Bernardo Sassetti em movimento

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Fotografia: Beatriz Batarda

Artista cada vez mais complexo, Bernardo Sassetti revela-nos, a propósito da edição do novo álbum, "Motion", o seu universo artístico, feito de imagens e muita música, e confessa um particular prazer pelas coisas simples

Bernardo Sassetti, pianista, fotógrafo e realizador de complexos e fascinantes projectos multimédia, acaba de lançar "Motion", o seu quarto álbum pós-"Nocturno", registo que marcou a história do jazz português e que marca também, segundo o próprio, o início da sua fase adulta como músico. "Esse disco foi a reviravolta na minha vida, foi a passagem de uma fase que pouco me interessa actualmente para uma fase mais adulta, mais madura."

Quem assistiu ao nascimento de "Nocturno", gravado em 2002 para a editora Clean Feed, numa altura em que o jazz português começava lentamente a afirmar-se com alguma consistência no circuito internacional, sentiu forte o impacto que o disco teve entre nós - um trio de jovens músicos a tocar um jazz intemporal, poético e envolvente, com um nível de qualidade pouco habitual em Portugal. O disco, aclamado pelo público e pela crítica, foi também um sucesso de vendas, contrariando velhos princípios que colocam a qualidade de um projecto na medida proporcionalmente inversa ao seu sucesso comercial. Para Sassetti, foi a descoberta da sua própria imagem como artista, de uma identidade própria, bem definida.

Essa identidade continuou bem vincada, e profundamente pessoal, nos registos que se seguiram, apesar de, sobretudo em "Ascent" e em "Unreal Sidewalk", Sassetti ter adoptado conceitos, sonoros e visuais, mais complexos. Sentia-se nessas gravações uma maior contenção, uma preocupação com o controlo do som, uma reserva. Agora, com a mesma formação que gravou "Nocturno" - Carlos Barretto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria -, "Motion" veio representar, para muitos, um regresso a um conceito puramente musical, mais descomprometidamente jazz. Será assim?

"O 'Motion' é uma reentrada. É o sair desta fase e o retomar da fase anterior. É um novo ponto de partida em que existe a consciência pura de que a imagem, feita propositadamente para o projecto, existe e está lá, mesmo para quem oiça o disco e não se aperceba disso. Nesse sentido é bastante diferente de 'Nocturno'. Está profundamente ligado ao trabalho que tenho desenvolvido nos últimos anos, sobretudo para o cinema. Sinto agora que essa ligação, muitas vezes indefinível, é agora mais palpável", diz, reflectindo sobre a orgânica interna da sua própria obra. "Por outro lado, sinto ainda que existe alguma distância entre o que foi conseguido em disco e o que realizamos em concerto. Trata-se de um conceito forte e complexo que ainda não consegui transportar completamente para o palco", acrescenta.

Por aquilo a que pudemos assistir no concerto de apresentação do disco, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em "Nocturno" havia uma maior pulsão jazz, o gesto era mais solto, mais espontâneo. Em "Motion", apesar de gravado com o mesmo trio, a música é menos expansiva, talvez por influência do trabalho entretanto desenvolvido em torno do cinema e da fotografia. "Há dois tipos de revivalismo neste disco: um revivalismo dos tempos em que a Cinemateca me convidava para acompanhar filmes mudos, e era um prazer imenso estar a olhar para o ecrã e tocar com as imagens, e um revivalismo da música do trio, da época do 'Nocturno'. Acho que a música de hoje só consegue sobreviver pela interpretação que lhe damos. Já tudo foi feito. O 'Motion' tem coisas que muitas pessoas ligadas ao meio do jazz acham demasiado simples ou que pretendem ser acessíveis a um maior número de pessoas. Na realidade, trata-se apenas do prazer que tenho em fazer coisas simples, nunca simplistas", explica.

Fotografar sempre

Falando com Sassetti, percebe-se que "Motion" teria de ser necessariamente muito diferente do registo de estreia do trio. O pianista parece já não conseguir raciocinar apenas em termos de música. No seu universo artístico actual fundem-se agora música e imagem, num turbilhão de conceitos e ideias que marcam uma nova fase: "As ligações com o Anthony Minghella [realizador de 'O Talentoso Mr Ripley'] e com todos os realizadores portugueses com quem trabalhei foram crescendo e fazendo com que esta vontade de trabalhar com imagens se instalasse."

Há muito que Sassetti tem uma enorme paixão por cinema. Há alguns anos, quando se entrava na sua sala de ensaio, viam-se as paredes forradas, não de discos como seria de esperar, mas de filmes. "Eu vejo um filme se não todos os dias, quase todos os dias. Isto há já muitos anos. O meu grande sonho era ser realizador, desde os 12 anos. Agora já não. Vivo a música 24 horas e sei que é este o meu caminho. No entanto quero continuar a realizar projectos como este, tenho mais ideias...".

Se pensarmos no espectáculo de apresentação de "Motion" e na forma como tudo funcionou - a posição dos músicos, a luz na intensidade certa para não influenciar a projecção, a qualidade das imagens projectadas, a sequência dos filmes e, finalmente, a música - percebemos que uma imensidão de detalhes se conjuga para criar um momento único, exactamente como se de uma realização se tratasse. Os filmes que Sassetti projectou eram formados por milhares de "stills" fotográficos, representando um gigantesco trabalho de selecção e sequenciação das imagens. Perguntamos-lhe porque o fez com fotos, sendo que seria muito mais fácil fazê-lo com filme: "Existe uma relação muito íntima quando se utiliza uma máquina fotográfica, que é muito diferente da relação com uma máquina de filmar. Finalmente, nestes últimos anos, aprendi a utilizar a máquina [fotográfica] como queria. Trabalhei com full HD e comecei a fazer experiências com a Jennifer Mendes, que me ajudou na sequenciação das imagens, a encontrar os tempos certos, e comecei a perceber: Isto é um mundo maravilhoso! E resolvi ir por ali. Foram dois anos de trabalho. Sinto agora que não tenho vida para continuar a fazer as coisas assim, mas foi uma experiência incrível. Ficaram centenas de sequências fora do projecto, já realizadas. É todo um corpo de trabalho que espero vir a utilizar no futuro."

Sassetti fotografa desde "sempre", "sistematicamente, com máquinas "compradas com o pouco dinheiro que juntava". "As primeiras eram automáticas mas depois o meu pai ensinou-me a operar com uma reflex. Tinha um conhecimento grande de fotografia e foi o responsável pelo interesse que hoje tenho por ela. Ensinou-me a olhar para as coisas com tempo, a ir à procura de imagens, da luz correcta. Fotografei sempre em filme e só recentemente comecei a utilizar o digital, um pouco por causa deste projecto e pela necessidade de captar grandes sequências com disparos contínuos. Seria quase impossível fazê-lo com tecnologia analógica." O próximo desafio é aproximar-se das pessoas: "Estou a preparar um projecto que envolve olhar mais para os outros. Até aqui foi para mim difícil fotografar pessoas. Demoro tanto tempo a fazer as coisas, de forma tão intensa, que é difícil pedir a alguém que tenha paciência para me aturar. Claro que faço retratos de família, e sobretudo autoretratos, mas para mim foi sempre difícil fotografar pessoas na rua, pessoas que não conheço."

Para o futuro

Apesar do mau momento do país - "Não é altura para dizer coisas muito positivas sobre o meio. Não há continuidade na política cultural.

Produzem-se e apoiam-se projectos importantes mas não se considera a sua necessária continuidade" -, Bernardo Sassetti está em Portugal para ficar. "Neste momento, eu e a Beatriz [Batarda] optámos por ficar, pois a educação das nossas filhas passa por aqui. Mantemos ambos uma ligação forte com outros países, nomeadamente Inglaterra, e isso é muito importante para nós".

De Bernardo Sassetti podemos esperar uma permanente inquietação, uma busca incessante por novas formas de articular os diversos campos artísticos onde se move. E uma atitude de realizador, no sentido em que planeia, estrutura e faz com que os projectos realmente aconteçam. Como planos para um futuro mais próximo, menciona "estudar piano, sempre", "escrever muito para orquestra" ("Estou a tentar fazer uma ligação saudável entre a música livre e a música escrita. Gosto muito da orquestra, tímbricamente é muito interessante, e estou a preparar dois grandes projectos, um dos quais vai ser apresentado em Junho no Castelo de São Jorge, também com imagem") e "fazer um livro de fotografia": "Tenho muita coisa já feita e acho que cada vez faz menos sentido deixar o trabalho na prateleira."