O vulcão que assustou a Europa em 1783

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Fissura de Laki dr

Durante meses expeliu gases que envenenaram a fauna e a flora. Foi responsável pela morte de dez mil pessoas na Islândia. E há quem defenda que precipitou a Revolução Francesa

Há pouco mais de 200 anos, ainda antes da Revolução Francesa, um vulcão islandês dizimou um quinto da população do país. Durante quase um ano, o céu da Europa encheu-se de um "nevoeiro constante", nas palavras do Presidente americano Benjamin Franklin. Houve fome, doenças e morte.

O Laki foi, até hoje, o vulcão (em rigor, trata-se de uma fissura vulcânica) que produziu maior volume de lavas, disse ao P2 Carlos Rosa, vulcanólogo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia. "Desde que o homem existe e que começou a presenciar erupções vulcânicas, o Laki foi o que expulsou maior quantidade de lava. Produziu 15 quilómetros cúbicos de lavas basálticas." Feitas as contas, o equivalente a quase quatro barragens do Alqueva na sua cota actual.

Entre Junho de 1783 e Fevereiro de 1784 as lavas espalharam-se ao longo de um total 600 quilómetros quadrados em redor das fissuras em ebulição (o equivalente a 14 vezes a área da cidade de Lisboa). Foi a pior catástrofe na história relativamente curta da Islândia onde viviam cerca de 50 mil pessoas. Quando tudo acabou, dez mil tinham morrido.

Hoje, a Islândia não esquece a sua herança vulcânica. Os vulcões fazem parte da sua paisagem e da sua memória. Vários estão activos. Por isso, não é de estranhar que os alunos islandeses tenham, obrigatoriamente, nas escolas, a disciplina de Geologia.

Cem vezes mais forte

As semelhanças entre este temível Laki e o Eyjafjallajokull, o vulcão que por estes dias tem sido notícia, são poucas, exceptuando o facto de se situarem ambos na região sudeste da Islândia. Estão a 140 quilómetros de distância um do outro.

O vulcão que obrigou os aviões a permanecerem em terra está, na verdade, muito longe da potência do Laki, cuja erupção de 1783 foi a maior dos últimos mil anos - ficando apenas atrás do Monte Tambora, na Indonésia. Citando um especialista britânico em vulcanologia, Stephen Self, a cadeia de televisão britânica BBC indica que o poder do Laki foi cem vezes superior ao do actual Eyjafjallajokull.

A quantidade de dióxido de enxofre expelido pelo Laki chegou a ultrapassar a que foi lançada pelo Pinatubo (Filipinas), em 1990. Se o vulcão das Filipinas produziu 17 megatoneladas de dióxido de enxofre, o Laki, durante o seu período de máxima actividade, lançava essa mesma quantidade de gases para a atmosfera a cada três dias.

Carlos Rosa explica que há ainda outra diferença de base entre as erupções destes dois vulcões: a de 1783 ocorreu ao longo de um troço de 27 quilómetros de fissuras. "Foi uma erupção alongada e não focalizada, como a que está activa neste momento, no Eyjafjallajokull, onde a actividade permanece circunscrita a apenas um quilómetro de extensão."

Podem as fissuras do Laki voltar a abrir-se num futuro próximo? "O Laki não está extinto, mas a quantidade de magma que foi expelida no Laki foi anormalmente grande", diz Carlos Rosa.

"A pergunta que devemos fazer é esta: qual é o tempo de retorno do Laki? Tem ele capacidade para produzir igual volume de lava? Em quantos anos? Ou em quantos milhares ou milhões de anos? Este tipo de erupções não são comuns, são pouco frequentes. Por isso, diria que num futuro próximo poderá haver erupções ao longo da fissura, mas, se calhar, da mesma dimensão, eu diria que é difícil."

A história do Laki fará, certamente, parte das lições dos alunos das escolas islandesas. Esta erupção de dimensões bíblicas afectou durante vários meses todo o Hemisfério Norte. Há relatos que dão conta que o nevoeiro de cinzas vulcânicas e de partículas de enxofre chegou aos EUA, a Espanha e até ao Egipto, conta Greg Neale, editor da BBC History Magazine, num artigo publicado há dias no jornal britânico The Guardian.

O Laki e a revolução

Os gases tóxicos expulsos pelo vulcão, a par com o inclemente Verão registado em 1783 e com o rigoroso Inverno de 1784 (que originou um surto de tifo), provocaram milhares de mortes não só na Islândia, mas também no Reino Unido - aqui, sobretudo devido às doenças que resultaram do Verão escaldante e do Inverno gelado pós-erupção.

Mais: esses mesmos gases envenenaram a fauna e a flora e "esconderam" o sol durante dezenas de semanas. Estima-se que oito em cada dez ovelhas tenham morrido na Islândia, indica a BBC on-line. Metade dos cavalos também sucumbiu.

"O elevado número de mortes teve a ver essencialmente com a escassez de alimento. Muitas culturas ficaram inutilizadas e muito gado ovino e bovino morreu, havendo assim falta de alimento", explicou Carlos Rosa ao P2.

A erupção do vulcão veio igualmente mexer com a "psique" de uma Europa que se estava a abrir às ideias iluministas, ao progresso e à ciência. O período medieval, das trevas e da servidão, que tinha ficado para trás, ameaçava agora voltar por intermédio do Laki, que provou aos europeus que afinal o progresso não podia avançar contra a força da natureza.

Entrevistado pela BBC, Gunnar Karlsson, um dos mais importantes historiadores islandeses, explica que a erupção do Laki teve até efeitos mais surpreendentes na sociedade islandesa: "Os islandeses deixaram de dançar. Perdemos as danças antigas. A minha suspeita é que eles deixaram de dançar porque as pessoas estavam em tal estado de choque por causa da fome que não quiseram dançar mais."

Alguns historiadores, como escreve o The Guardian, vão ainda mais longe. E sugerem que a erupção do Laki, e a forma como os seus efeitos agravaram a fome no Norte da Europa, poderá ter ajudado a lançar as sementes da Revolução Francesa de 1789.