Crítica

Movimento perpétuo

Regresso de Bernardo Sassetti ao seu trio e ao puro jazz

Desde "Nocturno" (2002) que Bernardo Sassetti andava afastado do seu trio ou, por outras palavras, andava um pouco afastado do jazz. Hoje Sassetti já não é apenas um "jazzman", vê a música de forma mais ampla e, desde esse álbum, embarcou em diversas experiências, quase sempre com bons resultados, explorando fusões e encontros com outras formas e contextos - a solo ("Indigo") ou noutras companhias, como o seu Trio2 (arriscamos dizer que "Ascent" é a sua obra-prima até ao momento). Contudo, a base da sua música continua a ser o jazz, presente em todos os seus trabalhos de modo evidente. Neste novo disco, "Motion", essa ligação é mais assumida, e Sassetti retoma as actividades com o seu celebrado trio: Carlos Barretto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.

O disco arranca com "Homecoming Queen", belo tema do recentemente falecido Mark Linkous (Sparklehorse), aqui revisto com sentimento e delicadeza. Na segunda faixa, "Morning Circles", Sassetti explora um pianismo obsessivo, às voltas com o tema, como que procurando nele descobrir um qualquer significado oculto. "O Homem Que Diz Adeus", quarta faixa, é uma das suas mais belas composições, também favorecida pela elegância da interpretação do trio (curiosidade: é uma homenagem ao senhor João Manuel Serra, o homem que diz adeus aos automóveis no Saldanha, em Lisboa). Passando ainda por uma homenagem subversiva a Charlie Parker, com a reciclagem bebop de "Bird & Beyond", o disco encerra com uma revisão da "Cançó Nº 6" do catalão Federico Mompou, tema que consegue encaixar bem no espírito de todo o registo. Aliás, todo o álbum é caracterizado por uma constante coerência, funcionando como bem mais do que um simples conjunto de temas. Sim, é jazz, mas não se fica por aí, as referências externas fazem parte desta música, foram absorvidas e integram agora este corpo.

"Motion" poderá encontrar primos em segundo grau em alguns discos do catálogo ECM, nomeadamente naqueles mais paisagísticos que não se esquecem do poder da melodia. O piano de Sassetti vive num permanente estado de subtileza, onde cada nota é fruto de um reflectido cuidado, evitando quaisquer movimentos supérfluos. Mais um grande passo na carreira de um músico muito especial.