Uma noite nos Óscares

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Melhor filme e melhor realizador? "The Hurt Locker" e Kathryn Bigelow. Talvez uma surpresa. Não cheguei a vê-lo, mas consola-me a imagem do James Cameron a chegar a casa como o Michael J. Fox. De mãos a abanar.

No início era o verbo. E o verbo foi sobrevalorizar.
Sobrevalorizar é o acto de atribuir importância ou valor exagerado ou fora do normal. Foi este verbo que me levou à redacção do Ípsilon e a convencer o meu chefe que consigo trabalhar de olhos fechados.
Quase tudo está sujeito a ser sobrevalorizado. Basta querer. Sou bom a sobrevalorizar, a estacionar em paralelo, a não deixar que o arroz de manteiga cole ao tacho, a escolher tempos exactos para aquecer sopa no microondas. Sobrevalorizo melhor de manhã. Às vezes de tarde. Mas até o próprio acto de sobrevalorizar já começa a estar sobrevalorizado.

A utilidade prática é enorme. Em conversas ou discussões sem sentido que provocam um desgaste acelerado da cútis e a perda de elasticidade da pele na parte inferior do braço. Qual é a maior banda de rock? Beatles? Rolling Stones? Para mim são as duas bandas mais sobrevalorizadas da história. Entra-se num loop metafísico, ninguém contrapõe e pode-se pedir mais uma rodada e falar sobre assuntos insípidos e que exijam esforço e concentração residuais. É a estados destes que almejo. A isso e a um copo de cerveja sem fundo. Projecções de pensamento que não vão além de figuras geométricas com cores primárias em fundos monocromáticos e, quando muito, em movimentos rectilíneos e uniformes. Com facilidade, posso dizer que o Lou Reed é sobrevalorizado. O Bob Dylan é sobrevalorizado, os Hot Chip, o Steven Spielberg, o molho dos bifes do Império, o José Luís Peixoto, o cinema expressionista alemão, os Radiohead, a poesia espanhola do pós-guerra, aquele tipo de barba demasiado espessa que agora escreve e assina os livros com letra minúscula, os Óscares. Sim, os Óscares. Aqueles objectos com 35 cm de altura cuja cerimónia de entrega passa a correr pelas categorias menores com discursos de 45 segundos exactos e se prolonga para discursos de um minuto e meio onde, alguns, mereciam o Óscar só pelos emoção com que os recebem e a momentos musicais a lembrar performances de dança da Gulbenkian, sem o celofane e o Centro de Arte Moderna. São a maneira que a Academia descobriu de se abraçar a si própria. De dar a si própria uma pancadinha nas costas enquanto diz "tu és boa, miúda, tu és boa". São prémios da indústria para a indústria. Que premeiam o negócio, não o cinema.

Apesar de os Óscares serem mais previsíveis que um disco dos National, mais aborrecidos que a discografia inteira do John Cale e mais soporíferos que a filmografia do Godard, continuamos a vê-los. Ano após ano. Piada sobre judeus após piada sobre judeus. Óscar mal entregue após Óscar mal entregue.
Este ano não tinha favoritos. Que o Colin Firth e o Jeff Bridges rachassem um Óscar chegava-me para ir para casa feliz. Mas esse já era esperado.
O passo em direcção ao descrédito estava para vir. Sustive a respiração. "É agora". E foi. Óscar de melhor actriz. Por um lado, parece-me que foi a maneira da Academia nos fazer apreciar as pequenas coisas da vida. Como o talento da Sandra Bullock. De dizer "pronto, pronto, isso passa". De nos fazer ver que há sempre esperança, que há-de haver sempre alguém que gosta de nós, que depois da chuva vem sempre o sol, que vai tudo correr bem. O próprio Luís Represas já reuniu os Trovante. Ainda esperei que lhe tirassem o Óscar da mão e lhe dissessem "achas mesmo, pequenina? Vai-te lá sentar que agora é que vai ser a sério" e entregassem o Óscar à Gabourey Sidibe. Mas não. Era mesmo ela. O choque tinha começado antes.

O filme "A Single Man" ausente das categorias de melhor filme e realização. Os Coen e o inenarrável "A Serious Man". Um filme tão fraco que perderia comigo no braço-de-ferro. E eu sei do que falo. Os meus músculos têm a densidade de um filme do António-Pedro Vasconcelos.
Melhor filme e melhor realizador? "The Hurt Locker" e Kathryn Bigelow. Talvez uma surpresa. Não cheguei a vê-lo, mas consola-me a imagem do James Cameron a chegar a casa como o Michael J. Fox. De mãos a abanar.

*Leitor convidado que integra a comunidade do Ípsilon no Facebook