A segunda vida dos artistas portugueses em Berlim

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Primeiro: a fase de descoberta individual. Agora: a fase de criação de estruturas. Em Berlim, o Rosalux dedicada 90 por cento da sua programação à jovem arte portuguesa. Um trampolim

Sete da tarde em Berlim. Noite cerrada há que tempos. Dedos e nariz gelados a avançar contra uma brisa fininha mas glaciar.

A pé, de Rosenthaler Platz, a estação de metro mais próxima, são menos de cinco minutos.

Estamos em Mitte, o centro da antiga Berlim-Leste - a que ficou do lado de lá da cortina de ferro.

Até há dez anos, e já com uma década volvida sobre a queda do muro, esta zona era quase nada, um bairro maioritariamente residencial, uns quantos prédios recuperados entre fachadas ainda em guerra, paredes "grafitadas" e zonas comerciais devolutas. Entretanto, aconteceu o que em geral acontece nas capitais tornadas centro nevrálgico das culturas urbanas de vanguarda: artistas e criativos de todos os tipos começaram a aproveitar as rendas baixas e a instalar-se. Foi assim que, a partir de 2004, 2005, a Brunnenstrasse se tornou numa espécie de "hot spot" para jovens ou pequenas galerias de arte - é lá que fica, por exemplo, a Invaliden 1, gerida por seis artistas estrangeiros residentes na cidade, entre os quais os portugueses Rui Calçada bastos e Noé Sendas. 

O actual espaço do projecto Rosalux fica ao virar da esquina, ligeiramente afastado, na Strelitzer Strasse. Por falar em portugueses: um projecto criado e gerido por um português e especialmente dedicado à divulgação internacional de artistas portugueses a partir da capital alemã, hoje, o equivalente à Paris do princípio do século XX, à Londres nos anos 1960 ou à Nova Iorque nos anos 1970 e 1980.

Quem, em Lisboa, tenha acompanhado as primeiras exposições do colectivo Autores em Movimento, formado por antigos alunos da Escola Superior de Belas Artes como Paulo Carmona, Tiago Baptista, Alexandre Estrela e Pedro Cabral Santo - por exemplo, a colectiva "Jetlag", em 1996, na Reitoria da Universidade de Lisboa - poderá reconhecer o nome: Tiny Domingos. Foi um dos artistas participantes, na altura a viver já em Berlim.

Primeiro contacto com a cidade em Janeiro de 1990, bem antes da grande leva - uma quase avalanche - de artistas portugueses na cidade, um fenómeno em grande parte iniciado pela bolsa oferecida pela Fundação Calouste Gulbenkian para a residência artística da Künstlerhaus Bethanien a partir de 1999.

Uma imagem: Unter den Linden, a principal avenida da Berlim-Leste - hoje uma das zonas mais caras -, sob a bruma cinza-castanho das cidades comunistas, sem hotéis nem lojas de marca ou publicidade, militares por todo o lado em volta do muro.

"Inesquecível", diz-nos Tiny Domingos, porém, outro mundo. Aquele em que Prenzlauer Berg, um dos mais movimentados bairros boémios da cidade, tinha cinco cafés. São às dezenas, hoje, na Berlim feita trampolim, plataforma privilegiada de divulgação artística para o mundo - precisamente a característica que o projecto Rosalux pretende aproveitar para a jovem arte portuguesa.

"Maior visibilidade: em última instância é o que um artista também procura e deseja sempre", diz-nos a dada altura Rui Mourão (n. 1977), o artista que actualmente expõe no espaço.

Aluno da Maumaus entre 2005 e 2007 e da Art Academy da Lunds Universitet de Malmo, Suécia, entre 2007 e 2008, para ele esta é uma mostra individual importante, no sentido em lhe permite mostrar todo o seu trabalho em vídeo até hoje (15 trabalhos).

O Rosalux não tem o "white cube" de uma galeria mais convencional - neste momento ocupa uma pequena cave. Não tem sequer uma grande área, que permita a montagem simultânea de muitas obras (Rui Mourão optou por uma grande projecção em que passa em sequência a maioria dos seus trabalhos; apenas uma instalação individual no interior e uma a aproveitar uma das janelas viradas para a rua). Mas, depois de três anos de actividade regular em fase experimental, este é um projecto à procura de uma maior profissionalização e as suas iniciativas começam a dar frutos para os artistas. Por exemplo, para a dupla Sara & André.

Actualmente representados pela galeria 3+1 Arte Contemporânea, este colectivo de dois expôs com o Rosalux entre Setembro e Outubro de 2007. A partir dessa mostra teve um convite para a Austrália, um projecto homólogo ao Rosalux sedeado na Tasmânia, mas com possibilidades de extensão em Sidney ou Melbourne - custos (de viagem, transporte de obras, etc...) a cargo do governo australiano.

"É difícil chamar a atenção do público numa cidade com 400 galerias e 600 espaços onde se podem ver exposições, 60 inaugurações simultâneas, nalgumas noites, mas acho que, depois de três anos muito cheios, conseguimos inscrever o Rosalux em Berlim. Fomos seleccionados como um dos sete espaço da cidade pelo 'Tages Spiegel'", diz-nos Tiny Domingo, que, no fundo, não só gere como financia o projecto, incluindo um pequeno espaço habitacional adjacente que permite oferecer projectos de residência.

Depois de exposições de jovens artistas como João Pombeiro (Galeria Paulo Amaro), Rita Castro Neves (Reflexos), Miguel Bonneville (3+1) e João Galrão (Graça Brandão) e com projectos a desenvolver futuramente com artistas mais afirmados como João Tabarra e Miguel Soares (ambos Graça Brandão), Tiny Domingos vai agora começar a procurar apoios junto de entidades portuguesas.

"O público de Berlim não vai a correr comprar arte portuguesa", reconhece Tiny Domingos. Não é de mercado que se trata em Berlim, uma cidade em permanente crise financeira. Berlim oferece visibilidade. "É uma plataforma internacional para arte emergente onde a bolsa para o Künstlerhaus Bethanien é fantástica, mas representa um artista por ano. Este projecto é diferente: no fundo aproveita o que cidade tem para oferecer: espaços e contacto com uma grande comunidade artística. Eu tenho facilidade em, a partir daqui, estabelecer contactos com vários países. Mas é preciso procurar soluções [de viabilidade financeira]."

Soluções pois. Para 2010, e à medida que, devido à crise, muitas galerias da Brunnenstrasse começam a fechar ou a procurar vias alternativas de rentabilização dos seus espaços (abertura de pequenos bares e cafés, por exemplo), a Invaliden 1, em actividade há cinco anos, conseguiu um apoio: 12 mil euros para a programação deste ano oferecidos pelo governo espanhol através de um fundo dedicado a projectos a desenvolver tanto dentro como fora de fronteiras nacionais.

Quatro dos seis artistas responsáveis por este espaço são espanhóis - foi assim que surgiu o apoio. "Não me parece que em Portugal haja - ou pelo menos eu não conheço - um tipo de apoio semelhante. Normalmente, são para território nacional", diz Noé Sendas, actualmente a desenvolver em Lisboa um projecto de residência com a Re.Al, do coreógrafo João Fiadeiro.

Não é o único apoio que este projecto tem de Espanha: através da embaixada, de cada vez que um artista espanhol expõe na galeria, esta recebe 700 euros de apoio à produção e divulgação da mostra e ainda apoio logístico para a inauguração.

Actualmente a Invaliden tem uma exposição de Ming Wong, o artista que representou Singapura na última edição da Bienal de Veneza, a mais importante e antiga bienal internacional de artes plásticas. Os artistas responsáveis pelo espaço expõe a sua própria obra na Invaliden ao ritmo habitual de galerias comerciais: de dois em dois anos. A selecção de outros artistas é feita por voto colectivo. Um dos próximos a expor - um português consagrado: Pedro Cabrita Reis, em Outubro.

"De alguma forma, os últimos cinco anos começam a dar os seus resultados", diz-nos Rui Calçada Bastos a partir de Macau, onde está também com um projecto de residência. Os efeitos colaterais de cada mostra "dependem imenso do trabalho apresentado", claro, "mas [as exposições] têm aberto portas para muitas coisas", explica ainda. "A Invaliden é espaço que não está comprometido com nada, por isso os artistas podem arriscar. Quando são bem sucedidos acabam por ter consequências positivas. Por exemplo, artistas que pouco vendiam em Berlim, de repente, ganham um ou dois coleccionadores fiéis." Há também, explica ainda Calçada Bastos, "galerias em Inglaterra e Espanha a quererem fazer intercâmbios com a Invaliden".

Ao mencionar os inúmeros críticos e comissários internacionais que frequentam a cena alternativa da cidade, Calçada Bastos recorda o que dizia o presidente da câmara local: "Berlim é pobre mas sexy."

E Portugal, sabe aproveitar isso?