Ricardo Rocha: a bem-vinda maldição da guitarra portuguesa

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Entrega-se a ela como nenhum outro nas últimas décadas. "Luminismo", o seu novo álbum, tem um segundo CD em que só se ouve um piano. Este é o fado de Ricardo Rocha: o seu instrumento preferido não é aquele que toca de forma excepcional.

"Luminismo" já estava pronto desde 2006 mas, por burocracias e temperamento (a editora de então foi adiando, ele não pressionou e desleixou-se), só agora é editado. "Luminismo" é o terceiro álbum de Ricardo Rocha, depois de "Voluptuária", em que se apresentou como instrumentista de génio, procurando uma nova linguagem para a guitarra portuguesa, e de "Tributo à Guitarra Portuguesa". É o álbum de um músico, neto do guitarrista Fontes Rocha, que se viu com a guitarra portuguesa nas mãos muito cedo e que, quando a descobriu verdadeiramente, já não conseguiu escapar-lhe.

Ricardo Rocha, que falou ao Ípsilon poucos dias após a chegada do Brasil, onde acompanhou Carlos do Carmo, pode falar-nos do quão "avassalador" é ouvir o Carlos Paredes de "Guitarra Portuguesa" ou "Movimento Perpétuo", mas fala da guitarra como um instrumento débil, um "um mar de preocupações e de dificuldades", "uma cruz e um calvário". A guitarra pode ser o seu ofício, mas é apaixonado pelo piano, ao qual é dedicado o segundo CD de "Luminismo". Muito sério, dir-nos-á, quando lhe perguntamos porque continua então a insistir na guitarra: "Não dá para mudar de instrumento aos 30 e tal anos". Igualmente sério, mas rematando as frases com gargalhadas que aliviam o peso das declarações, o homem que, nesta década, renovou a linguagem da guitarra, declarará: "Não há futuro nenhum". 

Tanto a capa de "Voluptuária" [imagem nocturna de montanhas e nevoeiro] como a de "Luminismo" [uma paisagem de um campo no crepúsculo, em contraluz] parecem representar um mundo de sombras, quase em oposição à forma metódica, concreta, como aborda a guitarra portuguesa. Devemos ver aquelas sombras como representação do que sente perante a sua música?

Eu sei muito definidamente aquilo que quero ouvir na guitarra, dentro de uma linguagem que nunca foi utilizada neste instrumento. Por outro lado, existe esse lado misterioso, esse misticismo, e essas duas coisas é que formam um cocktail, se calhar, bizarro. Há uns tempos uma pessoa dizia-me: "Também há aqui qualquer coisa de fado". Eu até me arrepio, porque não há nada de fado, mas percebi o que me queria dizer. É o instrumento e não aquilo que se está a ouvir. Um instrumento que está há cem anos a tocar fado e, de repente, está a fazer uma coisa que não se está habituado a ouvir. É esta parte estética, sonora e visual que se mistura e que faz confusão para quem conhece a guitarra portuguesa.

Mas alguma vez conseguirá a guitarra portuguesa libertar-se do fado?

Não, nunca conseguirá. É uma inconsciência acreditar nisso. No século XX, apareceram dois guitarristas e isso é que é uma coisa fenomenal, tão fenomenal que não poderia acontecer em nenhum outro país. Apareceram apenas o Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral, que entregaram toda a sua existência a uma ideia. Foi completamente inglório e em vão, mas ainda bem que o fizeram. Dedicaram a sua vida a tentar pôr a guitarra num determinado nível, completamente distante e dissociado dos fados. Fazer isso é um trabalho complexo, porque tiveram que criar um repertório solista para um instrumento que não tinha esse repertório. A guitarra tem um repertório tradicional de Coimbra e de Lisboa, mas solístico não tem. Eu consegui criar do zero, como Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral, um repertório para a guitarra portuguesa, mas não posso entrar em delírios e em fantasias. Qualquer pessoa que caia na guitarra, que opções tem? Nenhumas. Porque ao mesmo tempo este instrumento foi muito bem conseguido para a primeira função de todas, que é acompanhar. Ou seja, quero transformar isto em quê? Num instrumento de concerto? Não me façam rir, isso é uma anedota. Pago o bilhete para ir ver um concerto desses. Mas bem tocado, não é aquilo que se vê às vezes por aí: "Concerto de guitarra portuguesa com orquestra". Uma paródia deprimente. Qualquer pessoa com o mínimo de lucidez vai ver aquilo e desata a rir.
 
Já o ouvimos dizer que detesta coisas híbridas, que são um monstrengo horrendo. Nesta década, muito do que temos ouvido no fado tem sido precisamente essa procura de hibridez.

Hoje em dia vive-se intensamente a fusão e a fusão - isto no sentido português, não no sentido espanhol, brasileiro ou argentino - é sinónimo de mediocridade. Refiro aqueles países porque têm uma música popular muito rica e que está feita originalmente de uma forma que torna muito mais fácil fundir-se. Os fados não. A sua estrutura rítmica e melódica não torna possível enquadrá-los com outra coisa. O resultado é sempre desastroso, mas essa insistência nasce do complexo de inferioridade português. O problema é que ele, a determinada altura, e especialmente agora, fica desesperado e quer estar sempre ao nível dos outros, quando não consegue perceber que a sua própria genialidade e a sua própria pequenez é que o fazem ser diferente. Tem que ter sempre pensamentos grandiosos: "A nossa música é uma coisa grandiosa, portanto vamos pô-la aí com quarteto, vamos pô-la aí com orquestra". Não é nada! É uma porcaria, é pequenina. Portanto, usem isso, essa originalidade minimal, para apresentar ao mundo uma coisa que ninguém conhece.
 
"Luminismo", o seu novo álbum, é um segundo passo na recuperação do percurso solístico da guitarra portuguesa?

Não é recuperar, é tentar andar para trás com o tempo e preencher esse tempo com uma coisa que esteve sempre ausente. O que este e o outro disco representam para mim é um retroceder no tempo e preenchê-lo com uma linguagem que nunca esteve presente na guitarra, no século XX.

Mas o segundo CD de "Luminismo" é composto por peças para piano inspiradas no compositor russo Alexander Skjrabin e por peças serialistas. Skrajbin é um nome que já marcava presença no seu primeiro álbum, "Voluptuária"...

Skjrabin é um delírio e uma demência que eu tenho, porque é das pessoas que mais gostava que tivesse feito alguma coisa para guitarra. Não vou dizer que é o meu compositor favorito porque existem tantos ao longo da história que escolher um favorito torna-se absurdo. Mas este é o único que cria e associa à linguagem musical todos os aspectos sensoriais, místicos, fenomenais, inexplicáveis e consegue traduzir esses aspectos no som como ninguém o fez.
 
A sua relação com a guitarra é complexa. Diz que não é clara, nem assumida, nem transparente, que só dá problemas. O piano, por sua vez, é uma paixão. As peças para piano de "Luminismo" são uma fuga?

Não são uma fuga porque eu nunca comparo a guitarra com o piano. É um absurdo comparar qualquer instrumento com outro. Todos os instrumentos têm as suas limitações e as suas capacidades. Não me vou autoflagelar porque já me autoflagelo que chegue com as limitações que a guitarra tem. Mas sempre senti um prazer muito grande em fazer coisas com um instrumento de que gosto muito. Não sou pianista. Toco piano, mas toco mal e há uma diferença entre tocar piano e ser pianista. Tive a sorte de conhecer essa pianista [Ingeborg Baldaszti] através do António Victorino d'Almeida. É uma mulher que toca muito, muito bem, o que se torna inspirador. É uma oportunidade que se tem uma vez ou nunca: fazer algo para um instrumento com uma pessoa que toca magnificamente esse instrumento. Foi a sorte que tive.

Foi uma experiência isolada, nascida desse encontro feliz, ou veremos Ricardo Rocha, o guitarrista, a compor para piano no futuro?

Acho que nem para piano nem para guitarra. Já estou um bocado farto. Aliás, muito farto. Eu já fiz o que tinha a fazer. Poderia fazer mais peças, mas eu já construí o repertório solístico para a guitarra portuguesa. O que é que isso me traz? O Carlos Paredes era funcionário público e isso foi a sua sorte. Se não tivesse tido a sorte de ter aquele emprego no [Hospital de] São José, uma labuta diária, continuaria a tocar e a compor, mas tocaria no metro e viveria de esmolas. Essa é a verdade. Só no final dos anos 80 e nos anos 90 é que começou a ter umas "tournées", mas no seu apogeu, na sua fase brilhante, não tinha nada. Como é que ele sobreviveria a tocar o instrumento que tocava? Não sobrevivia. Estaria completamente condenado e é um dos maiores génios da guitarra portuguesa. Agora, tudo se mantém. O que é que vale a pena? O que é que se tira daqui? É tudo em vão. Portanto, acho que não vou fazer mais nada.

Mas não existe o desejo artístico de cumprir um percurso, a vontade de concretizar algo a que se entregou?

A ideia do músico romântico encaixa no século XIX, não agora. Agora ninguém acredita em nada. Os valores nem sequer se inverteram, deixaram de existir. As regras do jogo da sociedade também são outras. Esse lado romântico, só se for com uma arma na cabeça, para dar um tiro. É tudo inglório, tudo em vão. E aquilo que não o é, é descartável. Usar e deitar fora. Não nasci no século XXI e não tenho nada a ver com o que se passa agora. Não me enquadro nesta histeria, neste relativizar de tudo, na ausência de selectivismo. Tudo vale o mesmo, tudo é igual. Portanto, não há futuro nenhum. Ir acompanhando, fazendo umas coisas... futuro nenhum.