O gás natural é cada vez mais o sucessor do petróleo. O grande impulso vem dos EUA
O gás natural é cada vez mais o sucessor do petróleo. O grande impulso vem dos EUA: Gás natural não convencional está a provocar uma revolução
A Shell vai à China assinar acordos, a ExxonMobil paga 41 milhões de dólares por uma pequena empresa, a Polónia está prestes a abrir um poço histórico, investimentos de milhões no Médio Oriente e na Rússia estão sem certeza de retorno.
Estas são peças de um xadrez que não pára de crescer há três anos e todas elas giram à volta da exploração de gás natural não convencional. Dizem que é a última grande revolução, discreta e rápida.
Nos últimos três anos, os EUA tornaram-se quase auto-suficientes em gás natural, à conta da aposta que fizeram no gás não convencional, quando em 2007 eram ainda os grandes importadores mundiais. As próximas estatísticas da Agência Internacional de Energia (AIE) podem confirmar que os norte-americanos destronaram a Rússia como maior produtor mundial de gás natural - é essa a expectativa do sector.
Se isso acontecer, significa que o equilíbrio mundial de forças entre exportadores e importadores tradicionais de gás natural está a mudar. O mundo ocidental depende cada vez mais deste combustível fóssil para produzir electricidade, sendo também considerado o menos "mau" do grupo, por ter o mais baixo nível de emissões de CO2.
Os exportadores tradicionais situam-se no Médio Oriente, nomeadamente Qatar, e na Rússia, com planos de investimento a médio e longo prazo. Os seus investimentos para alargar a capacidade de exportação são agora dólares incertos.
As últimas estimativas da AIE e do Departamento de Energia dos EUA indicam que o planeta terá entre 921 biliões e 1,2 milhares de biliões de metros cúbicos de gás não convencional, mais de cinco vezes as reservas estimadas do gás convencional retirado habitualmente das jazidas mais à superfície.
As formações geológicas deste gás com maior potencial de exploração encontram-se nos EUA e no Norte da Europa. Aponta-se para a Polónia, Alemanha, Áustria e Hungria. Os EUA, que lideram esta corrida, dizem garantir metade das suas necessidades actuais com gás natural produzido no seu mercado a partir de fontes não convencionais e calculam que as suas reservas potenciais bastam para quase um século mais, aos níveis de consumo de hoje. É um número em que acredita Daniel Yergin, uma das vozes mais ouvidas no mundo do petróleo.
A euforia dos mercados, com a clara liderança dos norte-americanos neste promissor filão energético, é mais evidente desde os acordos da Administração Obama com o Governo chinês em Novembro passado, e a compra da pequena XTO pela ExxonMobil, um mês depois, por 41 milhões de dólares.
Na Europa, que ainda não explora este tipo de gás, indica-se que as reservas estimadas são suficientes para substituir, pelo menos, quatro décadas de importações, aos níveis actuais, o que será também suficiente para alterar radicalmente a relação com a Rússia, o país que fornece um quarto do gás que consome hoje. É com a Rússia que os europeus têm um quadro de crises cíclicas de abastecimento e polémicos gasodutos desenvolvidos em conjunto, o Nord Stream, ou não, como o Nabbucco.
"As notícias da morte do petróleo e do gás surgiram várias vezes, mas o sistema tem respostas que as pessoas não imaginam", diz o presidente executivo da Partex, António Costa Silva, ao PÚBLICO.
Sophia Ruester, da Universidade de Tecnologia de Dresden, afirma que "o aumento substancial da produção de gás não convencional inverteu o declínio histórico da produção de gás dos EUA, reduzindo a sua procura de gás natural liquefeito (GNL)", que é o gás importado.
"Dado que se esperava que a América do Norte fosse um mercado de grande crescimento de GNL, este desenvolvimento tem um impacto severo no futuro da procura mundial", acrescenta.
Oportunidade para PortugalO pioneirismo na extracção de gás natural de fontes mais difíceis e, por isso, mais caras é atribuído a uma pequena e dinâmica empresa de pesquisa petrolífera norte-americana, a Mitchell Energy, que apostou nas formações rochosas no Texas desde a década de 1990.
A aposta da Mitchell e a subida dos preços do petróleo, nos últimos anos, conjugaram-se e tornaram o processo comercialmente viável. Com a ajuda das economias de escala e do desenvolvimento tecnológico, os custos de produção desceram para metade.
O gás não convencional pode ser extraído de grande profundidade, das rochas xistosas, das areias de baixa permeabilidade ou compactas, do metano das camadas de carvão e dos hidratos de metano, sendo este provavelmente de elevado impacto ambiental, dado existir sobretudo nas camadas árcticas. A produção do gás de xisto, a partir da fractura de rochas e perfurações verticais e horizontais, é a que mais tem crescido nos EUA.
Se tudo correr como previsto, a Polónia, que importa dois terços do seu gás natural da Rússia, vai abrir o seu primeiro poço em Abril, com parceria americana. Será o primeiro poço de gás de xisto da Europa, refere a imprensa especializada.
No caso de Portugal, a formação geológica do território nacional não se mostra adequada a depósitos de petróleo, nem de gás natural, mas o mesmo já não se pode dizer da sua placa continental e do potencial acrescido com o alargamento da zona económica exclusiva para as 350 milhas.
Costa Silva admite que as formações submarinas como a da placa continental portuguesa têm condições para armazenar quantidades significativas de hidratos de metano, contendo moléculas de gás natural com um conteúdo energético duas a três vezes superior aos combustíveis fósseis convencionais. Assegura que a ONU se tem interessado pela riqueza mineral da crosta oceânica de que o país pode dispor, mas que Portugal "precisa de investigar e ter uma estratégia", se quiser passar do potencial à certeza.