“Australopithecus sediba”, a nova estrela da paleoantropologia

Descoberto novo australopiteco mais parecido connosco do que os outros

Foto de Brett Eloff, cedida por Lee Berger ( Universidade de Witwatersrand)
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Foto de Brett Eloff, cedida por Lee Berger ( Universidade de Witwatersrand) Brett Eloff

Imaginamos se seriam mãe e filho. Ou como foram parar ao lago que existia no fundo de uma gruta. Ou se morreram ao mesmo tempo. Tudo mistérios em torno de uma mulher e de um rapaz que viveram há quase dois milhões de anos, cujos ossos foram encontrados na África do Sul há cerca de um ano e meio e que hoje estão na capa da revista “Science” como uma das descobertas mais importantes nos últimos tempos relativas a um antepassado humano.

Eis o "Australopithecus sediba", a nova estrela da paleoantropologia, que tem mais características em comum com os primeiros representantes do nosso próprio género (o "Homo") do que qualquer outro australopiteco conhecido até agora. Portanto, pode ajudar a desvendar quem foi o antepassado que deu origem ao género humano.

Recuemos, pois, a um passado longínquo. Entre as muitas grutas no território que agora é a África do Sul, existia uma que não tinha tecto há cerca de 1,9 milhões de anos e era funda. A mulher e o rapaz terão caído nessa gruta e ali permaneceram durante dias ou semanas. Os corpos foram depois arrastados até um lago subterrâneo, talvez por uma chuvada, e aí acabaram por ser cobertos por sedimentos. Ao longo de dois milhões de anos, a erosão fez o seu trabalho e os sedimentos foram arrastados até que os fósseis ficaram expostos.

Num passado já muito recente, a história teve a sua continuação. Em Março de 2008, Lee Berger, paleoantropólogo da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, iniciou uma prospecção minuciosa de um local, a 40 quilómetros desta cidade sul-africana, conhecido como o Berço da Humanidade e que a UNESCO classificou como património mundial devido à riqueza de depósitos com fósseis.

Em conjunto com o geólogo Paul Dirks, que entretanto se mudou para a Universidade James Cook, na Austrália, Berger descobriu imensas grutas. Em várias havia fósseis.

A 1 de Agosto de 2008, Paul Dirks foi fazer um dos reconhecimentos e deparou-se, quase imediatamente, com um local rico em fósseis, relata-se numa nota de imprensa da universidade sul-africana. Duas semanas depois, Lee Berger visitava este sítio com o filho Matthew, de nove anos, que em minutos dava de caras com os restos de um antepassado dos humanos. Era uma clavícula. E Lee Berger encontrava logo a seguir a mandíbula com um dente canino desse fóssil.

Tinham descoberto parte dos ossos de um rapaz que teria entre nove e 13 anos.

No mês seguinte, as explorações do sítio continuaram, com Berger a levar mais de uma dezena de colegas ao local, conhecido por Malapa. Numa pequena cova, o paleoantropólogo reparou num osso que saía de uma rocha. Era um úmero, que, por sua vez, estava ligado a uma omoplata. E assim que tocou nos depósitos caíram-lhe nas mãos mais dois dentes. O extraordinário é que, dessa vez, estavam na presença de um segundo indivíduo - uma mulher, com 20 e tal a 30 e poucos anos.

Mulher e rapaz parecem ter sido arrastados para o interior da gruta por um único fluxo de detritos, o que sugere que as suas mortes ocorreram em momentos muito próximos, separados talvez apenas por horas, dias ou, quando muito, semanas. Por isso, é provável que se conhecessem ou até que tivessem algum grau de parentesco.

Esses sedimentos foram datados como tendo entre 1,7 e 1,9 milhões de anos, pelo que os fósseis devem ter essa idade. (Além de vários ossos dos dois australopitecos, havia na gruta ossos de hienas, antílopes ou felinos com dentes de sabre).

Uma nova espécie

O que têm de especial é um conjunto de características morfológicas que levaram a equipa de cientistas a classificá-los como uma nova espécie de australopiteco. Conheciam-se já pelo menos cinco espécies, todas em África, mas estes dois indivíduos eram diferentes de todas elas em muitos aspectos. Além disso, algumas das suas características verificam-se nos membros do género "Homo" e não nos australopitecos.

Antes de mais, diga-se que os australopitecos eram pré-humanos e que os humanos apareceram precisamente com o género Homo. A espécie de australopiteco mais antiga que se conhece viveu há 4,2 milhões de anos e a que agora é anunciada foi a mais recente, com o crânio do jovem a servir para definir a nova espécie e a preencher a capa da "Science" (pelo meio, viveu a famosa Lucy, uma fêmea de "Australopithecus afarensis", com 3,2 milhões de anos).

O que tinham então aquele rapaz e aquela mulher quer de australopiteco, quer de humano? Tal como os australopitecos, tinham corpos pequenos (ambos com cerca de 1,27 metros de altura e 30 quilos), cérebros também pequenos, braços longos e mãos fortes. Pensa-se que podiam trepar às árvores, mas eram bípedes. Por outro lado, alguns traços do crânio e da bacia e as pernas longas, capazes de andar em passada ou até correr, existem no género humano.

Ora a origem do género "Homo" é alvo de grande debate científico: como seu antepassado, têm sido propostas várias espécies entre os australopitecos (mas não só). O facto de o "Australopithecus sediba" partilhar traços comuns com os humanos pode tornar mais claro este quebra-cabeças evolutivo.

Contemporânea do "Homo"

"Estes fósseis são um passo de gigante no conhecimento do nosso género. São uma peça no puzzle que preenche a passagem, muito mal conhecida, entre os australopitecos e os primeiros 'Homo'", diz Eugénia Cunha, antropóloga forense e especialista em evolução humana da Universidade de Coimbra. "Não tínhamos nada com estas características, que não permitem incluí-los nas outras espécies de australopitecos e que também ainda não eram 'Homo'."

Para baralhar mais as coisas, os primeiros membros do género "Homo" foram datados com 2,4 milhões de anos. Mas o "Australopithecus sediba" foi datado como sendo mais recente, com os tais quase dois milhões de anos, pelo que assim não poderia ter dado origem aos primeiros humanos. Pode então não ter sido ele a fazer a transição directa para o nosso género, mas uma outra espécie que existiu antes dele.

"Esta nova espécie é um candidato a antepassado do género Homo ou de um grupo irmão, com um antepassado próximo, que persistiu no tempo depois do aparecimento dos primeiros 'Homo'", escreveu a equipa de Lee Berger na "Science". "Sediba, que significa "fonte natural" em sotho, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul, pareceu o nome apropriado para uma espécie que pode ser o ponto a partir do qual surgiu o género 'Homo'", conta Berger, na nota de imprensa.

Agora a equipa desafiou as crianças da África do Sul a escolherem um nome comum para o novo rapaz australopiteco.

Notícia actualizada a 9 de Abril às 12h53