A nuvem de Matosinhos

Foto
Apesar da ausência de alguns escritores, o público não abandonou o LeV PAULO PIMENTA

O LeV, encontro internacional de literatura de viagem, perdeu nove escritores para o vulcão, mas sobreviveu. Notas de quatro dias em Matosinhos como participante

1. Um bigode ao Eyjafjallajokull

O vulcão parou a Europa, mas não parou Matosinhos. Apesar de nove dos 15 escritores estrangeiros terem sido retidos pela nuvem do Eyjafjallajokull, os organizadores do 5.º LeV (Literatura em Viagem), os irmãos Francisco e Paula Guedes, levaram mesmo por diante todas as sessões previstas de sábado, 17, a terça, 20. E o público não os abandonou, sala cheia ao fim-de-semana, depois bem composta.

Quem conhece Francisco Guedes da co-organização do Correntes D"Escrita, na Póvoa de Varzim, sabe que não será um vulcão a abalá-lo, pelo menos enquanto não acabar o tabaco. Mas eu do Francisco só conhecia os e-mails desde que ele me convidou para o LeV. A primeira vez que falámos foi sexta à noite, quando lhe telefonei do Teatro São João, pronta a arrancar para Matosinhos. E certamente ainda nublada pelo espírito da Antígona, imaginei um homem desesperado, vítima das suas próprias iniciativas.

- Então, Francisco, isso está o caos?

- Caos? Porquê?

- Bem, parece que não há aviões na Europa.

- Aviões? Mas nós já não dependemos de aviões.

Qual Antígona. Aquilo era o Super-homem do Nietzsche.

E eu ainda nem lhe tinha visto o bigode.

2. América Latina imune

Os ausentes vinham todos via Europa, mesmo que viessem de Beirute, como a estrela do encontro, o repórter britânico Robert Fisk, com quem eu tinha concebido uma conversa peripatética pelo porto de Leixões. E, portanto, marroquinos ou italianos, espanhóis ou israelitas, todos os escritores via Europa se viram vencidos por esse Sul do Ocidente, que é a América Latina, imune ao vulcão.

Os estrangeiros que conseguiram chegar a Matosinhos foram assim três argentinos (Mempo Giardinelli, Lázaro Covadlo e Guillermo Martinez), dois brasileiros (Lourenço Mutarelli e Arthur Dapieve) e um mexicano (Elmér Mendonza).

Deu para todos os dias (quatro) e para quase todas as mesas (oito).

3. Quetzal rules

O meu contacto jornalístico com festivais literários é do século passado, quando Eduardo Prado Coelho levava 50 escritores portugueses a Paris ou ao Rio de Janeiro e mesmo assim havia quem protestasse por achar que eles eram do mesmo naipe. Mas nesse tempo, caros jovens leitores, havia mesmo várias editoras pequenas, médias e grandes em Portugal. Eu sei que parece incrível, e no entanto aconteceu.

Já em 2010, vista do LeV, a realidade é um sol: Porto Editora, com os seus novos-ou-futuros satélites, como a Sextante e a Quetzal. Assim, quanto a editores, pela Porto estava o veterano Manuel Alberto Valente, pela Sextante o veterano João Rodrigues e Joana Cabral, e pela Quetzal toda a equipa, Francisco José Viegas, Lúcia Pinho e Melo e Margarida Ferra. E o balanço editorial pode fazer-se com esta frase à Robert de Niro: Quetzal rules. Tinha cinco lançamentos previstos, nove autores convidados e só perdeu três para o vulcão. Trouxe posters de vários livros e cobriu com eles uma parede do restaurante onde os participantes almoçavam e jantavam sempre. E para o pequeno almoço no hotel, imprimiu individuais com um atlas dos autores Quetzal.

A primeira vez que pousei a minha chávena nesta omnipresente operação de marketing, o Francisco Guedes estava na mesa em frente e explicou-me que o LeV pergunta às editoras que autores querem trazer e paga todas as despesas, o que só torna mais misterioso que algumas não respondam. Em suma, Quetzal rules porque se mexe. E uma coisa leva a outra, para o ano vai trazer mais não sei quantos autores, ficou já acertado. A segunda a mexer-se em convidados e lançamentos foi a Sextante. E depois, fora do sistema solar Porto Editora, lá estiveram a Presença, a Quidnovi, a Tinta da China, a Planeta, a Objectiva, com um editor e/ou um autor. O solitário representante do sistema solar rival da Porto, a Leya, era o editor Carlos Veiga Ferreira, da Teorema, que perdeu o seu autor para o vulcão.

4. Um arquitecto para a memória

E as sessões? Além das idas às escolas e à praia (de manhã), dos doces & salgados na Padaria Ribeiro (à tarde), dos frapés no bar do hotel (de madrugada) e daquele passeio matinal que acabou em almoço na Casa de Chá da Boa Nova (Álvaro Siza), que ficou das oito sessões com portugueses e estrangeiros?

Notas do meu caderno:

Carlos Vale Ferraz a dizer que a amargura faz má literatura e o que há na guerra é a vida. Cândida Pinto a contar como viu um par de noivos atravessar três barreiras de segurança para umas núpcias no Hotel Palestina em Bagdad. João Pedro Marques a distinguir a História fria (que explica mas não mostra) e a História quente (que mostra mas não explica). Lourenço Mutarelli, esse lacónico paulistano que entre Beja e Nova Iorque prefere Beja, a explicar como o avião é demasiado rápido para a alma. Nuno Silveira Ramos, crescido em Angola, a contar como se sentiu português e orgulhoso em Malaca, onde os ranchos folclóricos cantavam Ó Malhão Malhão em português arcaico. Júlio Moreira a dizer que escrever é eficaz para a memória, como sabem todos os cábulas. Arthur Dapieve a falar do garoto preto rico raptado pelo garoto branco do morro no Rio. José Fanha a recitar o poema de António Lobo Antunes sobre os homens maricas quando estão com gripe. Filomena Marona Beja a mostrar como a partir da palavra zimbro se viaja à serra da Estrela no século XIX. Joaquim Magalhães de Castro a falar dos pioneiros portugueses nesse tecto do mundo que são os Himalaias. Cristina Carvalho a descrever os bosques da Lapónia onde os adultos ficam crianças. Helder Macedo a inventar a realidade do homem que atravessa o deserto num blindado sem uma única janela. valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. Mempo Giardinelli a dizer que a escrita é uma luta contra a realidade, exactamente o contrário do que acredito.

Eu acredito que a realidade, como o mundo, não acaba. A escrita será real ou não será. E nenhum momento em todo o LeV me comoveu como a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, que trouxe quatro viagens em texto e imagem, para dizer aquilo que no passado continua a ser agora. Uma delas foi a que fez aos bairros de lata em que viviam os emigrantes portugueses em Paris, em 1965. Eu nunca tinha visto aquela lama, aquele frio. E não me vou esquecer.