"Vão pagar-me para não trabalhar", diz Christoph Dammann

Foto
Christoph Dammann entrou no São Carlos em 2007 Carlos Lopes

Terça-feira, dia em que Christoph Dammann se despediu da sua equipa, o ex-director artístico no Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) recebeu o P2 para fazer o balanço dos últimos três anos. Este musicólogo alemão, que em 2007 trocou Colónia por Lisboa, sabe que, quando se está à frente de um teatro de ópera, não se pode agradar a toda a gente. Mas se pudesse voltar atrás no tempo, com estas condições financeiras e com os objectivos que o Estado lhe apresentou quando lhe fez o convite, voltaria a fazer exactamente a mesma coisa.

"Pôr um teatro de ópera no bom caminho não tem segredos, mas é preciso experiência e competência", diz, explicando ao mesmo tempo por que razão considera que a sua equipa cumpriu os objectivos propostos pela tutela (Cultura e Finanças, os ministérios que regem o organismo de que o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado fazem parte, o Opart - Organismo de Produção Artística). Para o provar, Dammann fala de números: o teatro colaborou com mais artistas portugueses, triplicou o número de espectadores (em 2006, o São Carlos teve 27.168 e, em 2009, fechou a temporada com 83.579, incluindo o Festival Ao Largo) e conseguiu que o seu financiamento pelo Estado passasse de 513 euros/por espectador, em 2006, para os actuais 156 euros (a média alemã é de 100 euros/por espectador).

Dammann iniciou funções a 1 de Junho de 2007, sucedendo a Paolo Pinamonti, e deveria terminar o seu contrato em Agosto de 2012. Mas, já este ano, depois de uma avaliação do trabalho no São Carlos, Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura, comunicou-lhe que queria mudar a direcção artística. Dammann assinou no dia 30 de Abril o acordo de rescisão.

Por que é que, tendo direito a uma indemnização maior, no valor de mais de 431 mil euros, acabou por aceitar sair com 133 mil euros, segundo o Ministério da Cultura? "Digamos que é uma indemnização de 150 mil euros. Tinha duas hipóteses: ir para tribunal ou negociar. Claro que um profissional com boa vontade e com alguma inteligência prefere negociar." No tribunal o processo demoraria em média cinco anos, diz, e o ex-director não estava disposto a gastar a sua energia lutando na Justiça. "Vou sair com uma grande indemnização e surpreendido. Afinal, vão pagar-me para não trabalhar. Eu prefiro ser pago para fazer um bom trabalho, especialmente porque a próxima temporada do São Carlos é a minha."

O fim d'O Anel

Quando o novo director artístico do São Carlos, o maestro britânico Martin André, entrar em funções a 1 de Agosto, por três anos, irá encontrar já a próxima temporada planeada pelo anterior director. "Até Março do próximo ano está tudo aprovado pelo conselho administrativo e já fizemos os contratos mais importantes", diz Dammann, garantindo que ao entrar para a direcção tinha um orçamento para a produção artística de 5,8 milhões de euros (a contabilidade do TNSC não conseguiu confirmar ontem este valor). Três anos depois, o orçamento para a programação é de 3,8 milhões (valor que inclui o decréscimo no mecenato). "A minha obrigação era equilibrar os recursos de uma maneira razoável. Claro que podia ter o teatro fechado durante muito tempo para depois apresentar 20 récitas [com grandes estrelas], mas esse não era o objectivo do Governo quando me convidou. O orçamento artístico é agora de 3,8 milhões de euros, mas o resto - a orquestra, o coro, a administração, a equipa técnica, o edifício - custa 11 milhões de euros. Para não produzir? Isso não faz sentido. Gostaria muito de fazer grandes elencos, mas não há condições e não haverá no futuro. Tenho a certeza."

Quando o orçamento diminuiu, Dammann teve de fazer ainda mais escolhas. Contava, na próxima temporada, apresentar o ciclo completo da tetralogia O Anel do Nibelungo, mas teve de desistir. Porquê? "Uma produção do ciclo, por exemplo, O Crepúsculo dos Deuses, custa cerca de 1 milhão de euros - não estou a falar de recursos do teatro, do coro, da equipa técnica, da orquestra; só estou a falar da equipa artística, dos cenários, dos figurinos e dos artistas convidados. O Anel completo costuma ser apresentado em dois ciclos (oito récitas, divididas por dois ciclos) que vão custar 1,5 a 1,6 milhões de euros [os custos das restantes três partes da tetralogia diminuem bastante em relação à primeira, porque, por exemplo, não envolvem montagem de cenários]. Com o que sobra dos 3,8 milhões [2,2 milhões] nenhum director artístico pode financiar uma temporada lírica e sinfónica razoável", explica Dammann.

A próxima temporada deverá ser inaugurada com Carmen. Convidaram a cantora Vesselina Kasarova para o papel principal, mas ainda não assinaram contrato. "Tentámos convidar uma estrela, mas o tempo de planificação é demasiado curto e as grandes estrelas têm agenda cheia para dois a quatro anos. Nós só temos o orçamento aprovado alguns meses antes do início da temporada e isso é um problema estrutural do São Carlos."

Mas mesmo esta Carmen - em versão de concerto, dirigido por Julia Jones - não está ainda garantida. "Neste momento há dúvidas se haverá Carmen, porque a minha indemnização vai ser paga através do orçamento artístico do São Carlos, e isso provavelmente implicará o seu cancelamento." Esta informação foi ontem confirmada pela administração do Opart, que acrescentou ter avisado por carta os ministérios que o tutelam do impacto que será notado no segundo semestre deste ano. Explicava ontem o Opart que a indemnização de Dammann só poderá ser paga com recurso à verba destinada à programação, porque esta é o único custo variável do orçamento do teatro. No entanto, o Ministério da Cultura garantia também ontem que o dinheiro da indemnização sairá do orçamento geral do Opart e não necessariamente do orçamento artístico do São Carlos.

João Botelho na ópera

Na programação, Dammann deixa ainda uma ópera para famílias, Hänsel und Gretel, de Humperdinck; Katya Kabanova, de Janacék, uma co-produção com a English National Opera encenada por David Alden; e o Don Pasquale, de Donizetti, numa encenação de Marco Arturo Marelli com a Royal Opera de Copenhaga.

Sem esquecer os portugueses, Dammann fez ainda uma encomenda ao compositor português Nuno Côrte-Real, para um libreto de Vasco Graça Moura. A base do enredo é de José Régio, Jacob e o Anjo, mas Graça Moura fez uma adaptação livre e transferiu todos os conflitos para os bancos, explica o ex-director: "Banksters [título provisório] é uma ópera sobre a crise e terá encenação de João Botelho. Até aqui está tudo aprovado com contratos feitos com teatros, cantores e equipas artísticas."

Como o ex-director acha muito importante que o teatro mantenha uma ligação ao encenador d"O Anel, Graham Vick, convidou-o para fazer uma nova produção de Parsifal com os mesmos cantores que já tinham reservado as datas para o período dos ciclos lisboetas. Para o fim da temporada está planeada a estreia no São Carlos de uma ópera que Mozart compôs quando tinha 18 anos, La Finta Giardiniera, com jovens cantores portugueses.

Sugerir correcção
Comentar