Catarina no paraíso

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Pelas Sombras
de Catarina Mourão
Culturgest GA, 26, 21h30; PA, 29, 18h30
Competição Nacional

Uma mulher, os seus gestos e o seu paraíso privado. Aida e o seu palácio goês em "A Dama de Chandor" (1998)? Não, Lourdes Castro, artista plástica, e o seu jardim madeirense em "Pelas Sombras" (2010).
Mas é claro, concorda Catarina Mourão, 39 anos, há relações inescapáveis entre estes seus dois documentários sobre mulheres, casas e um microcosmos. É com humor, aliás, que a realizadora expõe o seu hipotético "fetiche" por pessoas "que têm muito tempo atrás de si", pessoas "com mais de 70 anos" ("se calhar sou eu própria precocemente envelhecida", ri-se).
"De facto houve momentos em que senti que estava a espelhar coisas: por exemplo, sempre que filmava rituais como os de abrir janelas. Mas há diferenças, e têm a ver com a relação estabelecida com as personagens". Estamos novamente de acordo.
"Em 'A Dama de Chandor' fui buscar aquela mulher para explicar um contexto: o da Índia portuguesa. A Aida começava logo por dizer que era da Índia portuguesa. Em 'Pelas Sombras' não tive a preocupação do contexto, de dar informação. Não me interessava fazer um retrato de artista. A Aida estava-se nas tintas para nós. A sua obsessão era a casa" - e aquele aristrocrático pragmatismo na forma como geria um mundo que acabou e que preservava sem excessiva generosidade para com a curiosidade dos que o visitavam. Por isso, a realizadora limitou-se a observar, "tentando apanhar as coisas à medida que elas iam acontecendo."
Em "Pelas Sombras", pelo contrário, "houve uma fusão com a casa, com o acto criativo". Coisa viva.
"A construção do filme foi muito baseada na minha relação com a Lourdes Castro. 'Pelas Sombras' também é um documento sobre a minha relação com ela." Uma relação construída no tempo, pelo tempo. E o tempo, fundamentalmente, constrói o filme. Que acaba por se transformar num "objecto" produzido por um Éden, aquele, contaminado por ele, pela luz, pela água, pelas sombras. Resultado: "Pelas Sombras" também é uma produção Lourdes Castro - o filme espelhará, aliás, uma espécie de co-autoria -, também é feito de luz e de sombras, é um objecto que pode habitar também a casa.
"A Lourdes é, de facto, de uma lucidez impressionante. Aquele é um Éden construído. A obsessão pelo presente, por desfrutar o presente, a desaceleração... tudo isso influenciou-me. Foi um filme feito por etapas, porque a Lourdes tem o seu tempo. É engraçado porque eu pensava que podia ser uma manta de retalhos, mas aquele tempo foi entrando em mim de forma inconsciente."
"Quando a conheci, não conseguia decifrar o que ela era", continua Catarina Mourão. "Ela é muito zen, e eu não sou nada assim. Em certos momentos achei que aquilo podia ser treta. Mas descobri que há um lado de solidão. E que ela não pode estar sempre a construir uma personagem. Faz sentido viver assim".
O filme estreou no Museu de Serralves, Porto, com a exposição "A Luz e a Sombra", antologia do trabalho de Lourdes Castro e Manuel Zimbro. Catarina Mourão testemunhou "reacções incríveis, muito emotivas, do mundo das artes plásticas".