Crítica

Um outro mundo no computador

Dêem-me um computador e eu dar-vos-ei todo um novo mundo parece dizer Flying Lotus

Dêem-me um gira-discos e uma mesa de mistura e dar-vos-ei o mundo, dizia há anos DJ Spooky, afirmando as técnicas de corte-e-colagem, provenientes do hip-hop, como possibilidade de revelação de novos mundos ao mundo. Hoje a ferramenta é outra. Dêem-me um computador e eu dar-vos-ei todo um novo mundo parece dizer Flying Lotus.

Ao terceiro álbum, Steven Ellison, ou seja Flying Lotus, projectou um lugar só seu. Até aqui existia a tentação de o colar ao núcleo de produtores pós-hip-hop. Mas nitidamente essa é uma etiqueta cada vez mais redutora. Sim, é verdade, o ponto de partida, a estrutura base do edifício, ainda remete para o legado do hip-hop. Mas cada vez mais o resultado final é qualquer coisa de indefinível, resgatando elementos do jazz, das electrónicas abstractas, da saturação dubstep ou até do som dos videojogos.

Nem sempre é um disco fácil. Há momentos em que é preciso mergulhar nele para sairmos de lá com pontas de inteligibilidade. O jazz é uma das grandes influências, ao nível das estruturas mas também na formatação de sons, em particular a música de Alice Coltrane. Quase todos os temas têm diferentes níveis de leitura, camadas sobrepostas que nem sempre parecem formar um todo coerente num primeiro momento, para de seguida, adquirirem formas perceptíveis.

Mas Steven Ellison nunca facilita. Nem quando ao seu lado está Thom Yorke, dos Radiohead, com a sua voz a ser tratada como qualquer outro instrumento. Algures entre os impulsos rítmicos do falecido J Dilla, as atmosferas nocturnas de Burial e o jazz cósmico de Coltrane, arquitecta um cosmos só seu, num álbum fascinante, daqueles que prometem sempre novas descobertas a cada audição.

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