Martin Scorsese: o cineasta que queria ser aceite

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Martin Scorsese é universalmente reconhecido como um dos grandes mestres contemporâneos. Mas não são poucos os que lamentam que ele pareça estar hoje acomodado a Hollywood. A pergunta que "Shutter Island" levanta �� a seguinte: e se ele nunca tivesse querido outra coisa?

É uma pergunta que muita gente faz, questionando as opções de um dos cineastas-chave do cinema americano dos anos 1970, que assinou obras como "Taxi Driver" (1976), "O Touro Enraivecido" (1980) ou "Tudo Bons Rapazes" (1990).

Caso em questão: "Shutter Island", que chega esta semana às salas portuguesas, vem com o peso da máquina da Paramount, tem (pela quarta vez consecutiva num filme do cineasta) Leonardo di Caprio como cabeça de cartaz, anuncia-se como filme de género, policial adaptado de um romance do escritor Dennis Lehane ("Mystic River") sobre um detective traumatizado pelas suas experiências na II Guerra que investiga um desaparecimento num hospital psiquiátrico. É um filme que parece concebido para repetir o êxito de "The Departed - Entre Inimigos" (2006) - e, a julgar pelos primeiros resultados comerciais, está bem lançado para o fazer. E é um filme que transpira "encomenda de estúdio" à distância (mas, como já vamos ver, tudo isto é tão jogo de espelhos como a própria história do filme, sobre um detective enviado a um hospital psiquiátrico para uma investigação que não é aquilo que parece).

Não espanta que, com o sucesso à espreita, a Paramount tenha aproveitado a estreia mundial de "Shutter Island", fora de concurso, no Festival de Berlim 2010 para organizar uma megaoperação promocional que juntou jornalistas presentes no certame com outros enviados apenas para um frenético dia de entrevistas no luxuoso Hotel Regent.

O que já é mais espantoso é ouvir as seguintes palavras da boca de Scorsese. "O negócio mudou muito. É preciso perceber que a Paramount tem um grande investimento no filme, e tem de fazer o que precisa de fazer para levar as pessoas ao cinema e começarem a espalhar a palavra. Há uma extraordinária quantidade de pesquisa a acontecer nesta altura, e no momento em que essa pesquisa os informa que o interesse no filme caiu, o pessoal do marketing monta outro ‘trailer' no momento, está constantemente a tentar maximizar a exposição - e, aliás, penso que é por isso que eles quiseram estrear o filme agora [a estreia estava prevista para Outubro último]. Têm um investimento que têm de recuperar."

O cinéfilo

Sim, foi mesmo Martin Scorsese que pronunciou estas palavras, num encontro com uma dúzia de jornalistas europeus. É o mesmo Martin Scorsese que é um dos impulsionadores da World Cinema Foundation, que se dedica a restaurar filmes esquecidos ou perdidos e a redisponibilizá-los nas melhores condições possíveis. O mesmo que terá feito mais pela divulgação do cinema italiano clássico com a sua "Viagem pelo Cinema Italiano" do que os responsáveis da cultura transalpina. O mesmo que invoca o expressionismo, a série B, os movimentos artísticos dos anos 1920 e 1930, a paranóia dos anos 1950, os filmes de Samuel Fuller e as produções de Val Lewton para a RKO, quando se entusiasma e começa a explicar o que é "Shutter Island".

Tudo isto parece não bater certo - mas, já o dissemos, é tudo mais enganador do que parece. Scorsese pertence a uma geração reconhecida pela sua cinefilia: todos os "novos americanos" dos anos 1970, de Peter Bogdanovich a Brian de Palma, cresceram em simultâneo com os grandes mestres do cinema europeu do pós-guerra, com os grandes cineastas da Hollywood clássica, com as séries B despachadas e baratuchas para preencher programas duplos. E, numa geração cinéfila por natureza, Scorsese será talvez o mais cinéfilo deles todos.

Basta pensar nos filmes que o celebrizaram na década de 1970: "Alice Já Não Mora Aqui" (1975) não era o equivalente moderno de uma "women's picture" (com Ellen Burstyn num papel que noutros tempos teria ido para Joan Crawford ou Bette Davis)? "New York, New York" (1977) não era uma experiência, assumida e incompreendida, no musical clássico? "O Touro Enraivecido" não se inscrevia na linhagem dos filmes clássicos da velha Hollywood sobre o boxe?

Se o Scorsese de hoje parece ser um cineasta ao serviço dos estúdios, isso corresponde em grande parte a um desejo seu de fazer parte do sistema, de ser aceite. Na mesa-redonda de Berlim, cita o seu "remake" de 1991 de "O Cabo do Medo" como uma primeira tentativa de fazer "um filme de Hollywood moderno para o público da altura, para ver se era capaz". Mas, ao fazê-lo, ignora o excelente "A Cor do Dinheiro", a sequela de "A Vida É Um Jogo" de Robert Rossen que dirigiu em 1986 e que já então tinha o seu quê de "encomenda": no livro de entrevistas editado por David Thompson e Ian Christie, "Scorsese on Scorsese", o realizador dizia que "A Cor do Dinheiro" era uma tentativa de provar que podia trabalhar dentro de Hollywood, com vedetas consagradas, sem problemas e ao mesmo tempo entregar ao estúdio um filme comercial, depois do desastre do incompreendido "O Rei da Comédia" (1983).

E convém não esquecer o papel central que "Gangs de Nova Iorque", uma "obsessão" que acalentava desde os anos 1970 e conseguiu finalmente rodar em 2001 pelo meio de intermináveis problemas de produção e disputas com Harvey Weinstein, tem na mais recente fase da sua carreira.

Ouvindo Scorsese, ficamos com a sensação que tudo o que se seguiu a esse filme veio quase por reacção: "A obsessão de ‘Gangs de Nova Iorque' ocupou muito espaço e, uma vez mais ou menos concretizada - porque parte de mim ainda podia estar a rodar esse filme... -, apeteceu-me fazer um grande espectáculo de Hollywood. E fiz ‘O Aviador' [2004], mas aí o espectáculo acabou por se tornar na realidade uma desculpa. O que se tornou realmente interessante foi o facto de a personagem conter em si as próprias sementes da sua destruição. Depois do ‘Aviador' fartei-me da ideia do grande espectáculo e quis fazer um simples filme de rua, e o guião do Bill Monahan para ‘The Departed' era muito interessante. Mas, à medida que o rodávamos, o filme foi mudando. Começou a ecoar ‘Gangs de Nova Iorque', outros filmes que eu já tinha feito... E depois disse: ‘Pronto, já fiz, agora quero fazer outras coisas.' O Leo [di Caprio] e eu começámos a trabalhar num outro projecto que acabou por não se concretizar e ‘Shutter Island' apareceu de repente, quase por acidente."

Regresso ao passado

Scorsese confessa que o que o atraiu no romance de Dennis Lehane foi perceber que conhecia este mundo. "Foi o mundo em que cresci - o medo e paranóia dos anos 1950. Quando eu era miúdo, ia muito ao cinema. Ora, aos dez anos, em 1952, quando se vai ao cinema, vai-se ver um filme, não se vai ver um filme negro como fazemos hoje, não vamos ver um filme específico à procura de um certo estilo..."

E a cinefilia começa a desbobinar. "Apanha-se o ‘Corrupção' [1953] do Fritz Lang e vemo-lo três vezes, porque é o segundo filme de um programa duplo numa série de cinemas e dizemos: ‘Este filme é fantástico.' É nesse mundo que se vive. Vemos ‘Fui Um Comunista para o FBI' [série B de 1951 de Gordon Douglas] ou ‘Invaders from Mars' [série B de 1953 de William Cameron Menzies], que era também sobre raptos e sobre o medo que a própria alma das pessoas fosse roubada, subentendendo-se que seria o comunismo a levá-la... Tudo isto disfarçado de ficção científica para os miúdos. Nunca pensámos realmente que vivêssemos no mundo do filme negro. Aliás, nem sabemos quando o filme negro acabou. Aparentemente acabou com ‘O Beijo Fatal' [Robert Aldrich, 1955], quando se abre a mala e tudo explode... Éramos miúdos, não sabíamos!"

Lançado na conversa, cita entalhadores italianos e alemães dos anos 1920 e 1930, confirma que os traços visuais de "Shutter Island" são expressionistas, acena com o cubismo, sublinha o seu amor pelo "giallo" italiano dos anos 1960 - "Mario Bava, claro, Dario Argento... Mas mostro sempre o Mario Bava ao Bob Richardson [director de fotografia de Scorsese desde "O Aviador"], em particular ‘Operazione Paura' [1966], que é um filme fantástico cheio de irrealidade e onirismo... Adoro o modo como ele concebia a luz nos filmes dele, quer fossem a preto e branco ou a cores..."

A cinefilia estendeu-se aos actores, para quem Scorsese elaborou um pequeno currículo de "filmes recomendados". Mark Ruffalo, que interpreta o detective que faz equipa com a personagem de Leonardo di Caprio, revela aos jornalistas presentes que, antes do início da rodagem e dos ensaios, "[recebeu] um embrulho do Marty com um documentário chamado ‘Titicut Follies'" - o célebre (e infame) documentário de 1967 de Frederick Wiseman sobre um hospital psiquiátrico do Massachusetts, que serviu, segundo o actor, como "ponto de referência" directo da cenografia de Dante Ferretti e do ambiente que se vive no hospital onde "Shutter Island" decorre. "Vimos ainda um documentário de John Ford que mostrava soldados a regressarem da II Guerra completamente destruídos, e ainda filmes negros como ‘Laura' [Otto Preminger, 1944] e ‘O Arrependido' [Jacques Tourneur, 1947], ao qual aliás fomos buscar uma série de diálogos que depois acabaram por não entrar no filme. De um lado, tínhamos o artifício destes filmes negros totalmente estilizados, e do outro a realidade social."

A esta lista, Ben Kingsley, no papel do director do hospital, juntou um clássico que apenas pode ser descrito como onírico, "Uma Questão de Vida e de Morte" (1946), de Michael Powell e Emeric Pressburger, a história de um piloto-aviador na II Guerra gravemente ferido, suspenso num limbo entre a vida e a morte. "Eu tinha comprado uma caixa de DVD de Powell e Pressburger por causa do entusiasmo do Marty, e ele disse-me que ‘Uma Questão de Vida e de Morte' era absolutamente perfeito para aquilo que pretendia."

O onirismo pode ser importantíssimo para explicar o que se passa em "Shutter Island", mas Scorsese prefere atardar-se no pesadelo que foi a rodagem. "Sabia que ‘Gangs de Nova Iorque' iria ser uma experiência difícil, porque implicava criar um universo novo, tal como ‘Kundun' [1997] ou ‘A Idade da Inocência' [1993]. Mas ‘Shutter Island'? 1954, meia dúzia de homens num hospital, um cenário único, um par de cenas com tempestades [gargalhadas]... e tornou-se, provavelmente a seguir à ‘Última Tentação de Cristo' [1988], no filme mais difícil que já rodei."

Explica porquê, fazendo a ligação com o piloto da série televisiva da HBO "Boardwalk Empire", que rodou no ano passado: "Com os grandes orçamentos, damos por nós a trabalhar com uma máquina muito pesada, que cria muita responsabilidade, porque está muito dinheiro em jogo. Em ‘Shutter Island' tivemos inúmeros problemas durante a rodagem, porque ficámos muito dependentes do estado do tempo nos exteriores. Durante sete semanas que tirei à pós-produção rodei o piloto de "Boardwalk Empire", em 30 dias - foi um pouco como fazer uma série B. Na minha idade [Scorsese cumpriu 67 anos em Novembro último], conseguir fazer um filme em 25 ou 30 dias não é nada mau. É preciso ter uma outra atitude, ter um director de fotografia que esteja em cima de nós. Claro que foi cansativo. Mas, normalmente, num filme de grande orçamento, chegar ao ‘plateau' é como ir para a guerra, tem-se ali imensa gente e tem de se lidar com tudo, está-se ali uma, duas horas antes de começar a rodar. Neste caso, começávamos ao fim de 20 minutos [risos]. Nem me conseguia sentar, só tinha tempo de ir tomar um duche à caravana e pegar num café e toca a filmar."

O autor que queria ser funcionário

Como de costume, é nas respostas aparentemente descartadas sem pensar que se descobrem pormenores significativos para explicar esta sofreguidão. Ao deter-se em "The Wolf of Wall Street", o projecto que caiu por terra abrindo caminho a "Shutter Island", explica que o filme, baseado na autobiografia de um corretor de Wall Street não se fez porque "o estúdio não se conseguia decidir se o queria fazer ou não". "Esse filme custou-me cinco meses da minha vida criativa, perdidos à espera do estúdio, e depois compreendi que não podia esperar mais. Tinha de trabalhar."

Essa sofreguidão de produzir pode parecer paradoxal num cineasta que costuma dizer preferir a preparação e a montagem à rodagem propriamente dita, mas remete também para a produção constante dos velhos cineastas de Hollywood, que conseguiam rodar um filme ou mais por ano e muitas vezes estavam dependentes dos guiões que lhes eram entregues pelos estúdios com os quais tinham contrato. O que quer dizer imprimir também uma marca de autor no filme que se faz - e, goste-se ou não (e as reacções críticas têm sido extremamente diversas), "Shutter Island" está longe de ser o "thriller" chapa quatro do costume.

Longo (quase duas horas e meia), complexo, negro, paredes-meias com o filme de terror, pede ao público um pouco mais de entrega do que seria desejável para um grande estúdio estar seguro de recuperar o seu investimento. "[O problema é que] hoje em dia [os estúdios] gastam tanto dinheiro a fazer estes filmes que não podem correr riscos. Têm de fazer as coisas muito simples, para os miúdos. E agora uma pessoa vira-se e percebe que a fasquia desceu até aqui [coloca a mão estendida ao nível da mesa], quando antes estava aqui [e ergue-a ao nível da sua cabeça], ou mesmo aqui [eleva-a acima da cabeça]."

"Sou de uma época em que era normal fazer filmes como ‘Shutter Island', para o grande público, com grandes estrelas. Por que é que não se podem fazer filmes destes hoje para uma audiência global?"

E assim é Martin Scorsese: um autor que gostava de ser um tarefeiro da velha Hollywood que tem prazer em trabalhar na Hollywood em que vive. E que, sim, faz os filmes que quer.