Clube dos dois chineses e do amigo de Jesus quer ser "carrasco" do Sporting

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Yu Dabao e Zhang, dois asiáticos no Mafra com aspirações diferentes pedro cunha

Mafra visita Alvalade no jogo mais importante da sua história. Equipa mostra os seus dois chineses, Yu Dabao e Zhang, mas o ex-benfiquista está de saída

O Mafra tem o mesmo presidente há 15 anos - um portista de Vila Real, que é amigo de Jorge Jesus, actual treinador do Benfica. Tem quatro jogadores emprestados pela equipa da Luz, de quem aspira ser clube satélite. E tem um ex-guarda-redes do Sporting (Márcio Santos), além de usar a marca de equipamentos (Lacatoni) de que o técnico dos "leões", Carlos Carvalhal, é co-proprietário. Mas nada é tão curioso nesta equipa da II Divisão B como o facto de ter dois chineses no plantel, embora, provavelmente, por pouco tempo, já que Dabao pode estar de saída.

Yu Dabao chegou há três anos para os juniores do Benfica. Encantou, mas a passagem para os seniores não foi fácil. Jogou, por empréstimo, no Aves e no Olivais e Moscavide. Agora está no Mafra, também emprestado, mas pretende deixar Portugal já no final deste mês. "Vou sair, vou para outro país. O contrato com o Benfica acaba no final da época e é difícil voltar", explica o chinês. O avançado, de 21 anos, não revela o destino, mas o PÚBLICO apurou que vai realizar testes à Alemanha e aos EUA.

Yu Dabao fala português, embora se perca algo na conversa. Mais do que as palavras, o semblante do avançado mostra alguém desiludido com a trajectória em Portugal. Queixa-se das lesões, da "porrada" que leva dos adversários, da falta de oportunidades e até da gripe A, que o fez perder sete quilos e estar fora dos relvados durante algumas semanas. "Fico triste", resume o chinês, para quem os primeiros tempos em Portugal foram muito complicados, por causa da língua. Teve aulas durante quatro meses e agora até serve de tradutor para Zhang, outro avançado chinês que chegou ao Mafra nesta época.

Zhang, de 20 anos, tem uma história completamente diferente. "Chegou através de um empresário que é meu amigo", conta Joaquim Duarte, director desportivo do Mafra, elogiando as qualidades do avançado, que está pré-convocado para a selecção olímpica da China, que agora vai estagiar em Portugal.

Mafra já ganhou

Dabao e Zhang vivem em Mafra, no centro de estágio do clube. "Agora sei fazer tudo. Cozinhar e limpar a casa", conta Dabao, sem esconder as saudades da família, com quem fala pela Internet. Zhang parece mais feliz. "Gosto de Portugal", explica num inglês rudimentar, apesar de ganhar "pouco" (cerca de 500 euros). Quer continuar a jogar e mudar-se para um clube melhor.

O jogo desta noite em Alvalade (21h00) é, por isso, uma excelente montra para os dois chineses e para os outros jogadores do plantel, em que os rostos mais conhecidos são Marco Paulo (ex-jogador de Belenenses e E. Amadora) e Márcio Santos (ex-guarda-redes do Sporting). Outra cara familiar é a do treinador adjunto Chiquinho Carlos, antigo jogador de Benfica e V. Guimarães.

O Mafra joga na II Divisão B (11.º da Zona Centro) e só tem alguns profissionais, incluindo mais três jogadores emprestados pelo Benfica (Hélio Vaz, Abel Pereira e Ivanir). É o possível, num clube que tem só 800 sócios e um orçamento anual de 152 mil euros. O presidente é Antonino Florindo, mais conhecido como José Cristo. Este empresário nascido em Vila Real, mas que vive há muitos anos em Mafra, é também o principal patrocinador. Portista e amigo de Jorge Jesus (que conheceu quando viveu na Amadora e que em tempos tentou contratar), José Cristo fala de um jogo "histórico". "O Mafra já ganhou. O facto de jogar em Alvalade já é uma vitória."

Do call center para Liedson

O mesmo diz Joaquim Duarte, o director desportivo, para quem o clube teve sorte. Por causa da receita? "Não. Quando era jogador, fui às Antas com o Atlético e o jogo deu prejuízo. É porque estes jogos marcam. Ainda me lembro de tudo desse dia". O encontro com o Sporting está a animar Mafra, uma vila de 11 mil habitantes, a 50 quilómetros de Lisboa. Os adeptos vão deslocar-se a Alvalade, uns enchendo oito autocarros e outros em automóvel particular. "Há adeptos que nunca foram a um estádio do Euro", sublinha Joaquim Duarte. A maioria dos futebolistas do Mafra também nunca jogou num estádio assim. Alguns acumulam os treinos com as suas profissões. O central Zé Inácio, que poderá marcar Liedson, trabalhava num call center, mas abandonou o emprego, porque era difícil conciliar as duas coisas. Aos 26 anos, sonha ser profissional e diz que ganhar em Alvalade seria histórico: o Mafra nunca chegou tão longe na Taça.

O treinador Filipe Moreira também acredita numa surpresa naquela que é a sua "final da Taça". "Já tocou ao Atlético e Torreense com o FC Porto, ao Gondomar com o Benfica. Do Sporting não me lembro de uma surpresa. Será que agora somos nós?", pergunta o técnico. É que um "dia vai ser alguém a eliminar o Sporting em Alvalade."Joaquim Duarte, director desportivo do Mafra