Crise travou gastos com roupa mas não chegou aos bens alimentares

Preços médios do mercado alimentar caíram 3,7 por cento em 2009, mas os consumidores compraram mais produtos. Cresce consumo de congelados

Apesar da maior recessão desde a Segunda Guerra Mundial, os portugueses puseram um travão tímido no consumo. As vendas no comércio tradicional e moderno caíram apenas um por cento em 2009 face ao período homólogo, atingindo os 17.253 milhões de euros, revela o 1.º Barómetro de Vendas 2009, da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED).

Foi na área não alimentar que a contenção de gastos mais se fez sentir (uma quebra de quatro por cento), sobretudo na compra de bens de equipamentos (menos nove por cento) e no vestuário (menos três por cento). Em termos concretos, os consumidores preferiram não comprar produtos de informática - gastos desceram 17 por cento para 716 milhões - como computadores portáteis ou tinteiros (menos 13 e 20 por cento, respectivamente, face a 2008).

Mesmo os electrodomésticos de linha branca tiveram uma quebra média de três por cento, com excepção das máquinas de lavar roupa que subiram dois por cento.

A venda de LCD disparou 12 por cento, para os 305.267 milhões de euros. Os portugueses preferiram actualizar a televisão em vez de comprar leitores de MP3/MP4 ou câmaras de filmar.

Foi nos pequenos domésticos que os comerciantes mais lucraram. A facturação global cresceu 6,4 por cento para os 260 milhões de euros e os três produtos com maior volume de vendas foram as máquinas de café, os ferros de engomar e os aspiradores, todos com variação positiva em comparação com 2008. Se, por um lado, deixámos de comprar tantos telemóveis, comprámos mais 57 por cento de smartphones (no total, registou-se um gasto de 51.511 milhões de euros).

Na área alimentar, foram vendidos mais produtos, a preços mais baixos (preço de venda ao público desceu 3,7 por cento, mas os gastos cresceram 1,7 por cento). Foi em bens perecíveis que os portugueses gastaram mais dinheiro (3206 milhões de euros, subida de quatro por cento), uma tendência também explicada "pela mudança de hábitos alimentares mais saudáveis", diz Vicente Dias. "Houve mais dinâmica de preços baixos para que o consumo se mantivesse estável", acrescentou.

Quanto aos produtos mais consumidos no sector alimentar, a quota de mercado só desceu nos frescos (menos 1,1 por cento em 2009 face a 2008) e nos lácteos (quebra de 0,8 por cento). A maior subida foi nos congelados, que ganharam mais 0,6 por cento de quota, para os 7,3 por cento.

Apesar da contenção, o consumo de marcas próprias evoluiu de 31,6 por cento, em 2008, para 32,8 por cento. Este segmento ficou marcado por mais investimento dos principais operadores da distribuição em novas categorias de produtos de marca branca, sustenta Vicente Dias. Em termos gerais, o ano "acabou por não ser tão negativo" como previsto.