O menino que nasceu num ninho de dinossauro

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No seu passeio com a Pública, Octávio Mateus fez alguns achados. Uma placa de carapaça de tartaruga, espinhas de peixes actuais (quando se comparam, podem ajudar a identificar vestígios fósseis) e uma lasca de osso de dinossauro ou de crocodilo

Já baptizou perto de uma dezena de novas espécies de dinossauro e recentemente anunciou a descoberta do mais antigo fóssil de tartaruga marinha de África. Aos 35 anos, Octávio Mateus é um dos paleontólogos mais bem sucedidos a nível mundial.

Estava a ver que não!...", desabafa o homem de calças pretas e casaco de malha quase da mesma cor que há uns bons 15 ou 20 minutos percorria, às vezes praticamente de rastos, outras correndo e saltando, um colorido troço de falésia nas imediações da Lourinhã. Octávio Mateus, paleontólogo, está ali apenas para uma sessão fotográfica. Mas juntar este homem e terrenos susceptíveis de esconderem fósseis com milhões de anos é uma alquimia infalível: Octávio segura agora na mão um fragmento de osso, "de dinossauro ou de um grande crocodilo".

Não é difícil encontrar vestígios do Jurássico nesta região. Algumas rochas sedimentares exibem um claro padrão de conchas prensadas e também elas têm muitas dezenas de milhões de anos. Durante a breve "saída de campo" para fazer fotos, Octávio Mateus descobre ainda uma placa de carapaça de tartaruga. Tal como o fragmento de osso, o achado não é relevante. Disto há aos montes por aqui: não é à toa que a Lourinhã reclama o título de "capital mundial dos dinossauros".

Nascer aqui (na verdade nasceu em Lisboa, mas cresceu na Lourinhã) e ter por pais dois viciados na espeleologia parece ter-lhe traçado o destino desde muito cedo. Ele explica que optou pela paleontologia porque nasceu num ninho de dinossauro. Não está a ser figurativo. E enuncia: "A Lourinhã, a família e o próprio ninho de dinossauro encontrado aqui."

O ninho foi detectado pela mãe de Octávio, Isabel Mateus, que surge, por acaso, na esplanada do centro da Lourinhã onde decorre a conversa. Mesmo a tempo de relatar na primeira pessoa: "Estávamos a caminhar e a minha filha mais nova, que tinha três anos, pediu para fazer chichi. Quando me baixei para a ajudar, vi uma coisa pequenina, castanha..." Era um ovo de dinossauro, integrado num ninho, um dos maiores do mundo, o único da Europa com embriões - e estes, com 150 milhões de anos, são os mais antigos jamais encontrados.

Mais de dez anos depois da divulgação mundial desta descoberta, o ninho de dinossauro (onde, curiosamente, foram detectados três ovos de crocodilo, abrindo toda uma janela de suposições sobre as relações entre as duas espécies na época) está exposto no Museu da Lourinhã, cujo pavilhão dedicado à paleontologia tem, certamente, uma das mais elevadas densidades de exemplares relevantes para a ciência por metro quadrado. Chamam-se holótipos e constituem o espécime-padrão, a referência, para caracterizar uma espécie. Aqui há cinco.

Os frutos do trabalho de Octávio Mateus estão por todo o lado. Aliás, o museu foi fundado pelos seus pais e o irmão mais velho trabalha lá. É quase uma história de família. Uma história que, para Octávio, começou aos quatro anos, idade com que fez a sua primeira "saída de campo". A primeira escavação aconteceu aos sete, "na gruta da Feteira, onde se encontraram restos humanos [que estão no museu]".

Ao princípio, os pais estavam virados para a arqueologia, mas a profusão de achados rapidamente os transformou em paleontólogos amadores, recorda o pai de Octávio, Horácio, que também "tropeça" no filho e nos jornalistas durante a entrevista. Coisas de terra pequena...

Pequena mas enorme na importância que assume no cenário da paleontologia a nível mundial. "Portugal é o sétimo país com mais espécies de dinossauro descobertas, depois dos EUA, China, Canadá, Argentina, Mongólia e Reino Unido. São países enormes e, por isso, nós somos o que tem mais em função da área", explica o paleontólogo do Museu da Lourinhã e investigador da Universidade Nova de Lisboa.

E o epicentro desta abundância está na Lourinhã. "Não é difícil fazer achados aqui. Na minha família, até o cão já encontrou um dente de dinossauro. A minha descoberta mais perto de casa aconteceu a uns 200 ou 300 metros da porta..." Será isto que explica a aparente facilidade com que Octávio Mateus detecta fósseis em paisagens às vezes imensas?

Responde o próprio: "No terreno, é preciso ter experiência e conjugar uma série de factores, como haver afloramentos rochosos à superfície e a camada geológica ter a idade certa. É um jogo, escavar aqui e não ali, às vezes passamos várias vezes por um sítio e depois a luz muda, ou o ângulo de visão varia, e vemos algo... Eu tenho olho. Também sorte, claro, mas a experiência é fundamental."

Mundo de aventuras

E esta experiência no terreno não se limita às falésias da Lourinhã. Longe disso. Entre grandes expedições, visitas e saídas de campo, Octávio Mateus já pesquisou na Alemanha, Espanha, Mongólia, Laos, Brasil, Argentina, Angola, Tunísia e EUA. Faz planos de se deslocar em breve a Moçambique.

Curiosamente, nunca esteve na Bulgária, apesar de ter identificado o primeiro dinossauro daquele país. "Um espeleólogo descobriu um fragmento de osso que um estudante que esteve cá ao abrigo do programa Erasmus me trouxe. Analisei-o e percebi que era de dinossauro. Se fosse de cá nem lhe ligava, mas este fragmento dava para identificar a espécie, num país onde não havia registo de dinossauros."

De todas estas viagens, destaca as do Laos, da Mongólia e de Angola. No Laos, onde esteve por duas vezes em períodos de dois meses, viveu a aventura de partilhar a aldeia com os habitantes da floresta, que não viam ocidentais há pelo menos duas décadas. "As casas eram construídas em cima de postes e quase não tinham paredes, pelo que a nossa vida era praticamente cinema para eles..."

Como não podia deixar de ser, este choque civilizacional proporcionou momentos inesquecíveis, a começar pelo dia em que, instado pela bexiga a procurar alívio, o cientista português sentiu umas mãos a acariciarem-lhe as costas e o pescoço, enquanto as suas estavam ocupadas... "Foi um susto! Mas depois descobri que é tradição os homens fazerem massagens uns aos outros naqueles momentos."

Sempre à procura de répteis e anfíbios nas horas vagas, Octávio Mateus foi desafiado pelos locais a conhecer a tartaruga do templo. "E lá estava ela, mas muito suja. Pedi para lhe tirar uma foto, mas lavada, e eles lavaram-na. No dia seguinte choveu. Desabafo de um dos aldeões: "Já sabia, lavamos a tartaruga e chove logo a seguir!"..."

Para completar este tríptico de belas historietas ligadas à higiene, fica a misteriosa saga do sabão azul e branco. "Havia um chuveiro no meio da aldeia e eu tinha um bloco grande de sabão. No primeiro dia levei um bocado e deixei-o lá. No dia seguinte tinha desaparecido. Tudo bem, fazia-lhes falta. Mas no segundo dia a cena repetiu-se. E no terceiro. De repente, já quase não tinha sabão... Então fiquei à coca. E descobri o ladrão. Todos os dias, mal eu me afastava, um cão corria para o duche e comia o sabão!"

Noutras latitudes, os desafios eram outros. No deserto de Gobi, na Mongólia, em 2007, as temperaturas variaram entre os 52º graus Celsius no pino do calor e os -1º no gelo das noites. Um frio, ainda assim, relativo, dado que no Inverno os termómetros baixam até aos -50º, mas cruel para quem vivia em tendas - como, aliás, os escassos habitantes da região. Pelo sim pelo não, nunca montavam as tendas em locais baixos, porque a areia é praticamente vidrada e a água da chuva forma torrentes violentas. Mas não apanharam chuva. "Só" duas tempestades de areia, uma das quais com ventos de 100 km/h que "mandaram as tendas abaixo".

Em Angola, dois anos antes, Octávio Mateus, que nas outras grandes expedições participou como convidado de figuras ilustres da paleontologia mundial, estreou-se na co-liderança da equipa, juntamente com norte-americanos e angolanos. Na senda dos estudos feitos pelo seu mentor Telles Antunes, a ideia era estudar os répteis do Mesozóico.

No dia 25 de Maio, feriado (é o Dia de África), Octávio Mateus decide deslocar-se de carro até à zona de escavações, a cinco horas de viagem. Foi uma decisão radical, uma vez que teria de voltar no mesmo dia, deixando-lhe uma janela temporal muito curta para pesquisar. Mas foi também uma decisão histórica: em cerca de três horas no terreno descobriu crânios de répteis (incluindo um da que se provou ser a mais antiga tartaruga de África) e ossos do primeiro dinossauro angolano. "Foi excelente!"

Agora, regressa ao país todos os anos, explorando a faixa litoral desde Cabinda, a norte, até ao Namibe, a sul. "As pessoas de lá não estão muito conscientes de que há ossos. Ficam curiosos, mas não acreditam que estejamos à procura de vestígios de animais do passado. Na verdade, pensam eles, se há brancos a escavar isso, só pode significar que andam à procura de diamantes..."

A rotina e a adrenalina

Esta é a parte romântica do trabalho de um paleontólogo. Correr o mundo à procura de tesouros do passado, a eterna sedução de viajar, a viciante adrenalina do garimpo... "A melhor descoberta é aquela de que não estamos à espera, uma nova peça do puzzle, ou uma nova parte do puzzle... E isso não podemos prever, não podíamos saber que existia."

E é por isso que Octávio Mateus destaca a importância dos detalhes nesta ciência: "É claro que uma coisa grande, um esqueleto inteiro, é sempre uma emoção, mas os pormenores são fundamentais em paleontologia. Um pequeno dente pode dizer-nos tanto sobre a ocorrência e hábitos de uma espécie como um fémur. E nem sequer tenho a pretensão de pensar que os dinossauros são a melhor coisa do mundo. Vejam os cientistas que trabalham com pólenes, só os podem analisar ao microscópio... E, no entanto, fazem descobertas importantíssimas."

Seja, mas há algo de especial nos dinossauros, uma aura de fascínio que os torna estranhamente reais, familiares, apesar de se terem extinguido (excepto o ramo que deu origem às aves modernas) há dezenas de milhões de anos. Um pormenor, diz Octávio Mateus: "Eu sou biólogo, acontece apenas que os "meus" animais estão extintos..." Fala o homem que desenhou os enormes dinossauros que pastam numa rotunda da Lourinhã e que, fiel "à tradição local de colocar nas casas um painel de azulejos alusivo à profissão", combina ao telemóvel pormenores do seu. Com dinossauros, claro.

Uma casa onde a sua companheira, professora, tem de ficar muitas vezes enquanto ele viaja. Contrariada. "Ela gostava era de poder ir mais vezes comigo!", assume o paleontólogo. Mas ele viaja mesmo assim tanto? "Uns anos mais, outros menos. Ultimamente, faço um mês de campo em Angola, outro na Lourinhã. Entre congressos e parcerias, gasto mais duas semanas, um mês, fora por ano." Não está nada mal...

Ele finta a indirecta com bom humor: "Mas este ano ainda não saí do país! [a entrevista foi feita nos primeiros dias de Fevereiro...]" E depois entra num registo mais sério, explicando como estas semanas passadas a explorar justificam o resto ano fechado no laboratório. E aí acabou-se o romantismo do caçador de tesouros...

Num anexo do Museu da Lourinhã, faz-se o trabalho de sapa. Uma estudante de mestrado vinda da Dinamarca limpa ossos de galinha para serem analisados e fornecerem padrões de identificação quando se analisam os vestígios de dinossauros encontrados no terreno. O prestígio internacional do jovem cientista português também se percebe nestes pormenores: neste momento, são três os estudantes estrangeiros a trabalhar sob a orientação de Octávio Mateus - para além da rapariga loura que arranca restos de pele e carne de coxas de galinha, há mais dois (um belga e um suíço) a fazer doutoramento.

É aqui, neste espaço aberto com ar de oficina e nos gabinetes com equipamento menos "industrial", que se trabalham os achados e se faz ciência. "O artigo científico é o destino final da investigação. E eu gosto de investigar e escrever os artigos." Porque as descobertas de que o grande público ouve falar já foram, normalmente, arrancadas do terreno há muito tempo, às vezes vários anos. Mas falta a confirmação científica, o trabalho de investigação e identificação, o reconhecimento dos pares.

Num laboratório científico, coisas extraordinárias podem tornar-se parte da mobília. Aqui, na Lourinhã, um segundo ninho com ovos de dinossauro está em fase de limpeza e preparação para poder ser mostrado. Numa prateleira sob uma das bancadas de trabalho repousa um osso do primeiro dinossauro descoberto em Angola. Este voltará em breve para o seu país de origem, mas o material acumulado é imenso. Daria para um museu bem maior e mais ambicioso. Um sonho de Octávio Mateus que ainda não deu passos decisivos para se concretizar.

Na capital mundial dos dinossauros, é claro que Octávio Mateus dificilmente passa despercebido. Mas, fora da Lourinhã, um dos nossos cientistas mais cotados internacionalmente não é reconhecido na rua, o grande público não conhece a sua cara. Apesar de desagradado com o facto de, genericamente, "em Portugal se promover muita gente que não faz nada de útil e se esquecerem os cientistas, que são quem dá passos em frente", ele não parece muito afectado pelo facto de não ser uma "pop star". Até se ri da expressão.

Por outro lado, os artigos científicos em algumas das revistas mais conceituadas do meio, a colaboração próxima com grandes nomes da paleontologia mundial e a tal dezena de dinossauros baptizados ("não faço essas contas, mas anda por aí e não há muita gente com tal currículo"), mais a distinção de ter identificado os primeiros dinossauros de países como Angola ou a Bulgária, garantem a Octávio Mateus um lugar na elite mundial dos cientistas da sua especialidade. E isto aos 35 anos, uma idade em que a maioria dos investigadores ainda costuma estar a dar os primeiros passos... "Pegando na sua expressão, não sou uma "estrela pop" na rua, mas num congresso mundial de paleontologia toda a gente me conhece!"

E como as mil espécies de dinossauro já identificadas deverão representar apenas dois a cinco por cento do total das que existiram, o mínimo que se pode dizer é que, para o paleontólogo Octávio Mateus, o passado tem muito futuro para oferecer. A??[email protected]