O que dizem os antigos ministros das Finanças

Ainda não há necessidade de Portugal recorrer ao FMI

Campos e Cunha (ministro no primeiro Governo de José Sócrates)

Está na hora de rezar. Neste momento, tudo é possível. Durante anos, brincámos com o fogo, deixámos que o défice e a dívida pública ficassem fora de controlo e os mercados penalizaram-nos por isso. Agora, corremos o risco de tudo, até de ficar na mesma situação que a Grécia. Se rezarmos e tivermos fé, pode ser que não. Temos de estar preparados para recorrer ao FMI, se for necessário, mas parece-me que não é ainda o caso. A culpa não é dos especuladores, é do Governo português. O Governo andou até agora num estado de negação. Agora, tudo o que fizermos será sempre em consequência dos eventos, não em antecipação e isso não vai convencer os mercados. Nada se vai resolver com medidas mais agressivas, mas é preciso controlar a despesa e acabar com os grandes projectos públicos.

Eduardo Catroga (ministro no Governo de Cavaco Silva)

A percepção que os mercados têm do problema português é diferente da percepção do problema grego. A Grécia vive um problema de liquidez de curto prazo, que põe em causa o cumprimento das suas obrigações derivadas da dívida. Portugal tem um problema de crescimento económico face a uma trajectória insustentável da dívida pública, ou seja, tem falta de capacidade de gerar riqueza nos próximos anos para pagar a dívida. Não faz, por isso, sentido recorrer ao FMI, pois só se recorre a ele quando já não há dinheiro em caixa. O PEC peca por ter sido pouco ambicioso. Devíamos ter reduzido rapidamente a despesa pública para os níveis de 2008 e, ao mesmo tempo, traçar medidas estruturais para resolver o problema de competitividade e produtividade da nossa economia. Isso implica rever a política de investimentos públicos, das parcerias público-privado, estimular a banca a apoiar as empresas exportadoras, etc. O Governo tem sido autista e não percebeu que o mundo mudou em 2008 e 2009. Acabou a época do endividamento fácil. É preciso mudar de política.

Braga de Macedo (ministro no Governo de Cavaco Silva)

Qualquer país da zona euro está sob ataque espectulativo neste momento e claro que se começa sempre pelos países mais fracos. Numa crise especulativa como esta, nunca se sabe o que é suficiente fazer. O consenso político é fundamental para dar um sinal de credibilidade. Mas a intervenção do FMI na certificação das nossas contas teria sido útil. Defendi isso em Fevereiro, num manifesto, dizendo que o FMI poderia ser chamado a contribuir para a elaboração do PEC.

Bagão Félix (ministro no Governo de Santana Lopes)

Quero acreditar que não ficaremos na mesma situação que a Grécia. Mas a verdade é que, hoje, para inspirar confiança, é fundamental tomar medidas antes de serem exigidas. Foi isso que fez a Irlanda, e é por isso que os mercados não estão a olhar para ela. Nós estamos a ir a reboque. Além disso, temos um verdadeiro radar sobre nós, que reage aos sinais de incoerência, como o facto de o Governo, na mesma semana que anunciou o PEC, ter reiterado o TGV, a terceira travessia sobre o Tejo, as centrais fotovoltaicas... Estes investimentos públicos têm de ser, se não anulados, pelos menos adiados. Por outro lado, o PEC devia ter fixado um limite da despesa pública, do qual não se pode passar. Não podemos ir com panos quentes neste momento, tem de ser feito um corte transversal nos serviços, eventualmente injusto.Pina Moura (ministro no Governo de António Guterres)

Neste momento, não se coloca a necessida de recorrer ao FMI. Contudo, essa hipótese pode colocar-se no âmbito do lançamento do processo de consolidação orçamental e financeira. Penso que Portugal não chegará à mesma situação que a Grécia, pois a solidez da economia portuguesa, apesar das suas fragilidades, não é comparável à falta de solidez da Grécia. O que há nestas situações é um efeito de contágio, que colocou Portugal sob ataque especulativo, ao qual tem de reagir.

Depoimentos recolhidos por Ana Rita Faria