Toro Y Moi: dança sobre as ruínas da pop

Bundick elege como heróis Michael Jackson, Madonna, Elvis Costello, "muita new wave, nada muito obscuro", Madonna, Elvis Costello, "muita new wave, nada muito obscuro"
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Bundick elege como heróis Michael Jackson, Madonna, Elvis Costello, "muita new wave, nada muito obscuro", Madonna, Elvis Costello, "muita new wave, nada muito obscuro"

Chaz Bundick pega em canções pop e faz algo de novo e alinhado com o espírito do tempo. "Causers of This", o seu novo disco, sintetiza algumas das tendências centrais da actual música indie.

No seu blogue, Poor and Lonely, Chaz Bundick vai colocando fotografias dos amigos, nas mais variadas circunstâncias. Bebem cerveja, dormem, andam de bicicleta, deitam-se na relva, fitam a máquina fotográfica, vêem o tempo passar. Fazem o que ele, Dundick, também faz para ocupar o tempo. Não há qualquer "glamour" de estrela pop, qualquer fosso entre o artista e o ouvinte: Bundick, 23 anos, músico, fotógrafo e designer gráfico, é um tipo normal. Mas foi também um dos nomes mais citados na blogosfera em 2009, enquanto Toro Y Moi.

A memória de tempos mais simples (a infância, o Verão, o surf, as tardes passadas a ver televisão), evocada pelas fotos cheias de grão e pelas canções de Bundick, é uma das narrativas dominantes no actual cenário indie - artistas como Memory Tapes, Neon Indian e Ducktails não têm feito outra coisa. "São canções muito terra-a-terra sobre pessoas com quem costumo falar. Por vezes, gosto de ir às minhas fotos buscar ideias para as letras", confessa, ao telefone, a partir de Columbia, no estado da Carolina do Sul, EUA. "Fartei-me de fazer referências metafóricas e de ser poético nas letras. E comecei a cantar da forma que falo. Por vezes, gravava directo, sem ter as letras escritas, só para me ajudar a ter uma ideia do assunto que queria falar".

Este lote de artistas (que mereceram rótulos exóticos como "chillwave" ou "hypnagogic pop") são, salvo raras excepções (como o mais obscuro James Ferraro), artistas totalmente adaptados aos tempos modernos, em que blogues de mp3 como o Stereogum são tão ou mais influentes que uma revista de música. Porém, interessam-se pela pop de outros tempos, mesmo a mais duvidosa, e fazem o culto de objectos obsoletos como as cassetes.

O burburinho do ano passado (Kanye West chegou a elogiá-lo no seu blogue) desenrolou-se sem que Bundick tivesse um álbum (chega agora e chama-se "Causers of This"). Meia mentira: já tinha lançado vários registos, em CD-R ou cassetes, que distribuía pelos amigos. "Nem lhes chamava álbuns. Fazia 12 canções e punha-as num CD. Foi com 'Causers of This' que tentei fazer um álbum. E foi um dos maiores desafios que tive ao fazer música: como se escreve um disco que tenha transições, diferentes estados de espírito? Mas foi divertido e aprendi muito", diz.

Em 2009, não havia álbum de Toro Y Moi, mas já não espanta que um artista faça o seu caminho sem essa entidade tão século XX chamada "álbum". "Tive a ideia de mandar mp3 para alguns blogues que seguia. Quando vi que funcionava, avisei os meus amigos, como o Ernest [Greene, Washed Out] e, de repente, ele estava nos mesmos blogues."

Fantasmas

A música de Toro Y Moi ocupa um curioso lugar, algures entre a ética "indie" e a atracção irresistível pela pop. Bundick elege como heróis musicais Michael Jackson (fez até uma versão de "Human Nature", que ofereceu no seu blogue), Madonna, Elvis Costello, "muita new wave, nada muito obscuro", tudo "coisas que eram populares na altura e que passavam nas rádios de massas". Mas não nega a influência dos Animal Collective - notória, sobretudo, na canção "Blessa".

A pop dos anos 1980 (com os seus sintetizadores, batidas e guitarras de funk branco) habita a sua música, não de forma explícita, mas como sugestão (ou fantasma), através de retalhos pilhados a canções alheias, muitas delas desconhecidas, meras notas de rodapé ou detritos da pop.

Não está sozinho na aplicação deste método: a parte instrumental de um dos hinos "indie" de 2009, "Feel It Around", do seu amigo Washed Out, consistia apenas num "sample" de "I Want You", de Gary Low, desacelerado e encharcado em reverberação. "O que faço é parecido", diz Bundick. "Ele transformou essa canção em algo melhor. Nas minhas canções nem se consegue reconhecer de onde vem", acrescenta. "Gosto de fazer referências a géneros e a canções do passado porque cresci a ouvi-las. Fazer de algo velho algo novo é importante no meu processo de criação".

Em "Causers of This" recorreu a "samples" que encontrava no YouTube e noutras fontes. "Nem me lembro que canções usei. Tenho os títulos no meu computador. É uma decisão quase inconsciente. Procuro canções até encontrar algo que soe bem", explica.

Talvez seja natural, nestes tempos em que toda a música gravada está disponível na Internet, que a música baseada em "samples", até aqui relativamente confinada a géneros como o hip-hop, chegue com mais força à pop e ao rock independentes. "A nossa geração está a ficar mimada por causa da tecnologia", reconhece. "É bom trabalhar num computador porque temos ali todos os instrumentos, mas no próximo álbum [será editado ainda este ano] quero afastar-me o máximo disso", avisa. Ou seja: vai gravar guitarra, baixo e bateria, como se fosse uma banda.

Os discos que lançou em micro-editoras ou por conta própria serviram de tubos de ensaio para "Causers of This" e para o que se seguirá. "Demorei este tempo a chegar à forma de isto funcionar, de ser algo que as pessoas querem ouvir", diz Bundick, que começou o projecto Toro Y Moi aos 15 anos, ainda no liceu. "Antes misturava as coisas folk e as coisas electrónicas no mesmo disco. Decidi agora fazer um disco e depois outro que será o oposto. Gosto de música pop. Só quero fazer canções pop".