Os paraísos artificiais de Gabriela Albergaria

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"Térmico", no Pavilhão Branco do Museu da Cidade, em Lisboa, é o momento oportuno para o reconhecimento de um caso singular da arte portuguesa. E de uma obra que encontra nos espaços naturais o material do seu fazer.

Uma árvore tombada em cuja base alguém acoplou um parafuso. Uma massa de terra feita escultura e destituída de fertilidade. Outra árvore e um desenho de fundo que, juntos, criam um cenário. Um desenho de uma paisagem. Eis a descrição possível das obras que Gabriela Albergaria (Vale de Cambra, 1965) apresenta em "Térmico", exposição individual, com curadoria de Delfim Sardo, que fica no Pavilhão Branco do Museu da Cidade, em Lisboa, até meados de Junho. Ao todo, são três desenhos e duas esculturas em que as técnicas da botânica "servem" como dispositivos da arte dirigidos à experiência e ao conhecimento do espectador - descubram no pavilhão os ramos de árvores que "são" desenhos, ou a matéria orgânica como forma escultórica.

É esta capacidade de "trabalhar", com várias disciplinas (desenho, escultura, fotografia), espaços e lugares associados ao universo da natureza - como os jardins, as florestas, as estufas - que faz de Gabriela Albergaria um caso singular da arte portuguesa. O seu percurso permanece porém, relativamente "secreto", pelo que se justifica o devido "flashback". Façamo-lo.

Formada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, desceu no início dos anos 90 a Lisboa, tendo aí desenvolvido a primeira fase da sua carreira. Expôs gravura na Galeria Monumental, trabalhou em ilustração e ensinou na Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, antes de conseguir em 2000 uma bolsa enquanto artista residente no programa internacional da Kunstlerhaus Bethanien, em Berlim. Desde então vive na capital alemã e expõe com mais frequência no estrangeiro do que em Portugal.

As razões que ditaram a partida foram prosaicas - necessidade de tempo para desenvolver o trabalho, fuga às preocupações económicas -, mas as consequências da deslocação acabaram por ditar um salto. "Já tinha abordado antes o tema dos jardins, mas em Berlim comecei a estabelecer uma relação especial com os espaços e o exterior, ao perceber a forma como as pessoas viviam os lugares. Isso ajudou-me a pensar mais especificamente o meu trabalho à volta das questões da natureza", recorda. O confronto do corpo com a cidade também contribuiu para outras coordenadas. "Foi lá que passei a aumentar os desenhos, pois tinha um estúdio muito maior. Comecei, também, a fazer outras coisas em termos de escala, porque vivia-a de outra maneira".

Outro momento relevante: a série de visitas que Gabriela Albergaria realizou a jardins e parques, acompanhada do curador e historiador Peter Lang. Não apenas na Alemanha, mas também na Polónia e na República Checa. "Interessava-me, sobretudo, a relação desses povos com a natureza. Visitámos, por exemplo, o jardim Dessau-Wörlitz [construído no final do século XVIII e inspirado nos ideais do iluminismo] e o Bad Muskau, criado pelo conde Fürst Pückler, com amostras de alguns cultivos da Alemanha e uma pirâmide de terra sob a qual está sepultada a amante do conde".

Uma natureza substituta

O jardim como espaço de vivência física e emocional é o tópico central de "Un jardin à ma façon" (2006), obra apresentada pela primeira vez no Centro Cultural Calouste Gulbenkian de Paris e refeita para "Térmico". Consiste numa peça inspirada na correspondência de Calouste Gulbenkian com o arquitecto da sua casa/jardim de campo Les Enclos. A artista desenhou, a lápis de cor e sobre papel, um dos caminhos descritos pelo coleccionador; depois, paralelo ao desenho, colocou uma árvore caída num suporte de madeira. Pela sua qualidade formal e estética, é uma das peças mais desconcertantes: os ramos parecem desenhos tridimensionais e o desenho de fundo ganha a qualidade de um cenário.

A artista, no entanto, mostra-se pouco inclinada para certas categorias. "Gosto de criar nas minhas peças um conjunto de harmonias, não tenho medo do belo. Mas creio que o meu trabalho se afasta desse conceito. É mais importante para mim a questão da experiência. Não me interessa a via mística, mas desejo que as pessoas tenham uma relação com as peças que não passe apenas pelo olhar". De facto, é difícil descortinar o "belo" na escultura "Árvore com parafuso" (2010). Sem raiz, substituída por um parafuso de aço galvanizado, suspenso por cabos e atravessado por espigões, o tronco de uma acácia configura um ser uma situação tão violenta quanto artificial. Não há vestígios de paisagem, apenas um objecto que se desenha no espaço e delimita a presença do corpo do espectador.

Um desafio semelhante à percepção do objecto e do espaço toma forma em "Couche Sourde" (2010), inspirada numa técnica homónima de cultivo. Explica a artista: "É um método de germinar sementes através do composto e do adubo, e que existia antes das estufas. A terra, quando está a formar o composto, ganha calor e força a semente a abrir. Concebi-a em Oxford durante a residência no Botanic Garden, onde existe um arboreto com uma área de terra com composto orgânico. Interessou-me o volume, a cor, o facto de ser uma matéria simples, as possibilidades que oferece". Entretanto, a artista prensou a terra (através do processo da cofragem) e retirou-lhe oxigénio, impedindo a germinação. No seu lugar, criou um objecto artístico, uma escultura que, vista de um ângulo particular, sugere uma linha no espaço, sem volume ou espessura.

Voltemos a um dos motivos mais recorrentes na obra de Gabriela Albergaria: o jardim. Afinal de que forma a artista o aborda? Como material, dispositivo, tema? "Para mim é uma espécie de substituto da 'natureza pura'", responde. "Se num primeiro momento surge e surgiu como fascínio, é na sua analise exaustiva que encontro sentido. Na vivência do espaço físico ou nas impressões do local, físicas e mentais. Passear num espaço natural é para mim uma forma de 'desacelerar' e de me relacionar com outro tempo com as coisas". O jardim, resume, é "um ponto de partida para pensar sistemas de conhecimento e de poder".

Novas formas de vida

"Under An Artificial Sky", o segundo desenho de "Térmico", é um bom exemplo desse entendimento. Gabriela Albergaria reconstituiu um cenário natural de uma das mais importantes estufas da Alemanha, construída na ilha de Pfaeuninsel e destruída num incêndio em 1880. De grandes dimensões, envolvendo o espectador, o desenho deixa entrever pequenas invasões, desenhos sobre desenhos, uma ficção: flores e plantas exóticas misturadas com a flora local. Gabriela Albergaria alude, assim, a uma situação de artificialidade (a estufa) e à colonização das plantas em território europeu. E, dessa forma, interroga não apenas as fronteiras entre o natural e o artificial, mas também o seu próprio processo de trabalho. "Ao criar uma relação privilegiada e até de encantamento, uma estufa torna-se mais real do que o próprio jardim exterior que a envolve. E eu, ao importar técnicas da agricultura para o meu trabalho, crio plantas fora do seu ambiente natural, e até novas formas de vida". A artificialidade da natureza perante a artificialidade da arte, como acontece exemplarmente em "Un jardin à ma façon"?

A meio do primeiro piso, revela-se outro desenho. "Foi a última peça que fiz para aqui. Teve vários momentos. Pensei em fazer uma frase desenhada na parede, como noutros projectos, mas escolhi a moldura. Tirei-lhe assim a conotação romântica e ficou um enunciado minimal e poético que aglutina a exposição. Fundamentalmente, o solo numa estufa recolhe o calor do sol e liberta-o durante a noite. Quanto maior a estufa, mais calor retém".