Estamos a perder o Brasil? Os números mostram que sim

O resto do mundo não está distraído. "O Instituto [espanhol] Cervantes anunciou a abertura de cinco centros culturais no Brasil. Está a ver a dimensão da ofensiva?", pergunta o professor e gestor cultural António Pinto Ribeiro. "Hoje há uma elite brasileira em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Recife, que tem uma enorme curiosidade sobre o que se está a passar em Portugal no que diz respeito à contemporaneidade, e para a qual era necessário ter uma resposta concreta. Isso não está a acontecer."

O estudo do Observatório das Actividades Culturais sobre a mobilidade dos artistas aponta no mesmo sentido: "A língua é um capital pouco explorado", conclui. Portugal faz as suas principais trocas culturais com a Europa, e deixa para um muito distante segundo lugar a relação com os países lusófonos. "O potencial do Brasil enquanto parceiro e enquanto mercado não se traduz num intercâmbio efectivo."

É verdade que os artistas brasileiros vêm frequentemente a Portugal. Mas na venda de espectáculos portugueses, o destino é claramente a Europa (76 por cento, metade dos quais para Espanha). Só 18 por cento são vendidos para os países lusófonos (sendo que aí esmagadoramente para o Brasil). "Para nós, o Brasil é uma prioridade e temos trabalhado activamente nesse sentido", contesta Jorge Barreto Xavier, director-geral das Artes, citando 28 projectos desenvolvidos com instituições brasileiras no ano passado. Joana Gomes Cardoso, directora do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Cultura, reforça a importância do Brasil: "Temos laços culturais únicos com vários países não-europeus que, se forem devidamente explorados, podem trazer uma grande mais-valia para as instituições culturais portuguesas e até permitir que Portugal se torne uma plataforma estratégica na Europa na promoção da diversidade cultural".

Não podemos perder tempo, alerta Pinto Ribeiro. "De uma forma geral, as respostas de organismos do Estado têm sido profundamente conservadoras e pouco interessantes para as comunidades mais contemporâneas do Brasil, que está hoje a uma velocidade inacreditável. O Brasil é hoje uma referência mundial nas artes e aos brasileiros interessa muito a passagem por Lisboa, tendo em vista outros países e mercados europeus. Mas, se não estivermos atentos a essa relação, eles vão passar a entrar por outro lado. Aliás, isso já está a acontecer, nomeadamente através de Inglaterra." A.P.C.

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