Louise Bourgeois (1911-2010) O último beijo da mulher-aranha

Fotografada por Mapplethorpe
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Fotografada por Mapplethorpe

Palavras dela: "Fui ao Inferno e voltei e, deixem-me que vos diga, foi maravilhoso." A artista plástica Louise Bourgeois morreu ontem em Nova Iorque

Um portento de pouco mais de um metro e meio de altura vindo lá de trás, do arranque do século XX, a atravessar a história do mundo contemporâneo para chegar até nós, ao novo milénio, com a pujança de um colosso sem tempo.

O caminho todo. E, depois, o fim da viagem - ontem a mulher-aranha recolheu-se na sua teia de memórias e fechou os olhos: a artista plástica Louise Bourgeois morreu no Beth Israel Medical Center, em Manhattan, segundo anunciado ao princípio da tarde de Nova Iorque por Wendy Williams, directora do Louise Bourgeois Studio. Bourgeois faria 99 anos a 25 de Dezembro.

E, sim, os números enganam. Afinal, não tivemos tanto tempo assim pa- ra conhecer este ser raro. Pouco mais de duas décadas desde que em 1982 o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque organizou a primeira exposição retrospectiva de sempre da sua obra; apenas dez anos desde que a Tate Modern, de Londres, caiu como uma bomba no circuito expositivo internacional revelando ao mundo Maman.

Freud tinha explicado tudo sobre aranhas até nos depararmos com esta imensa representação da mãe a olhar-nos lá de cima, do alto das suas gigantescas patas de aço como quem avança Turbine Hall fora.

Bourgeois falaria num "símbolo de benevolência e protecção". A mesma candura com que aos 71 anos apareceu no estúdio de Robert Mapplethorpe para se fazer fotografar de sorriso rasgado dentro de um casaco de pêlo e com um poderoso pénis erecto enfiado debaixo do braço. Foi na mesma altura em que publicou um texto autobiográfico intitulado Child Abuse explicando como a mãe a usara como espia para obter informação sobre o caso de anos que o marido manteve com a governanta da família.

Foi em Paris, e há imagens deles todos juntos. Depois, à distância de Nova Iorque, para onde se mudou em 1938, Bourgeois continuaria sempre a partir exorcismo dos demónios do passado como motor criativo.

Aranhas, falos de metal e látex, esfinges cobertas de seios, madeiras velhas de décadas e mármores acabados de polir, tecidos cozidos e recozidos, pequenos desenhos a vermelho, como sangue, roupas antigas (às vezes as dela, de criança), presenças disformes, por vezes grotescas, narrativas a aflorar o macabro: a obra de Bourgeois tece uma trama de densíssima carga emocional, um murro no estômago do ponto de vista dos subtextos psicológicos. Mas o humor está também sempre ali, ao virar da esquina.

Há três anos, com nova exposição na Tate, a artista acedeu a criar um objecto para vender às centenas na loja do museu, um pequeno lenço bordado com uma frase: "Fui ao Inferno e voltei e, deixem-me que vos diga, foi maravilhoso."

Nessa altura, em entrevista ao Observer, diria: "Os meus trabalhos são retratos de uma relação e a minha relação mais importante foi com a minha mãe. Agora, como é que estes sentimentos por ela chegam até à minha interacção com as outras pessoas e como é que estes sentimentos por ela alimentam o meu trabalho, é [uma questão] tão complexa quanto misteriosa. Ainda estou a tentar perceber os mecanismos [desse processo]."