Crítica

Aí onde não há linguagem

"Ó" é Literatura. Grande Literatura, sem receio de maiúsculas ou hipérbole

A discussão sobre aquilo que "Ó" não é - não é romance, não é conto, não é poesia, não é ensaio -, parece preceder, no Brasil ou aqui, o esforço de definição daquilo que a obra é. Não vejo melhor maneira de enfrentar esta questão talvez inevitável do que dizer que "Ó" é Literatura. Grande Literatura, acrescente-se, sem receio de maiúsculas ou hipérbole. Mas apenas desde que hipérbole ou maiúsculas não contestem uma definição de literatura para a qual a teologia negativa oferece um método precioso de nomeação do irreconhecível: "literatura" seria, no espantoso texto de Nuno Ramos, aquilo para que não temos nome nem regra, esse discurso em que "se pode dizer tudo" e que, num certo sentido aqui preciso e precioso, "pode tudo". Ou seja, "literatura" é em Nuno Ramos um poderoso performativo e o que dele resulta é uma "coisa" literalmente monstruosa.

Um corpo monstruoso - o da "personagem" ou voz central que se deixa engordar para aumentar a sua "superfície de contacto com o mundo" (p. 38) - e, antes dele, uma matéria para a qual o texto se desdobra em nomes: névoa, goma, lama, excremento, placenta, etc. Por sobre este confronto do corpo com a matéria, Nuno Ramos desdobra os planos (e frases) sem fim de "Ó", planos em que uma câmara impiedosa varre toda a filogénese não apenas do ser humano mas da criação inteira, lá desde o fundo sem fundo da origem até à Humanidade sufocada que é a nossa. """ conta, à sua estranha maneira, uma história que é, em rigor, trágica (não desprovida, porém, de um riso feroz): a história do conflito entre o princípio de individuação e a sua dissolução na "enorme boneca russa" (p. 75) da matéria. Uma história assombrada pelos espectros de Nietzsche (""" podia chamar-se "O Nascimento da Tragédia") e de Darwin (o outro nome possível para a obra seria "Da Origem das Espécies"), aos quais abre as portas de par em par. De facto, se algo une todo o livro é a metodologia de abordagem dos seus tópicos, na aparência tão heterogéneos (heterogeneidade reforçada pela sintaxe dos títulos de cada capítulo: "Tocá-la, engordar, pássaros morto", cap. 3; "Recobrimento, lama-mãe, urgência e repetição, cachorros sonham?", cap. 12). Em quase todos, o método consiste numa regressão primordial que nos concede o privilégio (duvidoso) da origem, seguido do espectáculo ainda mais duvidoso do "progresso" da hominização.

O capítulo inicial, "Manchas na pele, linguagem", oferece o modelo do que se seguirá, a propósito da origem da linguagem. A linguagem é uma perda de contacto com o mundo - "Se fosse possível... estudar as árvores numa língua feita de árvores, a terra numa língua feita de terra..." (p. 15) - e institui um conflito entre "seres linguísticos e heróis mudos". O facto de estes terem sido derrotados não implica que os não reconheçamos: "Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza" (p. 19). Todo o livro é uma exasperada, por vezes elegantemente furibunda, por vezes elegíaca, digressão sobre os muitos rostos desta derrota. Isso explica a presença obsidiante do animal no livro - melhor, da diversidade do que se acolhe sob a designação "animal", e que vai da galinha ao pássaro, ao cão ou ao bode -, como ainda o tropismo com que o autor produz comparações animais ("delimitando assim, como os lobos quando urinam, nosso território", p. 97, entre tantas outras), numa espécie de etologia generalizada que não tem coisas simpáticas a dizer à tradição humanista. Entre o que se perdeu, e corporalmente esqueceu, algo do animal (de certos animais) parece poder funcionar, não tanto como paradigma mas como lição recuperável por proximidade. Como quando se diz "Há uma cidade dos cães sob a cidade dos homens" (p. 116). Ou quando se apresenta o bode como o animal que "acha o mundo estranho" (p. 154), sendo por isso o paradigma da ironia: "Muito tempo terá passado até que o mundo da ironia e do sarcasmo, espécie de desenvolvimento cultural daquilo que parece inato num bode, tenha se apresentado a nós" (pp. 154-5).

A proximidade entre seres vivos e mundo natural, ou entre seres humanos e animais, que passa, como vimos, por recuperar esse tempo em que "os homens só sabiam mugir" (p. 148) e os animais ensinavam a ironia aos vindouros, manifesta-se nos momentos talvez mais nietzschianos do texto: os extraordinários apólogos que rematam vários capítulos, como o dos "heróis mudos", no cap. 1; o das trincheiras, no cap. 11; o do canto, no cap. 16; ou o do bode ironista, no 17.Proximidade, contiguidade, dobra e desdobramento governam o mundo de """, como se explicita no capítulo 9, sobre a Natureza e a Civilização (ou a Natureza mecanizada pela Técnica) como "bonecas russas": "o facto de uma superfície aceitar a outra, deixando-se imprimir por ela. Todas as superfícies, num espaço de tempo mais largo, acabam confundindo-se, embrulhando-se, decompondo-se, gerando-se umas às outras" (pp. 77-78). A isto se chama a "digestão", "o grande alvoroço da matéria" (p. 78). Face a esta inumana digestão, os homens reagem, por medo, como "aquarelistas de um mundo cristalino e justo" (pp. 165-6). A Natureza, porém, desconhece tal aguarela. A sua assinatura é antes o desastre: "desastres são na verdade o que tem de mais íntimo e próprio, seu sono é um desastre, sua respiração é um desastre, sua gargalhada é um desastre, desestabilizando montanhas, secando rios, derrubando o gado no chão" (p. 159). A única estratégia de resistência ao triunfo da igualização do não-igual, na Natureza e no mundo da Técnica, é a que passa pelo "pequeno infinito da epifania" (p. 135), pela memória enquanto "atenção ao que parece único" (p. 136) e pela "deformação minuciosa dos pequenos detalhes da superfície do corpo" (p. 214). É aí, "atrás do vidro natural que me separa de tudo" (pp. 45-6), que pode nascer um "Ó": "então alguma coisa como canto sai de alguma coisa como boca, alguma coisa como um á, um ó, um ó enorme" (p. 45). Aí onde não há linguagem.