Crítica

Ceci n'est pas un fado

Obra incomum pela forma como se apresenta: fiel ao destino da guitarra sem jurar fidelidade ao seu fatalismo

No disco, ouve-se-lhe a respiração acompanhando o trinado da guitarra. Claro que é uma luta o que por ali vai, mas só o afirmamos porque sabemos da relação conturbada de Ricardo Rocha com o instrumento que o escolheu e do qual não pode agora escapar. Porque o que nos chega, quando o ouvimos, não é uma luta. É aquele som único a desenvolver-se corpo sem se metamorfosear numa outra coisa.

Ricardo Rocha sempre fez questão de afirmar que não é nem poderia ser seguidor de Carlos Paredes porque Paredes iniciou e fechou uma linguagem (a sua, inimitável). Digamos então que Ricardo Rocha, depois de "Voluptuária", e, agora, com este surpreendente "Luminismo" (à guitarra, no CD1, sucedem-se peças para piano, no CD2, com homenagens ao compositor russo Alexander Skrajbin, de um romantismo etéreo, e perturbantes composições serialistas, ambas interpretadas pela austríaca Ingeborg Baldaszti), deixa também inscrita a sua marca na história do instrumento.

O que se ouve em "Luminismo" não é fado. Sendo-o, só o será no sentido em que a guitarra, por mais que tente, não consegue escapar-lhe - é destino inscrito no código genético. Quanto ao mais, Ricardo Rocha transborda: nas dinâmicas conturbadas de "Abismo satânico", no lirismo torrencial da versão de "Dança das sombras", de Pedro Caldeira Cabral, ou na força cava, profunda, que emerge da imensa "Porto Santo", de Carlos Paredes.

Obra incomum pela forma como se apresenta, fiel ao destino da guitarra sem jurar fidelidade ao seu fatalismo, sem ambições de modernização e sem subjugação ao tradicionalismo, "Luminismo" é música inspirada, a música de um percurso único - e da guitarra em que essa música se exprime.