Crítica

Pedro Abrunhosa

Em 1994 ainda não havia Cristiano Ronaldo e o português mais importante da Nação já não era Salazar mas sim um ignorante da obra de Camões chamado Cavaco Silva. E a seguir Pedro Abrunhosa, que vertia ao Grande Líder da Nação um certo ódio. "Viagens", o primeiro disco de Abrunhosa, era - ao contrário do que dizem agora os críticos, que, como Pilatos, resolveram entretanto lavar as mãos do monstro que criaram - uma pequena jóia de jazz ácido embebido em hip-hop. Abrunhosa tinha uma bela banda atrás, tinha canções, tinha os metais, tinha o funk, e tinha a presença de espírito de rapar em vez de cantar. E tinha "Mais perto do céu", tremenda canção gravada ao vivo no Meia cave, no Porto, que por esses dias era um admirável antro de drogaria, perversão, lascívia e boa música.

Do que veio depois não faço muita ideia: ouvi um ou outro single, entre o meloso e o inane, repletos de frases proto-poéticas capazes de provocar enjoo - e não arrisquei ouvir os discos. Ao ouvir "Longe" percebo porquê: o homem, quando não está a produzir satiezadas, sabe sem dúvida escrever canções mas, por Deus!, é incapaz de cantar.

"Longe" é todo América de beira de estrada, um funk de riff poderoso, órgãos Hammond, guitarras slide, a ocasional balada, coros, metais, tudo. Mas quando Abrunhosa canta valha-nos a santa.

Pegue-se em "Rei do Bairro Alto": grande riff, grandes metais, refrão com belo órgão e pianada, viragem bem esgalhada a seguir, tudo no sítio. E depois aquela voz que, desconfio, não dá para mais de quatro notas. "Viagens" resultou porque Abrunhosa não cantava. Quanto mais ele se esforça por cantar, menos "cremos" naquela voz. E é pena porque canções como "Entre a espada e a parede" são musicalmente perfeitas. Estava aqui um grande disco - se fosse Lee Fields a cantar. Mesmo baladas que dão vontade de bater com a cabeça nas paredes, como "Pode o céu ser tão longe", seriam pérolas na voz de Bettye Lavette. Pedro, não o conheço, mas, homem, escreva um disco para alguém que tenha garganta para isto.