Os primeiros dias sem rádio dos últimos 40 anos

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Para o P2, António Sala aceitou sentar-se uma vez mais aos microfones... mas, desta vez, sem ninguém para entrevistar Raquel Esperanca

Já almoçou em Versailles, mas não se lembra o que comeu. Recebeu toda a gente no estúdio, ao longo de 40 anos de rádio, mas o que guarda na memória são as "histórias simples", que preenchem aquela a que chama a "rádio dos afectos", a sua rádio. Por Ana Machado

a "António! Que agradável surpresa! Então voltou? Vá aparecendo!" Voltar ao edifício da Rádio Renascença é cruzar-se com antigos colegas, amigos, ex-alunos da Universidade Católica, a quem responde com abraços e saudações: "Não voltou a fumar, pois não?", pergunta preocupado a alguém que passa. Diz que nunca mais volta a fazer rádio. Mas anuiu ao pedido do P2 para se voltar a sentar, mais uma vez, no estúdio onde conduzia ultimamente as entrevistas de sábado, num programa com o seu nome. Agora na cadeira de entrevistado. "É a primeira vez que aqui me sento sem um entrevistado à frente", diz Sala, de 61 anos, 40 passados na rádio. Tudo começou quando lhe disseram que ser actor, uma espécie de sonho de infância, era algo para que tinha pouco talento: "Fui a uma audição para actores de peças radiofónicas na Emissora Nacional, estava a uma semana de fazer 17 anos, e a Maria Leonor disse-me no fim que achava que não tinha muito jeito mas que tinha uma voz muito boa e que podia ser alguém na rádio." O rapaz, que nasceu em Mariz, Vilar de Andorinho, Vila Nova de Gaia, que foi para Lisboa com 10 anos e que aos 16 já escrevia letras de músicas, aceitou então um convite de Nunes Forte para começar a trabalhar na Rádio Ribatejo. "Foi imparável a partir daí."

Emissores Associados de Lisboa em 1966, RTP em 1970, onde apresentou vários programas, e depois passa ainda pela RDP (a rádio pública integra, após o 25 de Abril, os Emissores Associados).

"Sou fundamentalmente um homem da rádio. Digamos que 70 por cento sou rádio. Mas o palco e a TV são muito apelativos. O palco é fascinante, uma coisa mágica. É uma espécie de santuário de comunicação. As luzes, as pessoas. Sentimos que vamos fazer passar uma mensagem, e estudar a melhor maneira de a fazer passar perante o público que temos é um exercício fantástico. O comunicador tem de ser uma espécie de camaleão da palavra", diz o homem que chegou a fazer cinema, escreveu livros de anedotas e que subiu ao palco para cantar ao lado de nomes como Carlos Paião e Alexandra, ou sozinho, no Festival da Canção.

Um piano em casa

António Sala chegou à Renascença em 1979, para fazer o programa da manhã, o Despertar, ao lado de Olga Cardoso, a "amiga Olga", que conduzia a emissão a partir dos estúdios do Porto. O programa, de que muitos ainda recordam o genérico inicial e o famoso Jogo da Mala, durou quase 20 anos. "Na altura, não tive noção de como o programa marcou as pessoas, mas agora tenho. Até há quem me venha dizer que não gostava muito do programa mas que acordava todas as manhãs com a música do Despertar e que até já tem saudades. Ninguém ficava indiferente."

O que marcou a diferença desta maneira de fazer rádio, e o que fez com que Sala se destacasse e acabasse por ser escolhido pelo Rádio Clube Português, em 2007, como a maior figura da rádio dos últimos anos? "A diferença é feita por nós, pela componente humana da comunicação. Eu também tenho um piano igual ao da Maria João Pires. Mas não toco como ela", diz o profissional, que usa a comparação com a pianista para ilustrar o facto de muitos fazerem rádio, mas nem todos chegarem ao "outro lado, onde estão os ouvintes."

Conta que tinha acabado de chegar à Renascença quando aprendeu esta lição: "Um dia, termino um programa de manhã e avisam-me que estava lá uma pessoa para me falar. Era um rapaz muito simples que me perguntou se me podia dar um abraço. Estava muito nervoso e emocionado. Contou-me que tinha saído há dois dias da prisão e que, a seguir à própria mãe, eu era a segunda pessoa que ele procurava. Queria agradecer-me, porque o meu programa foi a visão do mundo e o optimismo que ele não tinha enquanto estava preso. Agradeceu-me e foi-se embora. Ainda fiquei à espera que voltasse para me pedir dinheiro. Mas não. Percebi que a rádio era feita de pessoas. Foi uma lição extraordinária, mas é uma história muito simples. Apercebi-me que estava a falar com gente para quem nem todos os dias eram bons, alguns estavam doentes, outros presos, uns alegres, outros tristes..."

As lições do mestre

Esta "rádio dos afectos" aprendeu-a com o mestre Artur Agostinho. E é a rádio em que se sente confortável. "A rádio é uma actividade muito só, estamos ali fechados num aquário. E é fácil esquecer quem está do lado de lá. Aprendi a dar atenção a isso com o Artur Agostinho, que me ensinou que tal não pode acontecer. Um dia, ele disse-me que imaginava ali à sua frente o taxista que estava do outro lado a ouvi-lo. Quando comecei a fazer o Despertar, essa foi a lição de que me lembrei."

São as histórias simples, da "rádio dos afectos", que Sala afirma guardar na memória: "Já almocei em Versailles, mas não me lembro o que comi. Mas há tascas que não me saem da memória. Entrevistei muitos ministros, mas isso