Uma Igreja que brada aos céus

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alessia pierdomenico/reuters

Há demasiados sinais de que o abuso sexual por parte de sacerdotes não tem sido encarado com a devida severidade

Que, a propósito da última vaga de revelações sobre o abuso sexual de crianças por parte de sacerdotes católicos e das tentativas de encobrimento desses actos por parte da hierarquia religiosa, se tente colocar a Igreja Católica e o Papa no lugar das vítimas é algo que ultrapassa os limites da desvergonha. As vítimas foram e são as crianças e jovens alvo dos abusos e pretender roubar-lhes essa verdade - que muitos só conseguiram encarar com um enorme sofrimento suplementar ou nunca conseguiram enfrentar de todo - é roubar-lhes a última dignidade e vitimizá-los de novo. Os especialistas de comunicação podem chamar-lhe alegremente spin. De facto, é uma infâmia.

Esta infâmia não só ultrapassa os limites da desvergonha como coloca em dúvida a sinceridade das manifestações de horror e de arrependimento perante esses actos que têm sido enunciadas por muitos representantes da Igreja Católica e pelo próprio Papa. Em que ficamos? A Igreja está chocada e envergonhada com a revelação destes crimes e está disposta a fazer a sua penitência e tudo o que for necessário para castigar os responsáveis e evitar que estes actos se repitam? Ou está, pelo contrário, vivamente abespinhada por alguém revelar os seus podres e pelo mundo se atrever a julgar a sua conduta? As duas atitudes são incompatíveis.

Que a Igreja, pela boca do pregador oficial da Santa Sé, se queira comparar, nesta campanha de vitimização, com os "irmãos judeus" que ela própria perseguiu e assassinou em massa é ridículo, é estúpido, é ofensivo (a expressão "obsceno" também já foi usada) e faz recear que a Igreja possa ter perdido todo o sentido de proporção - o que seria algo a evitar neste momento. O pregador Cantalamessa veio depois pedir desculpa (o único homem que pode pregar ao Papa não pensará um bocadinho no que vai dizer e ler antes de o dizer e ler?), mas as suas palavras ficaram, com o seu peso, dando o tom a uma vaga de reacções incendiadas em defesa da Igreja. A táctica parece pois continuar a ser o spin em vez da humildade.

Que a Igreja Católica, nos últimos anos, tem vindo a reduzir a sua tolerância perante os casos de abuso sexual de menores é um facto - e Ratzinger poderá tido nessa evolução algum papel. Mas o que é igualmente um facto é que a Igreja Católica apenas o fez devido a uma pressão crescente da sociedade civil, à publicação de denúncias na imprensa e à multiplicação de queixas - com processos judiciais que já a obrigaram a pagar indemnizações de milhares de milhões de dólares. O mérito próprio que lhe caiba neste domínio é pelo menos duvidoso e, para o anular, conhecemos muitos casos em que o abuso sexual denunciado encontrou como resposta o menosprezo, o encobrimento activo e mesmo a cumplicidade por parte da hierarquia católica. Qual é a responsabilidade pessoal do Papa em tudo isto? Toda. O Papa é a cabeça da Igreja e será sempre o responsável máximo por todos os seus actos.

A verdade é que ainda hoje continuamos a ver demasiados sinais de que o abuso sexual por parte de sacerdotes não tem sido encarado com a devida severidade (por muito que a Igreja proteste a sua "tolerância zero"). São as declarações de responsáveis (como o arcebispo Silvano Tomasi, representante do Vaticano na ONU) dizendo que nas outras religiões também há abusos, ou que, em rigor, não se deve usar a expressão "pedofilia", mas sim "efebofilia", porque muitos dos abusos dizem respeito a adolescentes dos 11 aos 17 anos, ou ainda que a investigação mostra que apenas 1,5 a cinco por cento dos padres católicos estão envolvidos em abuso sexual de menores (o que é menos do que na população adulta masculina geral). Serão estas declarações destinadas a descansar os pais que entregam os seus filhos a instituições religiosas? Se o são, falham dramaticamente o alvo.

Como é preocupante que só na sequência dos últimos escândalos o Vaticano tenha esclarecido que os acusados devem ser denunciados à justiça laica e não apenas julgados pela secreta justiça eclesiástica - que não tem uma tradição de severidade no combate à pedofilia.

A defesa da Igreja passa necessariamente pela limpeza do seu "lixo" (para usar uma expressão de Ratzinger) e a cega defesa corporativa das suas maçãs podres só servirá para degradar mais ainda a sua imagem e dificultar a sua missão - nesta como em qualquer outra corporação. Se a Igreja não perceber isso, fá-lo por sua conta e risco. (jvmalheiros@gmail.com)