A morte do artista

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Pode ser o último espectáculo da Palmilha Dentada, mas os últimos são os primeiros. "7: AM" é o despertador a tocar, e uma companhia de teatro a acordar para a morte. É a vida

O despertador toca às 7h da manhã e pode ser o fim de uma bela amizade: mais do que uma companhia de teatro não subsidiada a acordar para a vida, e para o facto de um dia, mais cedo ou mais tarde, alguém ter de pagar as contas, "7: AM" é uma companhia de teatro não subsidiada a acordar para a morte. Se isto for mesmo o funeral da Palmilha Dentada, vamos bater em latas: eles viveram depressa, mas deixam um cadáver bem bonito.

Mesmo que não seja efectivamente a morte da Palmilha Dentada, o novo espectáculo que a companhia estreou há uma semana na Sala-Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira, no Porto, é pelo menos a morte de uma certa ideia que fazíamos da Palmilha: não saímos daqui agarrados à barriga de tanto rir, saímos daqui agarrados à barriga de tanto chorar. "Temos tido as reacções mais diversas. Há pessoas que vêem aqui uma metáfora do controlo do Estado, que realmente é uma coisa que estava na minha cabeça quando escrevi o texto, e há pessoas que nos perguntam, quase agressivamente, porque é que não fizemos um espectáculo como os outros. Mas se virmos bem nenhum dos espectáculos da Palmilha é 'como os outros'. Para mim é fácil reconhecer aqui a Palmilha, embora este seja de facto um objecto um bocado estranho. A verdade é que nós sempre fizemos espectáculos amargurados: o 'Norma', 'A Cidade dos que Partem', mesmo a 'Armadilha para Condóminos'", sublinha Ricardo Alves, autor e encenador do texto. A diferença aqui é que a Palmilha foi por "um humor menos óbvio, mais visual, mais desacelerado, mais poético", e que a quarta parede é por uma vez completamente rígida, quebrando a comunicação directa com o público que sempre foi marca registada da companhia. "Era um risco, mas o teatro também serve para isso. Sempre nos perguntámos como é que o nosso público reagiria se fizéssemos um espectáculo não cómico", continua. Era agora ou nunca.

Em "7: AM" há uma morte, dois irmãos sem futuro e pior do que isso sem passado, e um poema em voz off, fantasmagórico, sobre a morte do artista. "É um espectáculo sobre lugares sombrios, sobre coisas sérias, a partir da história de dois irmãos que esperam a chegada do médico-legista que há-de passar a certidão de óbito da mãe para poderem fazer o funeral". O funeral da mãe, ou o funeral da Palmilha? "Estamos indiscutivelmente a pensar se vale a pena continuar a fazer teatro neste país e nesta cidade, e isso passa no espectáculo. Depois de tantos anos a trabalhar sem as condições mínimas, e a começar do zero espectáculo após espectáculo, temos de estar cansados", responde Ricardo Alves. A experiência de "7: AM", simbolicamente coproduzido com 1008 espectadores do país todo que assinaram um contrato e se comprometeram a comprar dois bilhetes, foi "óptima" mas não é o tipo de coisa que se possa fazer toda a vida adulta.

Se isto que 1008 pessoas (e não o Estado) pagaram para ver tiver sido o último espectáculo da Palmilha Dentada, mas que pena. O artista era mesmo um bom artista.