Reino Unido corta a fundo na despesa para travar o défice

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George Osborne foi rápido a fazer novas contas ao Orçamento Dan Kitwood/REUTERS

Governo vai congelar contratações, acabar com viagens e motoristas particulares e emagrecer o Estado, mas os cortes não vão ficar por aqui

Depois de o ano passado ter ficado para história como o ano da crise económica e financeira, 2010 arrisca-se a ficar conhecido como o ano de combate aos défices. Depois de a Grécia, de Portugal e de Espanha terem apresentado planos de austeridade para tentar travar o desequilíbrio das contas públicas, ontem foi a vez de o Reino Unido anunciar um corte de sete mil milhões de euros. Nos próximos dias, deverão seguir-se a Alemanha e a Itália, que estão a preparar reduções de despesa com vários dígitos.

Comparando com o plano de austeridade português, as diferenças são óbvias, não só em termos de valores (já que a própria dimensão das economias é diferente), como dos próprios alvos de intervenção cirúrgica. Enquanto o Governo português dividiu os sacrifícios em duas frentes (aumento da receita e redução da despesa), o Reino Unido privilegiou o combate à despesa.

Contudo, olhando para a poupança gerada em relação ao produto interno bruto (PIB), Portugal está a meio do caminho nos esforços assumidos. O plano de austeridade anunciado pelo recém-eleito Governo de David Cameron permitirá uma poupança equivalente a 0,44 por cento PIB, que ascendia aos 1,4 biliões de libras (1,6 biliões de euros) no ano passado. Em Portugal, a percentagem é um pouco maior - 1,2 por cento de um PIB de 163,6 mil milhões de euros.

Na Alemanha, prevê-se um pacote de dez mil milhões de euros por ano até 2016 (ver texto ao lado), o que, só neste ano, representa 0,42 por cento do PIB (a seis anos, a percentagem sobe para 2,5). Em Itália, o esforço de austeridade deverá ascender aos 1,6 por cento do PIB.

À frente de um governo acabado de eleger e que não logrou obter a maioria no Parlamento, o primeiro-ministro, David Cameron, pode já vangloriar-se de ter conseguido unir liberais e conservadores naquela que é "a mais rápida e mais abrangente revisão de despesas na história recente", tal como disse ontem o ministro das Finanças, George Osborne.

Nem os motoristas escapam

Esperando alcançar uma poupança total de 6,2 mil milhões de libras (7,2 mil milhões de euros), o pacote de austeridade britânico vai cortar em quase todas as frentes. Além de suspender as contratações para a função pública e eliminar os cheques bebé (subsídios aos recém-nascidos), vai reduzir em centenas de milhões de euros os orçamentos de vários ministérios, como a Administração Local, a Economia, os Transportes, a Educação, o Trabalho e as Finanças. Mil milhões de libras serão economizadas em consultoria e viagens e o dobro em informática, material e imobiliário. Outros 1,7 mil milhões serão poupados com o adiamento ou cancelamento de contratos e projectos com os 70 maiores fornecedores do Governo.

Os ministros deixarão ter um motorista particular para conduzir o seu carro, salvo em "circunstâncias muito excepcionais". O secretário do Tesouro britânico, David Laws, que quando assumiu o cargo abdicou do seu Jaguar com motorista, disse mesmo esperar que os ministros vão para o trabalho "a pé ou de transporte público sempre que possível".

Embora uma parte (500 milhões de libras) dos cortes totais se destinem a financiar programas de promoção de emprego, a maior fatia irá para pagar o défice orçamental que, no ano passado, atingiu um recorde de 145,4 mil milhões de libras, o equivalente a 11,5 por cento do PIB. A economia também tem tardado em recuperar e, após uma queda de 4,3 por cento no ano passado, avançou 0,2 no primeiro trimestre face ao anterior.

Logo depois de o Governo britânico ter anunciado os detalhes do pacote de austeridade, as críticas não se fizeram esperar e deverão subir de tom nos próximos dias ou mesmo estender-se à acção, nomeadamente das uniões sindicais.

Brendan Barber, responsável da Trades Union Congress (o sindicato nacional central), avisou já que o pacote de austeridade é "perigoso" e que poderá fazer o país voltar a mergulhar na recessão. O ex-chanceler do Tesouro Alistair Darling alertou também para que os cortes "vão afectar seriamente o apoio às empresas, implicar desemprego para os mais jovens e atingir os estudantes".

De acordo com o Chartered Institute of Personnel and Development, o plano de austeridade britânico poderá custar milhares de empregos. "Embora o Tesouro não faça nenhuma referência explícita ao impacto dos cortes no emprego do sector público, a combinação do congelamento das contratações com a redução das despesas em outras áreas deverá reduzir o emprego no sector público em 50 mil pessoas neste ano", considera o instituto.

Contudo, se os impactos ainda estão por medir, certo é que o apertar de cintos não deve ficar por aqui. "Decisões ainda mais difíceis esperam por nós, se queremos restituir responsabilidade após anos de extravagância e má gestão das finanças públicas", alertou David Laws.

Com dificuldades em conseguir mais dinheiro para manter o seu nível de despesa corrente, o Reino Unido viu as suas contas públicas deteriorarem-se depois de ter socorrido várias instituições bancárias em perigo, devido aos impactos da crise financeira internacional. "Herdámos um desastre económico", resumiu ontem George Osborne. Nada que o novo Governo não tivesse depreendido ao ler a mensagem que o ex-secretário do Tesouro Liam Byrne deixou numa carta ao seu sucessor: "Caro secretário, lamento informá-lo que já não há dinheiro."