Viagem acidental debaixo do vulcão

Em França, o Presidente teve escolta da polícia francesa mas viajou num Mercedes com matrícula alemã
Luís Filipe Catarino/Presidência da República
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Em França, o Presidente teve escolta da polícia francesa mas viajou num Mercedes com matrícula alemã Luís Filipe Catarino/Presidência da República

Cavaco Silva e a sua comitiva embarcaram numa epopeia terrestre, de Praga a Barcelona. Foram mais de 1700 quilómetros, feitos em cerca de 22 horas e com apenas quatro paragens. Uma experiência a não repetir. Por Maria José Oliveira

Sexta-feira, 16 Abril, 15h30

(hora local, menos uma em Lisboa)

A nuvem do vulcão islandês chegou a Praga, obrigando ao encerramento do aeroporto. Mas isso parece não constituir qualquer contrariedade para o Presidente da República, Cavaco Silva, que, num encontro com os jornalistas no Hotel Four Seasons, no coração da capital checa, no último dia da visita de Estado à República Checa, até brinca com o assunto: "Já tranquilizei os empresários que esta manhã me manifestaram a suas preocupações sobre o regresso. Com certeza que sairemos daqui cuidando bem da vossa segurança e da dos empresários", disse, dirigindo-se também aos jornalistas. Cavaco Silva está retido em Praga. O avião da SATA, fretado pela Presidência, não pode fazer a viagem de regresso a Lisboa. E, a partir de agora, as provocações de Václav Klaus, o Presidente checo, sobre o défice português deixam de ser notícia. Os planos de saída do país começam a ser a notícia, com briefings em cada duas horas. Ao princípio da noite, o assessor de imprensa de Belém, José Carlos Vieira, informa que vamos ter de ficar mais uma noite em Praga, desta vez num novo hotel. Os bagageiros da Presidência andam num corrupio; e alimentam-se a Red Bull.

O Presidente aproveita as horas extra para visitar a Praça Wenceslau, lugar mítico da Primavera de Praga; a comitiva empresarial e política (quatro deputados) passeiam pelas ruas do centro. A tradução de ficar retido em Praga não é igual para todos: os jornalistas ficam reclusos do Hotel Kinsky, na margem sul do rio Vltava, a enviar trabalho e à espera de novas informações.

Sábado, 8h00

Os espaços aéreos da República Checa, Alemanha, Polónia, Eslováquia e Áustria estão fechados. Não há fuga possível de avião. A hipótese de viajar de comboio é excluída - a assessoria de Belém passou a noite a tentar delinear planos de saída do país. A solução é uma expedição terrestre, ou seja, viajar de carro e autocarro até Estrasburgo e daí para Barcelona. São 1738 quilómetros de asfalto. A ideia é assustadora. Se o aeroporto da capital catalã encerrar, aguardam-nos mais 1200 quilómetros até Lisboa. Os primeiros sintomas do meu desespero começam a revelar-se.

11h20

Belém anuncia que fretou três autocarros (50 lugares cada um) para a comitiva que acompanha o Presidente. A rota é apresentada: 606 quilómetros até Estrasburgo; mais 1132 para Barcelona. Há um outro plano para esta viagem inédita de Cavaco Silva, previamente combinado com as autoridades alemãs, francesas e espanholas: o Presidente, a mulher, Maria Cavaco Silva, o chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, o ajudante de campo de Belém, comandante Pedro Rafael, e o secretário de Estado da Energia e Inovação, Carlos Zorrinho, saem mais cedo de Praga, em três carros com escolta. A road trip europeia desta pequena comitiva obriga a experiências automobilísticas: o Presidente sai num Audi, com escolta checa; na Alemanha entra num BMW, com escolta alemã; em França, é a vez de um Mercedes, com matrícula alemã mas escolta francesa; em Espanha, permanece no Mercedes, mas a coluna de carros tem batedores da polícia catalã.

14h30

Partida de Praga (com prévias visitas ao hipermercado Tesco mais próximo para comprar reforços alimentares e roupa interior).

O autocarro que transporta os jornalistas tem convidados imprevistos: seis crianças e duas professoras de uma escola básica da ilha de São Jorge, Açores, devidamente instaladas nos últimos lugares do veículo (não fugiram à tradição das excursões escolares, portanto). Eu penso: "Isto vai ser o inferno." Mas estava enganada quanto aos verdadeiros "culpados".

Os restantes autocarros denotam uma certa estratificação: um para os 36 empresários; outro para os deputados, convidados e representantes das associações empresariais. Não há misturas, mesmo em planos de retirada rápida. E as condições de conforto não se comparam: digamos que o nosso autocarro é dirigido para as classes C e D. As cadeiras são duras e não reclináveis (ou melhor, são reclináveis mas tenta-se evitar o protesto do passageiro atrás de nós), o espaço é exíguo e o ar condicionado tem um humor variável (ora expele um frio polar, ora faz-nos sentir nos Trópicos).

16h30

Um carro da Zoll (polícia alfandegária alemã) obriga à paragem de dois dos três autocarros. As matrículas checas suscitaram suspeitas (imigração clandestina, talvez?) e são pedidos os documentos aos motoristas. Dez minutos depois, ordem para avançar. Um membro do staff de Belém transforma-se em DJ improvisado e aumenta o som das colunas do computador. O pior ainda está para vir.

19h00

Primeira paragem numa estação de serviço alemã. Há corridas para as casas de banho, compram-se almofadas e farnéis. Dentro do autocarro dos empresários estão muitos milhares de milhões de euros, penso. Será que ali também se fazem negócios? Em Praga, não obtiveram muitos resultados em termos de contactos comerciais. Esta expedição terrestre ainda vai ter reflexos na economia nacional.

19h46

A viagem no autocarro que transporta a comunicação social transforma-se oficialmente numa excursão às amendoeiras em flor. Um repórter de imagem agarra-se a um microfone e incita as crianças, anteriormente muito sossegadas, a cantar - de Xutos & Pontapés a Rui Veloso, passando pelos Black Eyed Peas e o cansativo tema que se tornou o "hino" da Selecção Nacional (I Gotta Feeling). A coisa não fica por aqui. O DJ de Belém começa a ensaiar coreografias no corredor e pede às crianças para imitarem a dança. Quase seis horas depois da partida de Praga, o desconforto atinge agora o sistema auditivo. The horror, the horror.

22h30

Chegada aos hotéis Sofitel e Mercure, em Estrasburgo. Cavaco Silva recebe os passageiros dos autocarros. No hall do Sofitel dá as boas-vindas às crianças (pergunta-lhes quem foram os mais divertidos e os miúdos gritam em coro "eles", apontando para alguns jornalistas), explica que durante a sua aventura rodoviária leu "as revistas estrangeiras todas" e diz que não é um "vulcão furioso" que vai impedir o seu regresso a Lisboa. Está notoriamente cansado. Ao contrário de Basílio Horta, presidente da AICEP, que, animado, afirma que "é preciso saber ultrapassar as contrariedades". Eu estou mais morta que viva.

Domingo, 7h30

Quatro horas de sono e 15 horas de viagem pela frente. A Presidência avisa que Barcelona pode encerrar o aeroporto, mas pede para manter a esperança. Parece que estamos sempre debaixo do vulcão. É distribuído um farnel (o anunciado piquenique ao ar livre acabaria por ser transferido para o interior do autocarro): uma sandes, uma minúscula madalena, uma garrafa de água, um sumo, um saco de cajus e um chupa-chupa.

Anuncia-se que Belém vai resgatar mais passageiros: a ministra da Saúde, a fadista Kátia Guerreiro, três músicos e dois técnicos. Cavaco dá boleia ao Governo e Ana Jorge embarca na coluna de automóveis do Presidente. Kátia Guerreiro está muito agradecida ao Facebook - foi assim que entrou em contacto com um assessor de Belém e soube da passagem da comitiva por Estrasburgo.

11h30

Primeira paragem, na estação de Beaune Ouest. Empresários compram mantimentos, revistas e jornais. Alguns já estão sem a gravata.

16h00

Segunda paragem, de 40 minutos. O cansaço já é flagrante, mesmo entre os mais animados. Eu tento reaprender a andar. A fila para o café parece interminável. Desisto e faço dois minutos de jogging. Tento não olhar para o relógio. Uma das crianças está a chorar - está enjoada, mas teve vergonha de o dizer, explica a professora.

20h23

"Vamos fazer uma escala técnica, ninguém sai do autocarro", anuncia um assessor de Belém. Tradução: uma criança tem mesmo de ir à casa de banho. Ninguém respeita a ordem. Todos querem apanhar ar fresco. Entretanto, anuncia-se que o C-130 está quase a aterrar em Barcelona. Eu quase bato palmas.

22h00

O Presidente já partiu no Falcon, há uma hora e meia. Na sala VIP do aeroporto de Barcelona são distribuídos sacos de plástico com uma sandes, água, um pudim e uma maçã. A violência da maratona rodoviária terminou. Uma empresária retoca a maquilhagem na casa de banho. O C-130 é o paraíso, penso, mesmo sabendo da experiência auditiva que comporta esta viagem. Somos cerca de 80 passageiros, a maior parte vai fazer o seu baptismo de voo neste avião da Força Aérea. O "kit VIP" não está instalado, ou seja, todos vão sentados (e comprimidos) nos bancos de lona. Menos de meia hora depois de descolar, o C-130 transporta um grupo de passageiros que, mesmo com o barulho ensurdecedor, dormem como anjos. Eu não consigo. Nunca tive tanta vontade de telefonar para a Retalis e chamar um táxi para casa.

O PÚBLICO viajou num avião e num autocarro fretados pela Presidência da República