Liga Europa

A justiça e o sonho chegaram de penálti

Cardozo marcou os dois golos do Benfica
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Cardozo marcou os dois golos do Benfica Hugo Correia/Reuters

O jornalista britânico Tom Utley escreveu um dia que “o futebol é ciência, arte, guerra, ballet, teatro, terror, alegria, tudo isto junto num só.” E é mesmo esta frase que apetece citar, depois do que se viu, nesta quinta-feira, no Estádio da Luz, onde o Benfica derrotou o Liverpool, por 2-1. Um resultado que não sentencia a eliminatória (longe disso), mas que abre boas perspectivas para uma equipa que, dia após dia, ganha mais direito a sonhar com a final de Hamburgo.

É certo que o Liverpool se pode queixar do excesso de rigor do árbitro, que logo aos 30’ expulsou Babel por este ter colocado a mão na face de Luisão. A equipa de Benítez sentiu muito a falta do holandês e não saberemos como teria sido o jogo se as equipas tivessem jogado onze para onze até ao fim. Mas também é certo que o Benfica (excepto nos 15 minutos iniciais) foi sempre superior ao Liverpool e viu serem perdoados aos “reds” dois penáltis.

Falemos de alegria e de teatro. Os golos benfiquistas chegaram apenas na segunda parte e talvez pelo protagonista mais inesperado, tendo em conta o que se passou na primeira hora de jogo. Cardozo despiu a pele de avançado perdulário, incapaz de acertar com a bola naquele objecto com 7,32 metros de largura, e vestiu o papel de goleador. Aquele, aliás, que mais tem representado esta época. Deixando para trás remates e mais remates falhados, o paraguaio empatou o jogo com um penálti, a punir falta sobre Aimar (59’). Ao nono remate, conseguiu finalmente bater Reina, o que voltaria a fazer 20 minutos depois. Outra vez de penálti, desta vez após mão de Carragher.

Falemos também de arte, ciência e ballet, porque foi assim que o jogou começou. Tudo num só. Tudo num minuto, o nove, em que o central dinamarquês Agger bailou e fez o 1-0 para o Liverpool, de calcanhar. Foi um lance estudado no laboratório de Benítez que abalou a estratégia de Jorge Jesus e premiou a boa entrada do Liverpool, cujos experientes jogadores souberam esconder a bola e conquistar aqueles pequenos nadas que todos juntos valem muito. Ganharam o primeiro canto, a primeira falta perigosa e, acima de tudo, tiveram a arte de marcar na primeira oportunidade.

A arte do Liverpool deixou inquietos os adeptos “encarnados” que protagonizaram a segunda maior enchente da época, só superada pela de sábado, frente ao Braga. Uma inquietação que foi crescendo ao verem Cardozo e companhia falharem oportunidades atrás de oportunidades. Foi assim o jogo entre os 15 e os 59 minutos. Cardozo a rematar ao lado, por cima, contra Reina. Aimar a não dominar a bola. Di María a fazer a bola rasar a barra. Javi García com o pé torto.

Tal como em Marselha, o Benfica via-se em desvantagem. E tal como em França, a equipa de Jorge Jesus reagia bem. Só que desta vez, durante muito tempo, faltou eficácia, que só apareceu da linha dos 11 metros. Ainda assim chegou a tempo de dar, depois de Marselha, a segunda reviravolta da época.

Chegados aqui falemos de guerra, que é o que espera o Benfica em Liverpool, quinta-feira. Nessa batalha, os portugueses têm argumentos a favor. Têm a confiança de quem soma 26 jogos seguidos sem perder e 25 sempre a marcar. Viram o adversário perder Babel e Insúa (castigados). E têm ainda o moral de quem venceu, pela quarta vez, seguida o Liverpool.

Mas também é preciso dizer que se o Benfica tem o direito a sonhar com o primeiro título europeu desde 1962, também não pode esquecer que a eliminatória será decidida em Anfield. É lá que moram os que muitos consideram os melhores adeptos da Europa, moram jogadores de classe mundial e uma equipa que, embora não esteja nos seus melhores dias, traz de Lisboa uma derrota tangencial, e tem um ritmo elevado, capaz de pôr em sentido o Benfica, como, aliás, fez durante algum tempo na Luz, antes de Cardozo dar justiça ao resultado. E mais argumentos ao sonho da final de Hamburgo.


POSITIVO e NEGATIVO

+


Cardozo
Durante quase uma hora esteve na coluna do negativo, tantas as oportunidades que falhou. Acabou por ser decisivo na marcação dos dois penáltis. Um momento em que mostrou nervos de aço, até porque já falhou cinco esta temporada.

Fábio Coentrão
À sua velocidade natural junta cada vez mais a inteligência no posicionamento, a agressividade nos duelos e a capacidade de descobrir os colegas desmarcados.

Di María
Embora nem sempre seja eficaz, é um desequilibrador nato, como se viu no lance do segundo penálti. Certamente aumentou a sua cotação em Inglaterra.

-


Ramires
Correu muito, mas falhou demasiados passes. Não foi o Ramires do costume.

Fernando Torres
Até se pode queixar de a sua equipa ter jogado com menos um durante uma hora, o que o deixou muito só. Mas Torres não fez golos. E teve uma oportunidade flagrante, aos 76’.

Petardos
Os adeptos foram exemplares, excepto os que lançaram petardos para o relvado. Uma falta de civismo que pode custar caro ao Benfica.
Ficha de jogo

Benfica,


2

Liverpool,


1

Jogo no Estádio da Luz, em Lisboa.Assistência
62.629 espectadores

Benfica

Júlio César

6

; Maxi Pereira

6

(Nuno Gomes

4

, 66’), Luisão

5

, David Luiz

8

, Fábio Coentrão

8

; Javi García

6

, Ramires

4

, Carlos Martins

5

(Ruben Amorim

-

, 72’), Di María

7

; Aimar

6

(Airton

-

, 87’), Cardozo

7

.

Treinador

Jorge Jesus.

Liverpool

Reina

6

; Johnson

5

, Agger

7

, Carragher

4

, Insúa

4

; Lucas

5

, Mascherano

5

, Gerrard

7

(Benayoun

-

, 90’+1), Kuyt

6

, Babel

3

; Torres

5

(Ngog

-

, 82’).

Treinador

Rafael Benítez.

Árbitro

Jonas Eriksson

4

, Suécia.

Amarelos

Luisão (29’), David Luiz (37’), Insúa (45’+1), Reina (74’) e Carragher (78’).

Vermelho

Babel (30’).

Golos

0-1, por Agger, aos 9’; 1-1, por Cardozo, aos 59’ (g.p.); 2-1, por Cardozo, aos 79’ (g.p.).

Notícia actualizada às 23h06
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