Manuel Alegre defende retorno ao Estado social e lembra que um Presidente não governa, mas reflecte

O candidato espera apoio do PS
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O candidato espera apoio do PS

Recados e mais recados: a cada evento de campanha, Manuel Alegre insiste em distribuir mensagens. Ontem à noite, em Beja, o candidato a Presidente da República falou da difícil situação económica portuguesa, instando o Governo a voltar ao Estado social, criticou diversas opções dos Executivos de José Sócrates e realçou que sabe quais as funções do cargo.

"Sei bem que em Portugal a função do Presidente não é governar" nem "derrubar governos", disse Alegre, numa alusão que tanto serve a Cavaco Silva como ao ministro da Presidência, que no domingo criticou o candidatou por ter atacado medidas do PEC. "Uma coisa é a função de um Presidente da República e outra coisa é governar. O que nós dizemos é que não cabe a um Presidente da República ter um programa alternativo de governação", disse Pedro Silva Pereira.

Mas a função do Presidente, insistiu Alegre, "também não é fazer o discurso do governo". E prometeu que será sempre "autónomo, responsável, independente e livre". Porque é sua convicção que o chefe de Estado "pode fazer a diferença e ser um factor de mudança. Pode até ser uma alternativa". Não de Governo, insistiu, "mas de atitude, de visão de Portugal", que "não reduza a Nação apenas à economia". "O Presidente não governa", concorda Alegre, "mas pode e deve propor um debate nacional que permita a Portugal sair da crise em que se encontra." Mais: "Cabe-lhe convocar o país para as reflexões sobre indecisões e contradições."

Lembrou a propósito socialistas que passaram pelo poder: um slogan de Guterres - "uma nação não é só números" - e a frase de Jorge Sampaio "há mais vida para além do défice". " do PEC, acrescentou. Mas Alegre também não esquece que "Portugal assumiu compromissos que tem de cumprir" perante a UE e os portugueses, que "a consolidação das contas públicas é indispensável", embora para além do défice das contas haja os outros: o défice social, o da qualificação, o do emprego, o da desertificação, o da pobreza "no limiar da qual ainda se encontram cerca de 18 por cento dos portugueses".

Manuel Alegre traçou o difícil quadro económico e social em que Portugal se encontra e lembrou que há cinco anos, quando se candidatou - ali em Beja venceu seis dos 14 concelhos - havia uma maioria absoluta, "a consolidação orçamental estava a dar passos importantes e a relação institucional entre São Bento e Belém antevia-se pacífica". O cenário actual é, por comparação, muito complicado e por isso preconizou que é preciso regressar ao Estado social e lembrou os exemplos dos EUA, onde Obama conseguiu passar a reforma da saúde, e da França, onde a esquerda se mobilizou para ganhar as regionais. "Passou o tempo do deixar fazer, do deixar nadar. Esta é a hora da responsabilidade política e social do Estado."

Mais de dois meses depois do anúncio da candidatura, Alegre deixou ontem mais um recado ao PS: "Na próxima eleição presidencial não estará só em causa a escolha de um Presidente. A direita já percebeu. É tempo de toda a esquerda perceber também". O BE demorou uma semana a dar-lhe o seu apoio, enquanto os socialistas esperam pela decisão de José Sócrates.