Ao fim de uma década de crédito fácil, os mercados assustaram-se com o país

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O peso das dívidas também se sente no sector bancário REUTERS/Jose Manuel Ribeiro

O euro, pensava-se, permitiria ao país corrigir gradualmente o seu nível de endividamento. Os últimos meses vieram mostrar o contrário

Onze anos depois da adopção do euro, Portugal é agora um país dominado pela dívida. Estado, empresas, famílias e bancos apostaram durante anos numa política de recurso ao crédito para consumirem, investirem e realizarem os seus negócios e agora estão, nestes primeiros meses de 2010, mais pressionados do que nunca para mostrar que são capazes de fazer face aos compromissos que assumiram. Por causa da crise da dívida pública europeia, chegou mais cedo do que muitos previram a a hora de responder às preocupações dos credores, tanto no sector público como privado.

A história de como se chegou a este ponto é simples. Desde que se tornou certo que Portugal iria entrar no clube do euro, passando por isso a poder contar com taxas de juro, não de dois dígitos como no passado, mas sim semelhantes às alemãs, os portugueses viram abrir-se-lhes as portas do maravilhoso mundo do crédito.

As taxas de juro dos empréstimos estavam abaixo da inflação, os avisos para que houvesse prudência eram poucos e os apelos dos bancos para os seus empréstimos com taxas baixas foram ficando cada vez mais fortes. O resultado foi que, a partir de metade dos anos 90, as famílias compraram casas, carros e electrodomésticos com recurso ao crédito, as empresas cresceram e investiram através do endividamento e o Estado não aproveitou a descida dos encargos com a dívida e a expansão económica para começar a registar excedentes orçamentais (ver texto na página 2).

Neste momento, o endividamento dos particulares já ultrapassa largamente o seu rendimento disponível anual, com um dos indicadores mais altos da Europa. As empresas atingiram um nível de endividamento recorde na zona euro. O Estado está, na compararação com os parceiros europeus, um pouco melhor neste capítulo, com um nível de endividamento que está próximo da média europeia, mas ainda assim registou em 2009 um défice que apenas fica abaixo da Grécia, Espanha e Irlanda na zona euro.

O resultado global de todas estas decisões - conjugado com a incapacidade da economia de produzir ao mesmo nível que consome - foi que o país, como um todo, acumulou um elevado nível de dívidas face ao estrangeiro, principalmente através do sector bancário - que para emprestar às empresas e às famílias recorreu aos empréstimos dos bancos estrangeiros de maior dimensão.

O endividamento líquido do país face ao estrangeiro, que em 1996 não passava de 10,6 por cento do PIB, ultrapassou pela primeira vez a marca dos 100 por cento em 2009.

A surpresa má e imprevista

O grande problema de ter tanta dívida é, claro, que um dia ela tem de ser paga. Ainda assim, com a entrada no euro, muitos economistas tinham assumido que a subida do endividamento externo não levaria à eclosão de uma crise brusca, semelhante às registadas nos anos 70 e 80. No passado, com o escudo como moeda, aos primeiros sinais de excesso de endividamento, a divisa era logo pressionada e tornava ainda mais difícil a Portugal fazer face à dívida que tinha no estrangeiro. Mas, com a protecção dada pelo euro, pensava-se, tudo seria mais moderado.

É certo que os credores estrangeiros começariam lentamente a penalizar os empréstimos pedidos por Portugal, o que forçaria consumidores, empresas e Estado a adaptarem-se, mas tudo de uma forma que daria tempo para o país adaptar a sua estrutura produtiva, ajustando-a a novos níveis de consumo.

Os últimos meses, contudo, trouxeram uma grande surpresa. De repente, devido à crise da dívida pública nos países periféricos da zona euro, os mercados assustaram-se. De tal forma que começaram a pedir taxas muito mais elevadas, não só ao Estado, mas também aos bancos.

E agora, uma coisa parece certa: os portugueses (particulares, empresas e Estado) vão ter de reduzir drasticamente a sua dependência do endividamento externo. É isto que os mercados - com a ajuda dos líderes dos maiores países europeus - estão a exigir a Portugal (e à Espanha e Grécia também). "A mudança do clima internacional tornou inevitável que o nosso ajustamento tenha que ser agora mais abrupto, mais rápido e mais severo", sentenciou recentemente o governador do Banco de Portugal.

Para fazer isto de forma tão urgente, só com medidas drásticas de austeridade. Ou seja, com os portugueses a assistirem a uma redução do seu rendimento disponível e a terem de corrigir os seus níveis de consumo, algo que pode colocar o país, avisam muitos economistas, de novo em recessão e perante o risco de enfrentar uma espiral deflacionista que pode prolongar o já longo período de estagnação económica.