Crítica

A pedalar com David Byrne

Visões impressionistas de Byrne, deambulando pelas cidades

Não ponham de lado as bicicletas, mas este não é um livro sobre ciclismo. As bicicletas são apenas o ponto de partida. O pretexto. A tentativa de atribuir unidade às visões impressionistas de Byrne, deambulando pelas cidades (Berlim, Istambul, Buenos Aires, Manila, Sidney ou Londres), observando o que faz delas locais onde apetece estar ou de onde apetece fugir e não voltar.

A bicicleta aqui é instrumento de comodidade, janela que o conecta com a vida das ruas - mais rápida do que andar a pé, mais lenta do que o comboio, maior do que uma pessoa -, mas também agente de motivação política, assumindo-se como um dos elementos alternativos a um modelo de metrópole, à beira da ruptura, que continua a pensar o planeamento urbano para a circulação automóvel, como se as cidades não estivessem asfixiadas deles e os combustíveis fósseis à beira do esgotamento, pelo menos à escala, ritmo e maneira como são consumidos hoje. Urbanismo, arquitectura, arte, música, viagens, política, moda, alimentação ou religião são temas recorrentes, abordados como notas de um diário onde não tenta impor juízos deterministas, apenas reflectir e interrogar, de forma humanista, curiosa e com humor, algumas das questões que cruzam a existência das sociedades contemporâneas.

Em Istambul, São Francisco, Londres ou Buenos Aires foca-se mais nos encontros com músicos ou artistas que vai descobrindo. Em cidades como Detroit ou Pittsburgh reflecte sobre a sua história e a paisagem urbana, normalmente desoladoras. As cidades que parecem fascinar Byrne são densas e compactas nos centros históricos, possuem uma escala humana de construção, são vibrantes culturalmente e excelentes para andar de bicicleta. Nem sempre é fácil acompanhar a pedalada de Byrne, deambulando de tema em tema, mas é quase sempre estimulante.

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