Crítica

A vida de Elvira

A Lisboa da Regeneração, ficcionada em narrativa clássica, com discurso adequado ao tempo e às personagens

Num país com elevados índices de iliteracia, como é o nosso, não admira que a literatura seja sacralizada. Não viria daí grande mal não fosse a persistência de equívocos e preconceitos nocivos. Um deles respeita ao romance histórico. As pessoas do "Meio" falam do romance histórico como quem fala de peúgas sujas. Se o autor acumular com a actividade de historiador, a heresia é completa. Veja-se como continua a ser referido "Glória" (2001), de Vasco Pulido Valente. Isso traduz uma sólida ignorância do que se passa no vasto mundo. Contudo, a leviandade não inibirá ninguém de tecer loas a "Wolf Hall", o romance de Hilary Mantel sobre a vida de Thomas Cromwell, que recebeu o Man Booker Prize de 2009. E quem diz este diz outros.

Vem isto a propósito do romance de estreia de João Pedro Marques (n. 1949), investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical, docente e especialista em História de África, com obra publicada nessa área. A título de exemplo, "Os Sons do Silêncio" (1999), sobre a abolição do tráfico de escravos, livro que entrou em 2006 para o catálogo da Berghahn Books de Nova Iorque e Oxford: "The Sounds of Silence. Nineteenth-century Portugal and the Abolition of the Slave Trade".

Com "Os Dias da Febre", João Pedro Marques arrisca a literatura de ficção. Trata-se de um romance com acção localizada na Lisboa dos anos da Regeneração (1851-68), época em que estavam por extinguir os miasmas da epidemia de febre amarela que tivera o seu apogeu durante a Guerra Peninsular. O Fontismo trouxera progresso, mas Lisboa era ainda uma enxovia.

Descendo a Calçada de Santana, no trajecto de casa para o teatro, Elvira e Carlos atravessam um território de desapossados: "O contacto com o mundo sórdido dos desfavorecidos era, ali, inevitável e desconfortavelmente próximo, apesar de as cortinas da carruagem irem corridas. Os zarolhos, os amputados, as bocas sem dentes, os cabelos sem pentes, as caras engelhadas de rugas ou sulcadas por cicatrizes, desfilavam a dois dedos da sua janela..." O casal cumpre as obrigações sociais à revelia de vida conjugal. Nascido quando Massena acampava nas Linhas de Torres, estudante de leis em Coimbra, Cavaleiro da Casa Real, antigo Governador Civil de Santarém e Leiria, membro da Câmara dos Deputados desde 1848, Carlos Cabral fez de Elvira Sabrosa, filha de uma antiga amante, mais do que sua mulher, um símbolo de afirmação.

É impressivo o modo como o autor ilumina os costumes da sociedade lisboeta de então: o moderado arrivismo de Carlos Cabral, que foi capaz de equilibrar-se nos avanços e recuos da causa liberal; a cultura de usura que fazia as grandes fortunas; os africanistas; os "brasileiros"; o tráfico de escravos; a importância de Jane Austen na educação das "meninas"; o sobressalto da febre amarela, que levou à criação de hospitais especiais; os crimes de honra; os salões da boa sociedade; a vida política no tempo de Rodrigo da Fonseca; as "cocottes" com casa posta, etc. Sobre tudo isto, João Pedro Marques discorre com apreciável desenvoltura, isentando-se de considerações ideológicas ou juízos de valor.

Mais que o discreto "ménage à trois" que Elvira e Robert Huntley autorizam, "Os Dias da Febre" (e febre, aqui, releva menos da infecção viral que da pulsão dos humores) ilustram outro jogo a três: o de Carlos dormindo com Branca Lobo de Sabrosa, de olho posto na filha (Elvira) pré-adolescente.

O discurso nunca é "forçado", surgindo adequado ao tempo e às personagens, sem malabarismo sintático. Com epicentro no Campo de Santana, a história reparte-se por capítulos com enfoque nos principais protagonistas (Carlos, Elvira, Pedro, Robert Huntley) e em acontecimentos concretos (a citada epidemia, o roubo das jóias, o duelo fatal, o assassinato de Carlos). O recurso ao "flashback" estabelece o fio condutor da cadeia mnemónica. A narrativa segue o padrão clássico, expondo com clareza as várias fases da intriga. A descrição das "inibições" sexuais de Carlos, homem que tira prazer da violência exercida contra mulheres de condição social inferior, é feita sem qualquer espécie de psicologismo. João Pedro Marques atém-se aos factos, que narra com a naturalidade de um coevo. Breves notas de rodapé situam o tempo histórico da vida de Carlos e Elvira.

Em suma, uma estreia auspiciosa.

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