Radiografia de uma cidade romana debaixo dos nossos pés

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Reconstrução preliminar em 3D da porta sul de Ammaia: uma entrada ladeada por duas torres ligadas pelo Arco de Aramenha, que no século XVIII foi levado para Castelo de Vide e mais tarde foi destruído M. KLEIN 7 REASONS

"Ammaia, a das ruínas" chamava-lhe já no século IX o muladi Ibn Maruan. Ao longo dos séculos, a cidade romana junto à actual Marvão foi ficando cada vez mais em ruínas. A Fundação Cidade de Ammaia acaba de receber um prémio pelo trabalho de redescoberta que ali tem realizado - só a porta sul, o fórum e as termas foram escavados, mas novas tecnologias permitem radiografar o solo e "ver" toda a cidade sobre a qual passeamos. Por Alexandra Prado Coelho

São Salvador de Aramenha, a meio caminho entre Portalegre e Marvão. À nossa frente estende-se um terreno coberto de erva e árvores. Olhamos em volta e nada de especial parece sobressair. Mas é preciso saber o que pisamos. Debaixo dos nossos pés está toda uma cidade romana. Ammaia.

Como pontinhas de um icebergue, irrompem à superfície alguns vestígios: a porta sul, por onde no passado muitos visitantes terão entrado na cidade; as termas públicas; o que resta das paredes do enorme fórum. Tudo o resto - casas, ruas, edifícios públicos - permanece enterrado. Mas isso não significa que não saibamos que está lá.

As técnicas geofísicas (geo-radar, magnetómetro e resistividade eléctrica) utilizadas em Ammaia permitiram já fazer uma radiografia do terreno, até três metros de profundidade, e descobrir o que durante séculos se escondeu debaixo de uma insuspeita propriedade agrícola. E aqui existem condições raras: ao contrário do que aconteceu em muitas outras cidades romanas, nada mais se construiu por cima de Ammaia. Quando a cidade morreu, apenas a terra a cobriu.

É este trabalho de redescoberta de um passado esquecido que acaba de merecer à Fundação Cidade de Ammaia, presidida pelo ex-governador de Macau Carlos Melancia, o Prémio Vilalva (50 mil euros), que a Fundação Calouste Gulbenkian atribui anualmente a projectos de valorização do património. O júri destaca a "grande relevância histórica, patrimonial e técnico-científica do projecto de recuperação e valorização de um sítio arqueológico ímpar no panorama nacional" (é Património Nacional desde 1949, mas a Fundação Cidade de Ammaia só existe desde 1994, altura em que adquiriu os terrenos e iniciou os trabalhos de escavação).

A coordenação científica do projecto é da responsabilidade da Universidade de Évora, que contratou dois professores, o belga Frank Vermeulen e a italiana Cristina Corsi, para trabalhar com os arqueólogos portugueses Joaquim Carvalho e Sofia Borges.

A "pedreira dos bispos"

Sempre se soube que ali tinha existido uma cidade romana. Ao longo do tempo, a população local habituou-se a ir à zona buscar pedras, usando-as para a decoração das suas casas. "Está a ver esta?", pergunta Joaquim Carvalho, que nos guia numa visita ao museu, apontando para uma pedra que tem uma metade gravada com letras e outra completamente lisa. "Foi usada como degrau de uma escada. Tem uma inscrição que nos fala do Génio, e o génio protector era referido normalmente nos inícios da fundação de uma localidade."

Foi assim que durante anos os pés dos habitantes da Quinta do Deão subiram os degraus apagando as palavras escritas pelos antepassados romanos (julga-se que a cidade de Ammaia terá surgido no século I a.C. e terá entrado em declínio e acabado por desaparecer por volta do século VI d.C., tendo tido o seu apogeu no século II).

À medida que desmontavam as estruturas da velha quinta, para adaptar a casa-mãe ao actual museu, os arqueólogos da Fundação Ammaia iam descobrindo mais coisas: as colunas e fustes que ainda hoje seguram a lareira, moedas escondidas, placas com inscrições a fazer de degraus, potes gigantes para guardar azeite enterrados no chão. Há ainda uma colecção de vidros romanos considerada excepcional mas que neste momento se encontra no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa - e que a fundação espera poder voltar a mostrar em Ammaia depois de um acordo com o museu.

"Desde o século XVI que Ammaia era chamada "a pedreira dos bispos"", conta Joaquim Carvalho. Muitos dos mosteiros construídos na zona têm pedras levadas daqui. Uma delas, descoberta na Igreja do Espírito Santo, em Portalegre, referia Ammaia, e isso levou a que durante muito tempo se tivesse pensado que esta era em Portalegre. Foi só em 1935 que o arqueólogo José Leite de Vasconcelos (fundador do MNA) e o coleccionador António Maçãs encontraram em São Salvador de Aramenha uma inscrição que falava na civitas ammaiensis, o que permitiu estabelecer a localização exacta da cidade.

Por essa altura já muita coisa tinha desaparecido. Sabe-se, por exemplo, por um historiador espanhol que passou pela região em 1852, que mais de 20 estátuas romanas terão sido levadas para Inglaterra. A Fundação Ammaia estabeleceu já contactos com instituições museológicas inglesas para saber onde podem ter ido parar as esculturas, mas até agora sem resultados.

Resta apenas uma, que pode ser vista no museu. "Curiosamente", diz Joaquim Carvalho, sorrindo, "a única estátua que ficou foi a de Britanicus". E mesmo essa teve uma história atribulada. "Foi o escritor José Régio que a encontrou numa quinta perto daqui, a servir de frontão numa fonte, e pensou que se tratava de um bispo", conta o arqueólogo em frente do tronco envolto numa túnica, sem cabeça e sem mãos. Limpa da cal que a cobria, concluiu-se que representava Britanicus, irmão de Nero. "Possivelmente depois de Nero o ter mandado matar, a estátua serviu para representar outros. Quando não têm cabeça ou braços, significa que eram reutilizadas."

E assim Ammaia desapareceu aos olhos dos habitantes da região mas foi-se infiltrando, sem eles darem bem conta disso, nas suas vidas, nas suas casas. Só agora começa a ser possível perceber a dimensão e importância que a cidade teve no seu tempo. Data do século IX uma referência do muladi Ibn Maruan a "Ammaia, a das ruínas", o que parece indicar que por essa altura a cidade já estava desabitada.

Antes disso seria, segundo Joaquim Carvalho, "tão importante, tanto a nível de população como a nível político, como Évora ou Conímbriga". É possível que ali vivessem cinco mil pessoas, numa área que os arqueólogos calculam entre os 25 e os 30 hectares, e que se supõe que fosse muito rica em minério, nomeadamente ouro. Os métodos geofísicos ajudam a imaginar como era a cidade. Permitem perceber o desenho das ruas, os edifícios, ver que era geometricamente desenhada, com quarteirões, permitem detectar, por exemplo, as colunas do templo que ainda resistem debaixo de terra.

Uma sala de jogo na torre?

Mas só as escavações - as que foram feitas até agora em três locais e as futuras - é que dão informação sobre a vida das pessoas. Um pequeno dado de jogar, em osso, foi encontrado numa das torres da porta sul, no mesmo local onde foram também encontradas muitas moedas - será que os guardas transformavam a torre numa sala de jogo informal para matar o tédio? "Só escavámos três por cento da área total e já encontrámos 2600 moedas", conta o arqueólogo.

A zona da porta sul é a que mais nos ajuda a imaginar a antiga Ammaia. Duas estruturas circulares marcam o sítio das antigas torres que ladeavam a porta e que estavam ligadas à muralha. Sabe-se que sobre as torres havia um arco, o Arco de Aramenha, que no início do século XVIII foi levado para Castelo de Vide e colocado numa rua, acabando mais tarde por ser destruído. Passando as torres, entramos numa praça pavimentada com blocos de granito e à nossa frente estende-se aquilo que foi o Kardo Maximus, uma das principais ruas da cidade, que conduz ao fórum.

Mas hoje já não conseguimos percorrer as antigas ruas e temos que seguir pelas ervas, por entre os castanheiros, até encontrarmos à nossa esquerda as ruínas das termas, e continuarmos até deparar com uma vedação. E para lá da vedação uma estrada. A Estrada Nacional n.º 359 "rasgou" a antiga Ammaia, cortando uma parte das termas, e ainda um canto do fórum. Para vermos o local onde este se ergueu, temos então que passar por baixo da vedação e atravessar a estrada. Aqui ficava o enorme centro administrativo, religioso e judicial da cidade, rodeado por 20 lojas, e ainda o templo, onde os ammaienses iam prestar culto às divindades.

Um pouco mais longe ficaria o teatro e o anfiteatro, acreditam os arqueólogos. "Ainda não escavámos aí, mas temos um conhecimento do terreno porque fazemos prospecção a pé e verificámos a existência de vestígios no solo, e porque temos fotografias aéreas dos anos 50, uma delas feita pela aviação americana, que nos mostram nesse local algumas estruturas arqueológicas que ainda não tinham sido completamente destruídas", explica o arqueólogo português.

Só conseguimos perceber como seria exactamente o que hoje se esconde debaixo da terra quando, mais tarde, vemos no computador de Joaquim Carvalho as imagens criadas pelo projecto Radio Past (www2.radiopast.eu) e que deverão ser disponibilizadas no local, em quiosques multimédia, com filmes e modulações 3D, durante 2011 e 2012. É então que à nossa frente aparecem as torres redondas onde os soldados jogavam com o dado de osso enquanto vigiavam quem chegava, a entrada, o pátio coberto de lajes e ladeado por colunas; e também o fórum, com o templo no centro, as lojas à volta. Ammaia, "a das ruínas", de regresso à vida.