Pedro Passos à espera do PS para revisão constitucional

Novo líder do PSD promete diálogo e propõe-se fazer mudanças "já" na saúde, na educação, na justiça e nas leis eleitorais

Pedro Passos Coelho quer retirar o Estado dos negócios, reformar a justiça e as leis eleitorais, dar liberdade de escolha aos cidadãos na Saúde e na Educação. É este o programa de acção imediata do novo líder social-democrata à saída, ontem, do Congresso de Carcavelos, que passa por uma prioridade. E nisto tem pressa: quer a revisão constitucional "já". Antes mesmo das eleições presidenciais de 2011. A pressa que não tem para disputar eleições.

"Quem está a governar deve governar. Não é à oposição que compete governar. Não vale a pena ter muita pressa", afirmou no final de um congresso que reforçou a maioria de Passos Coelho, que viu a sua comissão política eleita por 87 por cento dos delegados. E, apesar da pulverização de listas (13) que agitou o congresso da "unidade", o novo líder também conseguiu a maioria no Conselho Nacional.

A revisão constitucional, como o próprio admitiu, pode parecer aos portugueses um tema "árido". Mas "não é" e Passos tratou de explicar. Só uma revisão constitucional pode permitir uma reforma na justiça. Ou ainda a "despartidarização" do Estado e "desestatização da sociedade" e de sectores como a saúde e a educação. "Não aceitamos que o Estado nos enfie pela goela abaixo o social que quer", afirmou. Paulo Teixeira Pinto vai agora apresentar uma proposta de revisão constitucional, mas, para já, o PS não quer colocar esse tema à frente do combate à crise. Foi o que disse Francisco Assis, que representou o PS na sessão de encerramento.

Para Belém, Passos enviou um sinal. Cavaco Silva pode estar tranquilo porque o PSD não está interessado em pôr em causa o "equilíbrio de poderes". "No que respeita ao Presidente da República, está muito bem e, por isso, porquê empurrar com a barriga as nossas responsabilidades", questionou, reclamando a urgência de abrir caminho a uma discussão sobre o que "é estruturante, estratégico para o país e não pode ficar para depois" das presidenciais de 2011. Um calendário, aliás, que PS e PSD defendiam até agora.

Afirmar a liderança

Num discurso em que nunca mencionou uma só vez o nome de José Sócrates, Pedro Passos Coelho não deixou dúvidas que os adversários principais são os socialistas, entrando na agenda política do CDS-PP (ver texto nestas páginas). O Estado deve sair dos negócios mas manter-se na "esfera social" e haver mais rigor na gestão dos apoios sociais.

"O PS não é dono de Portugal", avisou, partindo depois para um exercício de afirmação de liderança. "Não pediremos para ser ouvidos. Diremos o que pensamos e cada um que chegue ao acordo e ao trabalho que deve estar no seu encargo; apostamos no diálogo, mas não pode ser uma camuflagem para a arrogância." Além do mais, o PSD está "empenhado em dizer o que pensa, tomará iniciativas" e os outros partidos digam depois se concordam ou não.

Para dentro do partido, Pedro Passos admitiu que começa agora a parte "mais difícil" da sua liderança. "Por-que o mais fácil está feito". Primeiro, sossegou as suas hostes, garantindo que "o novo PSD alberga o PSD de sempre". Manuela Ferreira Leite, a ex-líder que se sentou na primeira fila, foi saudada de pé pelos congressistas e valeu uma referência "com cerimónia" no discurso final de Passos ao tratá-la por "senhora doutora". Aos militantes, deu garantias de fidelidade à matriz social-democrata do partido - um alerta que foi deixado, durante o congresso, pelos seus dois adversários nas eleições directas, Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco. "Não temos confusões ideológicas. Nós somos sociais-democratas".

Aos portugueses, prometeu diálogo, "ir ao encontro do país" e fazer as mudanças que o partido se propõe ouvindo as pessoas. Deu exemplos. "Não podemos mudar contra o país. Não mudamos a administração pública contra os funcionários públicos", disse.

Os caminhos de Alice

No discurso, não faltou uma citação do livro (ou do filme) Alice no País das Maravilhas. Lembrou o diálogo de Alice com o gato, à entrada do País das Maravilhas, e em que ela confessou não saber para onde ir. Ao contrário de Alice, Passos sabe para onde vai, mas não tem "as ideias todas feitas" nem o seu programa está totalmente fechado.

Para a memória do Congresso de Carcavelos que Passos quis que fosse de unidade fica a imagem dos três adversários nas directas a cantar o hino nacional no palco do congresso: o novo líder, Paulo Rangel, que encabeçou a lista conjunta ao Conselho Nacional, e José Pedro Aguiar-Branco, que coordena a revisão do programa do PSD. Um outro gesto simbólico: hoje, ao final da manhã, Pedro Passos Coelho reúne-se na sede nacional com o militante número um do partido, Francisco Pinto Balsemão.