O princípio de ti

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Hoje a Maria João começa seis semanas de radioterapia diária no IPO. A meio de Maio poderá começar, graças a Deus e ao IPO, a esquecer-se, durante períodos de tempo cada vez mais longos, que estava na lista do cabrão do cancro e que, por enquanto, safou-se.

Na segunda-feira decidiu ir almoçar sem peruca. Tanto a ruiva como a morena eram giras. Mas o cabelo doido, curto mas crescente, quase loiro e encaracolado, que irrompeu desde o fim da quimioterapia, tem uma beleza e um vigor que vai além de Jean Seberg no À bout de souffle de Godard. Em 1960, oito anos antes de a Maria João ter nascido. Eu juro que o vejo crescer, em vórtices e tropismos, mesmo durante a hora-e-meia de um almoço. São filamentos vivos. São relâmpagos capilares. Toda a cabeça dela está, depois de incendiada e caída, em maluca reflorestação. Bem sei que, daqui a uma semana até, o cabelo vai crescer até deixar de ser avant-garde e passar a ser, apenas, uber-cool. Mas, neste momento das nossas vidas e do nosso amor, é grandioso e bom que o processo da morte tenha mudado de sentido e que o corpo e a cabeça e o cabelo cresçam como se acabassem de ter nascido.

O meu amor está agora - mas não por muito tempo - como a carinha de menina na fotografia que me salvou nas passagens por hospitais e que é a primeira e única maravilha que vejo no meu iPhone.

Não precisas de força, amada querida. O teu cabelo, pela segunda e última vez, é a segunda coisa mais bonita que eu já vi, a seguir a ti.

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