Música

Cartas portuguesas enviadas ao mundo

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Dois Selos E Um Carimbo sairá em Setembro no restante espaço europeu e na América do Norte Rita Carmo

São uma das bandas portuguesas que mais álbuns vendeu nos últimos. "Dois Selos E Um Carimbo" continua a ser música popular para chegar a toda a gente. Cá dentro ou lá fora

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Vimo-los pela primeira vez como agora se vêm as bandas (pela primeira vez), num vídeo alojado no MySpace. Vimo-los depois, lá longe em 2007, num concerto praticamente lotado no Maxime. Estranhámos o esgotado. Era banda recentíssima, nome que começara a ser sussurrado aqui e ali, mas no clube lisboeta sentia-se já algo de fenómeno. O público conhecia as canções, o público cantava as canções cantadas por Ana Bacalhau, sorria com ela, partilhava com eles a graça do marialva castiço de palito na boca, o Toninho, e sentia na "mouche" aquele "vão andando que eu vou lá ter" de "Movimento Perpétuo Associativo", retrato de um certo espírito português que barafusta e vocifera por mudança mas, infelizmente, está sempre demasiado ocupado com "coisas" para a concretizar. Não é segredo o que aconteceu depois.

Chegou um álbum, "Canção ao Lado", e os Deolinda sempre na rádio, a tocar de norte e sul e de sul a norte, o boca em boca a aumentar-lhes o público, as primeiras viagens fora de Portugal e destaques no "Times", na "Les Inrockuptibles" ou na revista de world music "Songlines". Os Deolinda apareceram com uma ideia simples, a de criar "música popular" e canções "directas que chegassem às pessoas" num "formato transportável" (voz, duas guitarras, um contrabaixo), e naquele ponto onde o fado parece que o é mas não propriamente e onde a tradição dos cantautores da palavra (José Afonso, Sérgio Godinho) é referência vertida para um outro molde, chegaram a toda a gente.

Na altura em que editam "Dois Selos E Um Carimbo", o segundo disco, o primeiro ainda está no top português, inabalável. Eis a abrangência que os Deolinda atingiram: na altura em que falámos com eles, estavam a horas de actuar no Pátio dos Bichos do Palácio de Belém - três mil pessoas e um fã que é Presidente da República -, em concerto comemorativo do 25 de Abril; dois dias depois, continuando as celebrações da revolução, em espaço menos institucional e sem Presidente, apresentaram o novo álbum em Grândola. Mas, quando partilhamos uma mesa de almoço, estes Deolinda são os mesmo de há três anos. Claro que, agora, dizem-nos que gravar "Dois Selos E Um Carimbo" foi mais simples: "Já tínhamos um som de banda e a experiência destes últimos anos tornou o processo mais fácil", aponta a vocalista Ana Bacalhau. "Não precisámos de seguir dez caminhos para tentar acertar no que queríamos", acrescenta José Pedro Leitão, contrabaixista. E naturalmente que, apesar do formato e dos cenários se manterem, houve uma subtil mudança de tom.

O centro da acção

O álbum foi composto nos tempos mortos das digressões. Pedro Silva Martins, o guitarrista que é o compositor de toda a música, ia trazendo novas canções, a banda entusiasmava-se e seguia-o. Tanto que, com o tempo, nasceu uma leve frustração. "'Canção Ao Lado' já tinha vida muito longa e nós com aquelas novas canções na mão, paradas, sem as mostrar", recorda o guitarrista Luís José Martins, irmão de Pedro. Gravar o álbum foi uma necessidade. Fizeram-no numa semana, ao vivo no estúdio, que é a única forma, dizem, de preservar o ambiente e a energia das canções. E nelas, a tal mudança de tom. A Deolinda deixou de ser simplesmente observadora atentíssima, relatando e efabulando aquilo que vê à sua volta, e passou a ser o centro de toda a acção. "O 'Canção ao Lado' era uma desconstrução da realidade que abordávamos", reflecte Pedro Silva Martins. "Agora, há a impressão da Deolinda nessa realidade, algo mais interior", descreve Ana Bacalhau". Isto o que mudou na música. Neles, como escrevíamos acima, nada de substancial se alterou.

Podem ser uma das bandas portuguesas que mais álbuns vendeu nos últimos anos, mas foram as suas canções e não eles mesmos que se tornaram célebres - e os Deolinda acham bem que assim seja. "De certa forma, [as canções] entraram no cancioneiro do momento. E as pessoas cantam-nas, mas não nos reconhecem na rua". O equilíbrio certo, portanto. Luís José Martins: "[Deolinda] é música popular, é um projecto para chegar a toda a gente. Fazer uma canção popular que as pessoas não cantem, que não as toque, é como ficar a meio caminho, é não cumprir o seu objectivo até ao fim". Os Deolinda não têm vontade ou feitio para vedetismos, mas querem que as canções se espalhem por todo o lado. Por todo o lado, agora que têm no currículo concertos em Espanha, Itália, Suécia ou Reino Unido, é entenda-se, para além de Portugal.

"Dois Selos E Um Carimbo" sairá em Setembro no restante espaço europeu e na América do Norte e os Deolinda prosseguirão viagem. É certo que aquilo que cantam em "A problemática colocação de um mastro", a obsessão nacional "com o maior e não com o melhor" que conduziu a que, actualmente, toda a população caiba no interior dos centros comerciais que enxameiam a paisagem e que nos deu a distinção de país com maior número de recordes inscritos no Guiness (uma imensa galeria de inutilidades que vai da maior feijoada do mundo às maiores brisas de liz do planeta, passando pelo clube de futebol com mais sócios), será mais facilmente descodificada por um português que por um bósnio, mas a comunicação acontece e não se limita ao habitual deslumbramento perante o "exótico". Em todos os países que conheceram enquanto Deolinda, disseram-lhes o mesmo. Que há na música deles, para além do fado, referência obrigatória pela proveniência ("nos anos 1990, até os Delfins foram 'vendidos' como fado", recorda Pedro Silva Martins"), uma "matriz reconhecível a todos": "uma ideia de canção europeia", refere Ana Bacalhau. Isto o que lhes dizem: Que "há a canção espanhola, italiana, francesa ou portuguesa e, entre elas, um espaço comum" que reconhecem nos Deolinda.

Ei-los então, lisboetas da Damaia e um "infiltrado aveirense" (José Pedro Leitão) a inscrever nas suas canções personagens e cenários que não imaginaríamos noutro sitio que não este, a abrir o espectro. Um centro que se alarga. Como diz Luís José Martins, a música que fazem "só pode vir de Lisboa, só pode vir de Portugal, só pode vir da Península Ibérica, só pode vir da Europa".

"Dois Selos E Um Carimbo", cartas portuguesas enviadas mundo fora, para todo o mundo ler.