Filme sobre "Três de Angola" denuncia sistema judicial dos EUA

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"In the Land of the Free", do realizador britânico Vadim Jean, estreia-se hoje nas salas dos EUA e do Reino Unido

É a maior prisão dos Estados Unidos e foi em tempos a mais violenta. Os prisioneiros envolviam-se em frequentes lutas instigadas pelos guardas que, por sua vez, abusavam sexualmente dos mais vulneráveis. São tenebrosas as histórias que os ex-prisioneiros contam das condições vividas na penitenciária do estado da Louisiana, sobretudo nos anos 1970, quando Herman Wallace, Albert Woodfox e Robert King lá chegaram.
É também tenebrosa a história destes três homens, contada no documentário "In the Land of the Free", do realizador britânico Vadim Jean, que se estreia hoje nas salas dos EUA e do Reino Unido, depois de anteontem ter sido visto no Festival de Cinema Internacional da Human Rights Watch.

O filme, narrado pelo actor Samuel L. Jackson, é um verdadeiro manifesto político, com o objectivo assumido de levar à libertação de dois dos "Três de Angola" que continuam nesta prisão de alta segurança, também conhecida por "Angola Prison" (foram escravos vindos de Angola a iniciar a sua construção).
Herman Wallace, Albert Woodfox e Robert King foram condenados por homicídio de um guarda prisional, Brent Miller em 1972 - sem provas e sem testemunhas . Por decisão das autoridades da prisão, foram colocados em regime de total isolamento num cubículo de três por quatro metros e sem quase nunca poderem ver a luz do dia. Apenas saíram desse regime em 2008.
Wallace, Woodfox e King estavam, na altura da condenação, envolvidos no movimento cívico Black Panther. Antes de verem os seus nomes implicados na morte de Miller, Wallace e Woodfox organizavam sessões de ideologia política onde denunciavam e convidavam os seus companheiros a denunciar as injustiças, numa tentativa de pôr fim aos abusos sexuais dentro da cadeia. Queriam aplicar em "Angola Prison" aquilo que o movimento tentava aplicar fora dela: os direitos cívicos de todos e, em particular, dos negros.
Quando foi condenado, Robert King não estava ainda na prisão, mas foi mesmo assim acusado de conspirar do exterior para matar o guarda Miller. King viu a sua condenação anulada em 2001 e desde então tem lutado para obter a libertação dos seus dois companheiros.
Anos antes, em 1993, também Woodfox apresentou recurso e foi de novo julgado. Mas nem mesmo a confirmação de que não era sua a impressão digital encontrada no corpo da vítima o livrou de nova condenação e do reenvio para a cela de isolamento. Só em 2008 viu a sua condenação anulada, mas até hoje não foi libertado. Aguarda a decisão do procurador do estado de Louisiana para saber se tem de ir de novo a julgamento.
O "trailer" de apresentação do documentário pode ser visto na Internet e não deixa dúvidas. Nele vê-se a própria viúva do guarda da prisão assassinado há 38 anos a pedir a libertação de Wallace e Woodfox, para pôr fim ao calvário de dois homens que ela própria diz serem inocentes.
Ao pôr a nu o choque, ainda hoje existente, entre a realidade norte-americana e os ideais de liberdade do país, "In the Land of the Free" lembra as violações dos direitos humanos dos últimos anos na base americana de Guantánamo e na prisão de Abu Ghraib que os EUA mantiveram durante anos no Iraque.
Este não é pois apenas um filme sobre um erro judiciário. "Em nenhum país do mundo os presos ficam em regime de isolamento mais de três décadas", lamenta o congressista democrata John Conyers, do Comité Judiciário, que tem visitado Wallace e Woodfox na cadeia. No fim do "trailer", um convite: "Veja este filme." Pausa. "Porque eles não vão poder."