O cancan de Mathieu Amalric com o bigode de Paulo Branco

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Um grupo de strippers generosas e o seu empresário. "Tournée" é melancolia, uma raiva rock n roll. Já era autor francês, Mathieu Amalric, agora é um cineasta selvagem. Com bigode a condizer

Um pouco, ou muito, de "The Killing of a Chinese Bookie", de Cassavetes, algo de Renoir (de Jean e de Auguste), ou seja, uma generosidade no olhar e nas formas, muita melancolia e alguma raiva rock'n'roll. E, apesar disto tudo, um filme muito pessoal e muito livre, "Tournée", a quarta longa metragem de Mathieu Amalric (competição). Com que o realizador, e actor, solta algo próximo de um grito de independência, rasgando uma certa imagem de auteur e de intérprete do cinema francês (pensamos no que faz para o cinema de Arnaud Desplechin, por exemplo), criando algo de mais inclassificável e selvagem.

Teve a ajuda de opulentos exemplares do striptease americano, Mimi Le Meaux, Kitten on the Keys, Dirty Martini ou Julie Atlas Muz, criaturas do revival de uma tradição do vaudeville americano, o New Burlesque (pensem em Dita Von Teese, tudo bem, mas a generosidade de formas aqui é renoiriana: menos design escultural, também algo de menos domesticado). E teve a ajuda também, pièce de résistance, do bigode do produtor português Paulo Branco.

Amalric interpreta o empresário de um show de burlesque, que regressa a França com as suas artistas, recrutadas nos EUA, disposto a vencer na sua terra, isto é, ambicionando acabar a tournée deste american cancan pela costa francesa e por hotéis esquecidos com um espectáculo que faça dele um vencedor numa sala da capital, Paris (onde, já agora, nunca chegara.) É o tipo de malaise e de personagem melancólica, em fuga, nunca se sabendo se corre para um objectivo ou de si próprio, que Ben Gazarra deixou emolduradas para a eternidade cinematográfica em "The Killing of a Chinese Bookie", de John Cassavetes (onde o Abel Ferrara de "Go Go Tales" e o actor Willem Dafoe foram beber).

Devia ser Paulo Branco

Joachim, assim se chama a personagem, esteve para ser interpretado por Paulo Branco, forma de Amalric homenagear criaturas que o fascinam, os produtores de cinema, "a sua loucura e a sua coragem", como disse numa entrevista ao falar de uma personagem (e de um certo tipo de produtor, obviamente...) que faz questão de se manter como "príncipe" mesmo "não tendo reino nem, sobretudo, poder", nada a não ser "o poder inútil da sua liberdade". Paulo Branco não prosseguiu depois dos ensaios, Amalric decidiu interpretar a personagem e homenageou o seu-actor-que-não-o-foi com o bigode.

E "Tournée" é livre, é generoso e caótico, estando sempre em trânsito entre o documental - os shows de striptease, filmados realmente em tournée pela costa francesa, coreografia da autoria das próprias artistas - e o ficcional, ligado a personagem de Amalric. Desenvolve-se através de linhas de fuga que desviam mas ao mesmo tempo se alimentam de uma base, a que regressam, como quem procura o conforto e a segurança, digamos, maternos - esse é, se quisermos ver assim, o périplo do janota existencialista Joachim, que de pai se torna filho, sempre de saída e sempre de regresso a estas meninas esplendorosamente fotografadas, criaturas de carne e de luz, por Christophe Bucarne.

O plano final é um grito de Joachim, é um pedaço de rock'n'roll na banda sonora. É o tour de force do cineasta Amalric.

Esta é a gana que falta a "Chongqing Blues", de Wang Xiaoshuai (Urso de Ouro em Berlim com "Beijing Bycicle", em 2001, e Prémio do Júri em Cannes com "Shanghai Dreams", em 2005). Falta-lhe isso e o trânsito visceral entre o cinema e a realidade, o que espanta tratando-se de um cineasta de uma geração, a sexta do cinema chinês, que se empenha em documentar as consequências das mudanças rápidas no seu país.

Nada livre

Xiaoshuai, tal como Jia Zhang Ke (que também apresenta o seu novo filme em Cannes, na secção Um Certain Regard), tem filmado espaços engolidos pelo desenvolvimento económico, uma memória que desaparece, personagens que ficam num torpor, esventradas do seu passado.

Mas em "Chongqing Blues" (competição) nem essa relação com um espaço, uma cidade, Chongqing, é trabalhada, nem a história - um pai que segue os rastos de um filho, que não via há uma década, que foi abatido num incidente com a polícia - se liberta de constrangimentos melodramáticos e narrativos, a ficção parece não aproveitar nada do real. Um filme nada livre.

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