Por que não nos conseguimos impor lá fora?

Não temos estratégia

"Para muitos agentes culturais, a internacionalização é de tal forma secundária que não têm indicadores para responder às perguntas que lhes fizemos", conta Rui Gomes, responsável pelo estudo do Observatório das Actividades Culturais. O estudo salienta que, "na grande maioria dos casos [os agentes], não têm informação específica e sistematizada sobre a sua própria actividade de internacionalização". Isto significa que não a valorizam particularmente e não a colocam entre as suas prioridades. Além disso, "do lado das políticas culturais, estamos longe do que acontece noutros países, em que há uma plataforma que procura mercados externos", diz ainda Rui Gomes.

Não investimos

Há, segundo Rui Gomes, poucas instituições e agentes culturais com uma "estratégia pró-activa, que passe por manter contactos, liderar projectos, propor candidaturas a programas europeus e encontrar parceiros que possam acompanhar essas candidaturas". Alguns "participam em co-produções a convite de parceiros estrangeiros", mas não tomam eles próprios iniciativas. Claro que tudo isto implica investimento, que pode não ter um retorno imediato. Para já, alguns dos agentes pagam os seus próprios esforços de internacionalização. Mas noutros países são os Estados que asseguram parte desse esforço financeiro, encarando a promoção da cultura (também) como um investimento económico.

Não trabalhamos em rede

Entre os grupos e agentes culturais, "as estratégias são muito individualizadas", refere Rui Gomes. Nuno Ricou Salgado, que produz o guia Pisa-Papéis e é também produtor de espectáculos, dá um exemplo de como não se aproveitam sinergias: "Recebemos 25 mil euros para fazer uma peça que está um mês em cena numa sala que é óptima mas não tem muito dinheiro para promover o espectáculo. Temos pouca visibilidade, e o espectáculo esgota-se ali. Se houvesse uma rede que permitisse mostrá-lo a programadores, poderíamos ter um subsídio de apenas 15 mil euros mas, por outro lado, a garantia de venda de dez espectáculos. Vendíamos cada um a 1500 euros, ganhávamos mais, o espectáculo rodava muito mais".

Somos periféricos e não temos tradição

"Há uma falta de tradição para a internacionalização dos artistas portugueses", conclui o gestor cultural António Pinto Ribeiro. "A isto acresce o facto de sermos um país periférico, o que tem custos do ponto de vista dos transportes, das viagens, e que nos faz também estarmos um pouco afastados dos centros de decisão."

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