Purismo não, génio sim

Ao contrário do que é corrente afirmar, este quarteto de nativos de terras de Miranda não é purista, por mais que a preservação da cultura mirandesa seja subjacente ao trabalho de grupo
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Ao contrário do que é corrente afirmar, este quarteto de nativos de terras de Miranda não é purista, por mais que a preservação da cultura mirandesa seja subjacente ao trabalho de grupo

"Senhor Galandum", o terceiro disco dos Galandum Galundaina, encerra as dúvidas: estamos na presença de um tremendo grupo. Há menos gaitas e mais canções, a tradição suavemente deturpada, Arábias e Leão de mãos dadas. Obra-prima.

Faz agora cinco anos que caiu uma bomba na redacção deste jornal: chamava-se "Modas i Anzonas" e era o segundo disco de uns tais Galandum Galundaina.

Ao contrário do que é habitual, o disco tinha fonte incógnita: não havia "press-release" - português contemporâneo para "comunicado de imprensa" - a anunciar com pompa e circunstância a epifania, não havia CD-R com fotos de estúdio, muito menos uma história dos sujeitos por trás do disco que os rodeasse de mistério.

Havia, tão-só, música - coisa estranhíssima na indústria. E no entanto, que música: gaitas-de-foles ao alto, poderosíssimas, vozes aparentemente saídas do fim do mundo e uma data de melodias que não ouvíamos desde que deixámos de acompanhar a vó Arminda na desfolhada (sempre um momento de revelação para as criancinhas, que aí descobrem o grau do veneno da língua das mulheres).

O impacto que nos causou podia medir-se nas palavras que usámos para título: "Música Colossal Portuguesa". Cinco anos mais tarde quase apetece repetir a expressão a propósito de "Senhor Galandum", o terceiro e recém-editado disco dos Galundaina, mas uma palavra torna-se um empecilho: "portuguesa". É que se a música dos Galandum é mirandesa, é impossível traçar com exactidão a raiz destas melodias e destes instrumentos. O que, tendo em conta as cuidadas miscigenações que os Galundaina promovem em "Senhor Galandum", torna o disco numa coisa bastarda, mas viva, como se o passado estivesse a acontecer amanhã.
É aqui que começam os equívocos à volta dos Galandum: ao contrário do que é corrente afirmar, este quarteto de nativos de terras de Miranda não é purista, por mais que a preservação da cultura mirandesa seja subjacente ao trabalho do grupo.

E é aqui que começa uma espécie de tese que passamos a defender: a grandeza desta música vem de um conjunto de circunstâncias ímpar. O facto de os quatro elementos que compõem o grupo terem um conhecimento raro não só das canções antigas de Miranda como da sua cultura une-se à parca vontade que têm de serem meros reprodutores; simultaneamente não querem mexer só por mexer, o que equivale a dizer que fazem apenas pequenos enxertos aqui e ali, o suficiente para retirar "Senhor Galandum" do mundo dos mortos e colocá-lo no panteão das obras-primas.

Passemos às explicações.

É certo que os Galandum tiveram, nos seus dois discos anteriores, um papel vital na preservação da gaita mirandesa, mas, como eles próprios assumem, não há nada de reaccionário nessa atitude.

"O que fizemos foi padronizar a gaita mirandesa, porque a gaita mirandesa é um instrumento destemperado. Há um padrão normal em todos os instrumentos, um padrão de frequência, e a gaita tem a escala destemperada. Para dar um exemplo: a nota Mi da gaita não tem a mesma frequência da nota Mi do piano. Esse destempero, por outro lado, dá um certo cheiro a terra ao instrumento", explica Paulo Preto, o único dos Galandum que não nasceu na família Meirinhos - os restantes, Alexandre, Manuel e Paulo Meirinhos, são irmãos.

Os instrumentos que usam também são re-criados por eles: as rabecas, as sanfonas, as percussões como a caixa de guerra (que é uma caixa de rufo), o bombo, as pandeiretas, os pandeiros, as castanholas e as tracanhuolas, "dois paus que batem um no outro de acordo com uma técnica especial e antiga de tocar só com uma mão", tudo isto é desenhado por eles e adaptado aos "novos tempos", por assim dizer.
É isso que faz dos Galandum um caso incomum: têm o conhecimento de como se fazia, ou de como se podia fazer, e, dominada essa matéria, recriam e introduzem elementos estranhos ao corpo tradicional - da mesma forma que a tradição antes de ser tradição foi qualquer coisa bastarda.

Note-se o trabalho de recolha, aposta forte de "Senhor Galandum": eles fazem as recolhas de uma forma mais leve do que a palavra "recolha" pressupõe: "Fazemos recolha todos os dias, sempre que encontramos alguém que conheça canções, por norma alguém com uma certa idade e vivência de música de serão, de juntar à lareira ou nas ceifas. Pedimos sempre que nos ensinem novas canções", diz Paulo Preto.

Isto significa que esta música, por muito que roube ao passado, só podia ter sido feita hoje, é feita para hoje. Não somos nós que o dizemos - são eles.

"Muita gente faz música de recolha. São esses os verdadeiros puristas. Mas nós não somos. O nosso primeiro disco, 'L Pumeiro' [2001] é de música purista, mas nós não queremos fazer mais isso", diz Paulo Preto. O intento dos Galandum é outro: "Pegamos num tema pela origem, exploramo-la e depois mudamo-la", com um simples objectivo que Paulo Preto não tem pudor de dar a conhecer: "Ser ouvido pelo maior número de pessoas possível."

Isto é mais importante do que parece, porque a defesa e o ataque dos Galandum tem estado confinado a erros crassos de leitura: há quem os defenda por serem "autênticos", há quem os defenda e quem os ataque por serem "puristas" e quem ouça ali apenas passado, coisa horrível para os intelectuais que identificam as páginas antigas do calendário com a ditadura.

A questão do purismo está arrumada. A da autenticidade pode ser resumida numa frase lapidar de Paulo Preto: "Eu mamei a música tradicional."

O pai de Preto era pauliteiro, enquanto o avô dos irmãos Meirinhos "era caixeiro [tocador de caixa, instrumento de percussão] num grupo muito importante de Miranda, o Grupo de Pauliteiros e Dançadeiras de Duas Igrejas". O grupo representava a cultura mirandesa e "andou pelo mundo inteiro". Portanto, não foi como se tivessem "acordado um dia e de repente" lhes "apetecesse andar a pegar em gaitas": eles cresceram com aquilo.

Mas a grandeza dos Galandum não é apenas explicável pelo currículo paternal: estas canções têm uma tradição, um género, uma origem, representam papéis sociais, têm códigos, não são apenas perceptíveis por herança. Há uma imagem que Paulo Preto usa para explicar a que ponto eles, todos nativos de Miranda, conhecem este universo: "Eu tenho 44 anos e costumo dizer que nasci na Idade Média."

Isto porque quando Paulo nasceu "as pessoas ainda faziam a agricultura como na Idade Média". Falava-se "exclusivamente em mirandês e o gaiteiro, nas festas, era uma figura muito presente e respeitada". O pai de Paulo Preto "era professor", a sua casa "tinha condições", mas os vizinhos "não tinham luz eléctrica nem televisão". Eles cresceram "no limite da gente velha", da gente que "ainda conhece e viveu estas canções".

Era esse "conhecimento" na pele que se sentia em "Modas i Anzonas", um disco em que a gaita era rainha.

A caixa de Pandora

Explicado o "modus operandi" dos Galandum e a sua extrema intimidade com a matéria-prima, falta olhar para "Senhor Galandum", disco que dá a volta às expectativas criadas em torno de "Modas i Anzonas".

Resumidamente, a gaita perde lugar, outros instrumentos chegam à frente e sobressaem as vozes, as canções, no sentido de coisa acabada, cantarolável. Os géneros destas canções são "sempre os mesmos", diz Paulo Preto, mas estão mais presentes do que no disco anterior: há "músicas de embalar, para crianças"; "músicas de trabalho"; "músicas brejeiras", como o "Fraile Cornudo", que "é também uma dança de roda, uma canção de baile, de parelha homem-mulher", como o "Sr Galandum", que "tem uma coreografia específica; e baladas, como "L cura está malo", a história verdadeira de "um cura que namorava uma criada e fez-lhe um garotico". São canções de crítica social que tanto podiam estar na "Maria Moisés" de Camilo Castelo Branco como nos contos do magnífico João de Araújo Correia.

As gaitas ainda existem mas estão menos proeminentes, decisão "propositada" porque "o trabalho de recolha das gaitas já foi mais que feito". Os Galandum sentiram que "já não se corria o risco de perder essa sonoridade", por isso foram-se "dedicando mais às cantigas, em particular à dicção da língua mirandesa e às harmonias".

"O que aqui, nesta terra, é rico, é o ritmo e as harmonias. Podemos adaptar as melodias para timbres que são confortáveis ao nosso tom. É o trabalho pós-recolha, mais complexo: a melodia é a mesma da recolha, mas mais definida do que a que recolhemos aos velhinhos, porque antigamente cada pessoa, quando cantava, adaptava a canção à sua voz, improvisava - não havia noção de tom, eles sabiam lá o que era isso."

Além disso, perante a opção de diminuir o volume das gaitas para não se repetirem, também sentiram uma certa necessidade de "encontrar novos timbres" para "alargar a [nossa] música". Foi nessa altura que Paulo Meirinhos "começou a construir rabecas, uma espécie de violinos antigos", e que os Galandum descobriram que "as rabecas ligavam muito bem com as sanfonas e as flautas". Paulo Preto tem uma expressão para as experiências que fizeram com instrumentos: "Fomos descobrindo casamentos novos."

Um dos instrumentos mais inusitados em "Senhor Galandum", disco ainda mais rico e variado que "Modas i Anzonas", é o bouzouki, "que é uma espécie de alaúde" e não faz parte da música mirandesa de forma alguma. (Lá se vai o purismo e a cartilha que alguns gostam de colar a projectos como os Galandum.) Usaram-no porque ouviram o instrumento "em discos espanhóis" e concluíram que "dá muito ritmo". Trouxeram Luís Peixoto dos Dazkarieh, que o toca, e o instrumento anda lá sempre a fazer "harmonias muito intensas". Pelo meio recuperam uma data de instrumentos como a dulçaina (uma ponteira de gaita), as charracas (conchas de Santiago) e mesmo um instrumento húngaro, o "kaval", que é uma flauta, entre muitos outros. E ainda cantam coros de crianças e a mãe, a tia dos manos Meirinhos.

Mais instrumentos trazem mais variedade mas também mais confusão etnológica: há melodias que parecem árabes, cantares que parecem alentejanos, e fica-se sem saber se isto é de Miranda, se isto é português, de onde vem e para onde é que vai.

Árabe é de certeza, diz Paulo Preto: "Os árabes estiveram cá muitos anos, pá. Escuta: prefiro dizer que a nossa música tem mais influência árabe que celta. Música celta não sei o que é. A nossa música é galaico-portuguesa. Não me atrevo a atribuir raízes, porque andámos por todo o lado, mas isto é música de Leão, Andaluzia, Algarve e Alentejo [em termos vocais]."

E é então que põe dois exemplos que nos dão a dimensão da confusão que é traçar as origens desta música no seu estado "puro" (uma utopia) quanto mais no seu estado-Galandum: "Quanta gente saiu do país e levou e trouxe cantigas?", pergunta primeiro. Depois acrescenta: "Dou um exemplo. O povo de Miranda é agricultor. O cereal semeava-se um mês depois de ser semeado no Alentejo, por isso os agricultores iam ceifar ao Alentejo e depois vinham para cima e alguns alentejanos com eles. Pergunto: o que não se arrastou em termos de música e gastronomia nessas migrações?"

É talvez esse o segredo da riqueza e beleza da música dos Galandum: ao chegarem à raiz da música tradicional encontram tantas raízes que não têm outra saída senão reconfigurá-la.

Paulo não concorda, diz que o segredo é outro: "O nosso segredo é serem três irmãos e eu, que somos amigos de infância." Todos, não por acaso, professores de Música e fazedores de "música colossal" que um dia passou por Portugal.