A revolta de Passos Coelho

Pedro Passos Coelho reapareceu na política portuguesa, logo a seguir ao menezismo, como o liberal do PSD. Era alguém que não tinha medo de enfrentar a questão ideológica num partido de poder historicamente avesso a esse debate. Nas eleições que perdeu para Manuela Ferreira Leite, vimo-lo muitas vezes enfatizar o seu liberalismo económico e nos costumes e defender um partido mais claramente diferenciado do PS. Nestas eleições directas, esse discurso desapareceu ou foi disfarçado em grande parte. Talvez porque Passos Coelho percebeu que só ascenderia à liderança se se aliasse a uma federação de grupos dentro do PSD cujo principal argumento para justificarem a vitória foi o de nunca terem mandado nos destinos do partido, e de agora, depois de Ferreira Leite ter perdido as legislativas para Sócrates, assumirem que tinha chegado a sua vez.

Há três anos, Luís Filipe Menezes também venceu, com inesperada clareza, sobre Marques Mendes. Nessa altura, a lógica menezista foi exactamente a da revolta. A revolta das "bases" contra os "barões", dos militantes "de baixo" contra as elites cavaquistas e barrosistas, daqueles que reclamam há séculos por uma oportunidade contra os que tristemente perderam as últimas eleições. A vitória de Passos Coelho assentou no mesmo grito do Ipiranga das "massas" tratadas anos a fio como secundárias e irrelevantes pelos magnatas do partido e na mesma pressa em chegar ao poder. Não quero dizer que Passos é uma réplica de Menezes, porque não é. Desde logo, parece-me mais frio, profissional e astuto do que o autarca de Gaia. Mas o seu triunfo folgado dependeu dum círculo de alianças e duma dinâmica política bastante coincidente.

O séquito de Passos Coelho é, também por isso, feito de alguma raiva psicológica. Com ele, chegam muitos ressentidos, muitos que têm contas para ajustar, muitos que se proclamam traídos e esquecidos, muitos descamisados da política que sempre cobiçaram todas as lideranças até se virarem contra elas a partir do momento em que não lhes concediam o que queriam. Passos Coelho tem agora a tarefa de manter toda esta gente unida e satisfeita. Com o paradoxo de, se quiser ganhar eleições, precisar de desiludir alguns.

Os mais de 60 por cento dos votos que conseguiu nestas directas mostram que Passos não tem agora desculpas para não cumprir o que prometeu: uma oposição implacável ao PS, um caminho alternativo ao de Sócrates, a inversão do nosso declínio económico. Esperamos também, como ontem preveniu Aguiar-Branco, que não seja complacente com Sócrates no inquérito ao caso PT/TVI - e vale a pena insistir nesse ponto, porque aí Passos Coelho sempre me pareceu demasiado ambíguo e escorregadio.

Sobre os derrotados: Aguiar-Branco provou na campanha que é um grande quadro do PSD (a excelente moção que apresentou foi justamente elogiada), mas a sua candidatura foi também inútil e despropositada, até pela cisão com Paulo Rangel. E, quanto ao próprio Rangel, pecou por inexperiência, por se lançar tarde, por não trazer uma equipa formada, mas amealhou um razoável resultado e continua a ser, na minha opinião, um dos mais interessantes políticos da nova geração. A História continua.

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