Padre compara ataques à Igreja ao pior do anti-semitismo

Abalado pelos escândalos de pedofilia, o Vaticano decidiu agora passar ao contra-ataque. Ontem, durante as celebrações da Sexta-Feira Santa, um pregador apostólico comparou as acusações de que a Igreja foi alvo nas últimas semanas "aos aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo".

O padre franciscano Raniero Cantalamessa, pregador do Vaticano desde 1980 e o único que pode pregar para o Papa, dedicou o sermão da Paixão de Cristo, na Basílica de São Pedro, à violência, mas anunciou que não iria falar dos abusos sexuais cometidos "de forma infame por um número de elementos do clero" porque desses "já se fala muito lá fora". Ao invés, leu uma carta enviada por um "amigo judeu" que disse "seguir com tristeza o ataque violento" que tem sido feito à Igreja. Um ataque que, para o autor da missiva, seria semelhante ao lançado contra os judeus porque "utiliza estereótipos" e transforma "uma culpa pessoal em culpa colectiva".

O sermão, lido na presença do Papa, mostra como a questão dos abusos sexuais está a ensombrar a Páscoa, após semanas de revelações embaraçosas. E se em vários países europeus se pede ainda perdão às vítimas - o arcebispo alemão Robert Zollitsch manifestou ontem "tristeza e vergonha" pelas mais de 300 casos entretanto conhecidos -, no Vaticano as atenções estão centradas na defesa do Papa.

O cardeal William Levada, seu sucessor na Congregação para a Doutrina da Fé, publicou um longo artigo repudiando a investigação do New York Times, a quem acusou de "falta de imparcialidade". O jornal noticiara que Bento XVI encobriu dois padres pedófilos, na Alemanha e nos EUA.

O L"Osservatore Romano publicou várias cartas em defesa do Papa, como aquela em que a conferência episcopal latino-americana critica a campanha "falsa e caluniosa" da imprensa. Noutra, 70 intelectuais franceses elogiam o Papa e pedem uma "ética de responsabilidade" nos media.

Mas o escândalo não dá sinais de abrandar. Ontem, uma plataforma de apoio às vítimas na Áustria anunciou que, em apenas duas semanas, recebeu 174 denúncias de maus tratos e abusos sexuais cometidos em colégios católicos nos anos de 1960 e 70. O grupo pondera agora uma acção judicial conjunta contra a Igreja.