27 anos, mais conhecido por Flying Lotus. E o que faz ele enquanto a terra desaba em redor? Tenta consertar um computador. Quase consegue. Mas, mesmo com um computador avariado, não desiste. Começa a criar música. Cola as peças que tem à sua disposição. E o que sai de lá é um som desengonçado, titubeante, hip-hop sem ser hip-hop, com qualquer coisa de psicadélico, caldeirão borbulhante de alusões cósmicas, andamentos elásticos, recorte de sonhos e realidade.

"Não tenho nenhuma ideia em particular em mente quando parto para um disco", diz-nos ele, "são esboços, fantasias, apontamentos, aos quais vou atribuindo sentido. Neste caso aconteceu-me com frequência acordar de noite para rabiscar alguns sonhos, mas diria que eles não têm uma tradução directa no som do disco." Já perceberam. Steve Ellison é um alquimista do som. Alguém que pensa a música a partir de noções como espaço, tempo, temperatura, texturas, ideias rítmicas, estruturas que fogem à norma. Sobretudo espaço: "Vejo este disco como se fosse uma ópera espacial, qualquer coisa perdida num lugar que pode ser reconstruído, idealmente, a cada nova audição".

Na maior parte dos temas que compõem "Cosmogramma", o seu terceiro álbum (o segundo para a Warp, editora de culto inglesa), não há vozes, mas quando há são de gente conhecida. Uma dessas vozes é de um admirador - Thom Yorke dos Radiohead, que surge no tema "...And the world laughts with you", e com quem andou em digressão há pouco tempo. Para essa faixa, gravou o som dos últimos sinais vitais do monitor do hospital onde a sua mãe viria a falecer em 2008. "Prefiro utilizar sons originais, nunca antes utilizados, mas se isso não acontecer não é o fim do mundo", afirma, acrescentando que grava imensos sons concretos - "ando sempre com um pequeno gravador". A ideia do título foi do próprio Steve. "Era uma canção que me dizia muito, pessoalmente, e fiquei muito satisfeito por Thom Yorke ter entrado no seu universo sem problemas, adaptando-se a ele e enriquecendo-o com a sua visão."

A sua música nem sempre entra à primeira. Às vezes nem à segunda. Obriga a algum tempo de habituação. É exigente. "Se tenho consciência disso?", interroga-se, "de alguma forma sim, porque não me interessa fazer uma música qualquer, variação do que já foi feito inúmeras vezes, já existe por aí muita gente a fazê-lo", continua, referindo-se a grupos rock que foi vendo nos festivais por onde transitou.

Portáteis e Alice Coltrane

Nos últimos meses, também se falou de Flying Lotus por ter participado no magnífico álbum "A Sufi And A Killer", do americano Gonjasufi. Ele e Gaslamp Killer - outro dos participantes nesse disco - constituem o rosto de uma comunidade de artistas que trabalha em Los Angeles, na fronteira de várias linguagens, entre as electrónicas, o dubstep ou o hip-hop. Utilizam o computador com à-vontade, recorrem à biblioteca de sons do mundo, são virtuosos do portátil. Ellison conhece-os a todos, quando referimos nomes como Madlib, Daedelus, Sa-Ra Creative Partners, Nosaj Thing ou Ras G mas prefere realçar que cada um tem a sua identidade própria, destacando Gaslamp Killer. "É fantástico! Consegue buscar sons que nunca ouvi em nenhum lado. Consegue quase sempre surpreender, o que não é nada fácil."

Partilham a mesma cidade, Los Angeles, e, mesmo que não sejam uma família, alguns deles representam a alternativa mais consistente aos padrões mais massificados das linguagens urbanas. Quase todos emergiram no seio da cultura hip-hop, mas a sua perspectiva é ampla. Mais do que a retórica, assimilaram os procedimentos criativos. E todas as músicas em volta. No caso de Steve, o jazz teve uma importância decisiva na sua formação.

É vizinho do primo Ravi Coltrane, o saxofonista de jazz que participa em três faixas do novo álbum. Mas foi a tia-avó Alice Coltrane, mulher e colaboradora do lendário John Coltrane, e líder da sua própria formação, numa linha jazz cósmica, que mais o marcou. Harpista e pianista, Alice morreu em 2007. "Na verdade oiço mais jazz agora do que quando era mais novo, mas é claro que Alice é uma referência muito importante", explica, recordando que ela era capaz de cantar e tocar horas numa igreja. "Gostava que as pessoas a recordassem para sempre e, em parte, foi por ela que utilizei uma série de sons de harpa neste disco."

O título do álbum é, também em parte, uma referência a ela. "Gostava de se referir a uma espécie de mapa do universo do qual faríamos parte. Dizia que o mundo material era ilusório e que tínhamos que ser nós a atribuir sentido ao mundo, criando talvez outro, mais ilimitado, no interior de cada um de nós." A música, para ele, pode ter essa faculdade: "Quando oiço a minha música, é como se fosse uma espécie de meditação, qualquer coisa que me liga com aquilo que sou e com aquilo que me rodeia. É uma espécie de hipnose."

Tal como acontece nos discos, ao vivo Steve é um desses raros manipuladores de computador que surpreendem. Produz um cosmos próprio. Interage com a assistência. Cria momentos de improviso. "Nunca sei por onde vou", ri-se, antecipando os concertos que dará no Festival Sónar da Galiza, na Corunha (19 Junho), e de Barcelona (18 Junho). "Nunca repito combinações de sons, gosto de me pôr em causa, de arriscar; às vezes nem sempre resulta, mas se fosse de outro modo seria uma mentira e a isso não estou disposto. Quem quiser ouvir os meus discos que os oiça. Ao vivo é diferente."

Em "Cosmogramma", há um fluxo contínuo de informação. Sons ambientais, ruídos obscuros, linhas de baixo jazzisticas, orquestrações, vozes, desvios súbitos e toques que parecem extraviados de jogos vídeo, numa colisão de partículas infinita,  recompondo cenários conhecidos ou provocando embates inéditos. No centro, a imaginação transbordante de Flying Lotus.

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