O que é que a crise financeira pode mudar no dia-a-dia dos portugueses?

Que impacte tem no país um agravamento do rating da República?

Tem custos muito elevados. Os juros dos novos empréstimos (emissão de obrigações do Tesouro) a pedir pelo Estado vão subir significativamente. Os juros pagos pelos empréstimos já contraídos não sofrem alteração, mas uma parte dessas emissões vai vencendo e Portugal terá de as amortizar, precisando, para isso, de pedir novos empréstimos. Ao afectar mais dinheiro para pagar a dívida, o Governo vai ter menos dinheiro para outras despesas, incluindo prestações sociais e investimento.

O empréstimo da casa vai subir?

Os empréstimos antigos não, mas os novos sim. Todos os empréstimos aos particulares - para habitação ou para o consumo - contraído a partir de agora vão pagar taxas de juro bem mais altas, porque os bancos vão passar para os clientes os aumento do custo do dinheiro que eles têm de pagar. Nos novos empréstimos à habitação, indexados às taxas Euribor (que estão muito baixas), o aumento das taxas de juro vai reflectir-se no spread, que é a margem cobrada pelo banco.

Nos empréstimos à habitação antigos não há aumentos da taxa de juro por causa da alteração do rating do país. A alteração da taxa de juro destes empréstimos decorre apenas das actualizações periódicas das taxas Euribor, a que estão indexados.

Esta é uma boa altura para pedir um empréstimo?

Não. Para além dos bancos estarem a cobrar taxas de juro mais altas, a incerteza perante a evolução da situação económica do país leva-os a adoptar critérios mais restritivos para a concessão de empréstimos (como a exigência de mais garantias e prazos mais curtos) e a agravar as comissões cobradas.

O dinheiro depositado nos bancos está seguro?

Está. O cenário de falência ou bancarrota do país é pouco provável. A situação da Grécia é muito mais grave e o cenário de falência tem sido afastado por parte da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI. Em Portugal, quando um banco vai à falência, existe o Fundo de Garantia dos Depósitos que cobre até 125 mil euros por depositante. A consequência imediata da revisão do rating é a de obrigar o Governo a tomar medidas mais drásticas para reduzir as suas necessidades de financiamento externo e, ao mesmo tempo, melhorar a competitividade da economia nacional. Além dos cortes de despesa previstos no Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), podem ser necessárias outras medidas restritivas.

Há risco de aumento de impostos?

Há. Mas antes de uma decisão dessas há outras medidas que podem ser avançadas.

A decisão da agência S&P e a pressão na bolsa e no mercado da dívida significa que os investidores estão a dizer que as medidas propostas no Programa de Estabilidade e Crescimento para o período 2011/2013 não são suficientes para provocar uma redução drástica do défice público orçamental até 2013. O Governo vai ter de avançar rapidamente com medidas adicionais ao PEC se a pressão dos mercados não abrandar. Há outras alternativas, mas o aumento de impostos, designadamente do IVA, que garante receitas imediatas, tem sido uma das hipóteses colocadas. Este cenário tem sido, para já, afastado pelo Governo. Uma decisão destas tem um impacto negativo ao nível do poder de compra das famílias e da dinamização do mercado interno. Por esta razão, têm sido defendidas medidas mais selectivas, que visem penalizar a aquisição de bens não produzidos em Portugal, como automóveis, o que poderá não ser concretizável dada a impossibilidade de impor medidas restritivas dentro do espaço europeu.

Os salários podem ser reduzidos?

Em teoria, podem, mas essa probabilidade é bastante reduzida e terá de ser aceite pelo trabalhador. Na função pública o Governo optou pelo congelamento dos salários. Em muitas empresas privadas não tem havido aumentos e, num número muito reduzido de casos, tem havido cortes de salários. Se a conjuntura continuar a deteriorar-se - fraco crescimento económico e taxas de juros elevadas -, poderá aumentar a pressão nesse sentido ou verificar-se um aumento de desemprego. Muitos economistas têm defendido o corte de salários como uma via para aumentar a competitividade do país e dessa forma aumentar as exportações nacionais. Mas um corte de salários também tem um efeito negativo ao nível da redução do consumo interno, o que pode levar muitas empresas a falir ou a despedir trabalhadores.

O Estado pode travar mais projectos de investimento, como o novo aeroporto e o troço de alta velocidade Poceirão-Caia?

Pode e tem havido uma forte pressão para que o faça. No PEC, o Governo já avança com cortes no investimento público, mas mantém outros. Alguns economistas têm defendido que alguns dos investimentos previstos, como o novo aeroporto e a ligação de alta velocidade Poceirão-Caia, não são rentáveis e, por isso, devem ser adiados. O Governo tem defendido a continuação destes investimentos.

Por que é que o país está nas mãos dos investidores estrangeiros?

Portugal apresenta um endividamento externo muito elevado. Esse endividamento foi contraído pelo Estado e empresas públicas e por empresas privadas, incluindo aqui os bancos, para satisfazer os pedidos dos particulares e empresas de menor dimensão. Neste momento, para além do endividamento do país, o Estado gasta mais do que as receitas que tem, o que o obriga a novos pedidos de empréstimo. É exactamente como uma família que gasta mais do que aquilo que ganha e que assumiu empréstimos que, se tudo correr bem, vão absorver a quase totalidade do seu rendimentos para os próximos anos. A agravar esta situação do país, a economia portuguesa está praticamente estagnada há uma década e as perspectivas de curto prazo não são animadoras.

Os empréstimos para as empresas e bancos vão ficar mais caros?

Sim. As grandes empresas e os bancos vão pagar juros mais altos nos empréstimos que vão contrair directamente nos mercados internacionais (através da emissão de obrigações) porque o rating atribuído ao país influencia a avaliação de risco das empresas nacionais. Mais risco corresponde a mais juros. Se "compram" dinheiro mais caro, os bancos vão cobrar mais juros nos empréstimos que concedem às pequenas e médias empresas, que estão dependentes dessa fonte de financiamento, e aos particulares. As grandes empresas, se vão pagar mais pelos empréstimos, vão ter menos lucros, o que afecta os accionistas/investidores. Para não afectar os lucros, as empresas terão de cortar nos custos, o que pode afectar os trabalhadores.

Uma eventual bancarrota da Grécia afecta Portugal?

Claro que afecta. Porque há um efeito de contágio. Os investidores internacionais olham com desconfiança para a situação grega e, de imediato, para os países que apresentam finanças públicas mais delicadas, como Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e outros. Por esta razão, vários responsáveis da União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional têm vindo defender que a Grécia não pode falir, porque isso ameaçaria a continuidade da própria União Europeia.