Os livros de 2009

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Pitta, Gustavo Rubim, Isabel Coutinho, José Riço Direitinho, Luís Miguel Queirós, Maria da Conceição Caleiro, Rui Lagartinho

1. A2666
Roberto Bolaño
Quetzal

Com esta obra-prima o génio do malogrado chileno Roberto Bolaño (1953-2003) abriu à literatura novos horizontes, como antes Borges, Musil, Faulkner ou Joyce - e poucos mais. "2666" é um livro pela persistência da memória na literatura, e em que a História contemporânea desfila diante dos nossos olhos como longa sucessão de desastres, de monstruosidades sem fim à vista. Este testamento literário - reflexão sobre o Mal, sobre a normalização da barbárie na América Latina e o desolador destino da Humanidade - é-nos dado numa escrita sem floreados, de onde emerge vivo esse "realismo visceral" profundo e complexo, preciso na sua ambiguidade. No fundo, as características da grande literatura. J.R.D.

2. Caderno Afegão
Alexandra Lucas Coelho
Tinta da China

Alexandra Lucas Coelho escreve muito bem, para além do rigor dos fios temáticos sobre o que escreve. Aqui, não se trata de escrever bem ou mal, é outro patamar. É escrever, como diria Duras. "Caderno Afegão" é a travessia rigorosa e lírica por um país desde há muito convulso. País do pó, do cheiro a podre, porém de rosas que mesmo assim vingam. M.C.C.

3. Obra completa 1969-1985
Nuno Bragança
Dom Quixote

Em 1969, quando Nuno Bragança (1929-1985) publicou "A Noite e o Riso", não havia muita gente a escrever assim em Portugal. Ou até haveria um ou dois, mas eram poetas. Se "A Noite e o Riso" está há muito reconhecido como um dos livros decisivos para a renovação da ficção portuguesa na segunda metade do século XX, "Directa" (1979), "Square Tolstoi" (1981), os contos de "Estação" (1984) e a novela póstuma "Do Fim do Mundo" merecem igualmente ser relidos. A "Obra Completa" inclui ainda a peça radiofónica "A Morte da Perdiz", que nunca saíra em livro. L.M.Q.

4. Contos Completos - I
John Cheever
Sextante

John Updike tinha razão: John Cheever foi o maior estilista da sua geração. O primeiro volume de "Contos Completos" é um prodígio de virtuose que nos transporta a um mundo desaparecido, quando "Nova Iorque era ainda inundada pela luz do rio [...] e quase toda a gente usava chapéu." Foi o cronista dos subúrbios da classe média americana e da sua teia de códigos sociais. Dissecou com mordacidade uma série de "interditos" na década de 1940-50. A sexualidade foi um deles. Atormentado com a sua condição de homossexual, ridicularizou-a em "Clancy na Torre de Babel". Outros, como "" juventude e beleza!" e "Os malefícios do gin", são clássicos absolutos. E.P.

5. Obra Poética Completa de Edgar Allan Poe
Tradução, introdução de Margarida Vale de Gato e ilustrações de Filipe Abranches
Tinta da China

Comemorou-se em 2009 o bicentenário (1809-1849) do nascimento de Poe, o que terá induzido a edição de "Obra Poética Completa" (assim como "Todos os Contos"). Tradução cuidada de Margarida Val de Gato, belas ilustrações de Filipe Abranches. Poesia que faz a difícil simbiose da atenção e da imaginação, ambas delirantes, ébrias e justíssimas. Põe terá sucumbido à moral americana que o rotulou de devasso. Acabou pobre, bêbado e inanimado em Light Street, Baltimore. M.C.C.

6. Ofício Cantante - Poesia Completa
Herberto Helder
Assírio & Alvim

É a obra poética de Herberto Helder em 2009. No mesmo sentido em que poderíamos dizer de uma fotografia: este é Herberto Helder aos 45 ou aos 67 anos. Isto, claro, se existissem fotografias das quais se pudesse dizer tais coisas. Em português, a palavra "obra" tanto é mero sinónimo de bibliografia como designação de um corpo orgânico que tem de ir mudando para ser o mesmo. O mesmo que o autor. "Ofício Cantante", que recupera o título da primeira compilação dos poemas de Herberto, publicada em 1967, inclui, além de reescritas várias e da entrada de inéditos, o livro "A Faca Não Corta o Fogo", cujos dois mil exemplares se esgotaram num ápice no final de 2008. L.M.Q.

7. Veneza
Jan Morris
Tinta da China

De Ruskin a Brodsky, sem esquecer o pessoal menor, já toda a gente escreveu sobre Veneza. Não obstante, a quota de Jan Morris é decisiva. O livro dela (não esquecer que "ela" foi homem até aos 46 anos) não se pretende de História veneziana nem mera derivação turística. O que Morris fez com superior mestria foi cerzir informação prosaica com erudição, sem beliscar a melodia da frase. Pela sua mão, percorremos as vielas e os "palácios periclitantes" da Sereníssima, cidade em conflito aberto com a realidade do mundo contemporâneo. E.P.

8. O Homem Sem Qualidades - Volume III
Robert Musil
Dom Quixote

Musil compôs, ao longo de vinte penosos anos, esta saga demencial sobre a decadência, enquanto presenciava o fim do Império Austro-Húngaro, a Iª Guerra e a ascensão do nazismo. (Coetzee disse que "este livro foi ultrapassado pela História, enquanto foi escrito"). Neste III volume, com material inédito, é possível vislumbrar um trabalho de composição tão gigantesco, violento e labiríntico como o homem que o criou e o tempo que ele viveu. H.V.

9. Os Desaparecidos
Daniel Mendelsohn
Dom Quixote

Não é ensaio histórico. Não é autobiografia, nem livro de memórias. Não é um romance, muito menos uma auto-ficção. Não é uma reportagem, nem um livro de viagens. Não é um livro sobre os alicerces do judaísmo e da cultura clássica. Mas tudo isso cabe em "Os Desaparecidos", de Daniel Mendelsohn, jornalista americano que no início do século XXI correu os quatro cantos do mundo para tentar perceber o que aconteceu a alguns dos seus parentes durante o Holocausto. R.L.

10. A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao
Junot Diaz
Porto Editora

Junot Díaz nasceu dominicano mas hoje é cidadão americano. Levou onze anos a escrever "A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao". O ajuste de contas com a ditadura de Trujillo é um exercício de mnemónica em clave pós-colonial (Díaz era uma criança quando deixou a ilha). Questionando a América por interposta administração Johnson, quando "Santo Domingo foi o Iraque antes de o Iraque ter sido o Iraque", constrói a epopeia dos imigrantes assimilados, divididos entre o "fukú" (maldição) e o vórtice do Império. Absolutamente singular. E.P.

11. O Resto é Ruído. À Escuta do Século XX
Alex Ross
Casa das Letras

Alex Ross é crítico de música da "The New Yorker" e com "O Resto é Ruído" embarcou num projecto ambicioso: não apenas uma história da música contemporânea mas um retrato da época contemporânea através da música, incluindo os grandes debates estéticos e ideológicos. A música "erudita" tem destaque, mas Ross não despreza a música "popular", num ensaio que vai do dodecafonismo aos Radiohead. Uma obra estimulante para compreender o século passado (e para comprar bons discos). P.M.

12. História de Portugal
Coordenação de Rui Ramos
A Esfera dos Livros

A História está na moda, mas faltava uma boa História de Portugal num único volume (a mais fiável era a coordenada por José Mattoso, em vários tomos). Este conjunto de ensaios agora editado reúne três especialistas que fazem belíssimas sínteses interpretativas: Bernardo Vasconcelos e Sousa para a Idade Média, Nuno Gonçalo Monteiro para a idade moderna e Rui Ramos (que coordenou o projecto) para o período contemporâneo. É a obra de referência de 2009 e da História portuguesa. P.M.

13. A Edição de Livros e a Gestão Estratégica
José Afonso Furtado
ed. Booktailors

A cadeia de valor do livro tem vindo a sofrer alterações e a forma como se produzem e comercializam livros neste início do século XXI está a ser repensada por todos. O sector editorial confronta-se com novos paradigmas, consumidores e leitores. É sobre estes temas que o director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian - que foi Presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura entre 1987 e 1991 - reflecte. I.C.

14. Caderno de Memórias Coloniais
Isabela Figueiredo
Angelus Novus

Sente-se o abalo que este "Caderno" causa no marasmo literário nacional em passagens como esta: "Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se." Relato cru do racismo português em Moçambique no fim do Império, memória do amor de uma filha pelo corpo do pai, história de traição a uma "verdade" que morreu com a morte do colonialismo. Um texto parcial, violento, escrito como se escrevem cadernos: com o fantasma da verdade sempre ao lado. Isabela Figueiredo afirma-se escritora, num país onde só proliferam "autores", esses manequins de vender autógrafos. G.R.

15. A Rainha no Palácio das Correntes de Ar
Stieg Larsson
Oceanos

A adesão dos portugueses à saga "Millennium" é lenta quando comparado com outros países, mas tem dado passos seguros. "A rainha no palácio das correntes de ar" marca o fim da trilogia do autor sueco. A espécie de Pipi das Meias Altas versão gótica que é a "hacker" rebelde Lizbeth Salander passa quatro quintos do livro numa cama de hospital. Mesmo assim é a mais trepidante das três aventuras. R.L.

16. História de Israel
Martin Gilbert
Trad. Patrícia Xavier
Edições 70

As origens do Estado de Israel são ignoradas pela generalidade da opinião pública, condicionada pela barragem de propaganda anti-sionista que faz a "norma" dos media ocidentais. Se outra razão não houvesse, a "História de Israel" contribui para esclarecer o óbvio. Gilbert dispensa apresentações: é o mais famoso dos biógrafos de Churchill e um respeitado historiador inglês. Sem proselitismo, sistematiza factos a partir do fim do mandato britânico que antecedeu a fundação do Estado de Israel. Contextualiza com igual minúcia o essencial e o (aparentemente) acessório. E.P.

17. A Montanha Mágica
Thomas Mann
Dom Quixote

Esta tradução tem algo de milagroso. Lê-se desde as primeiras páginas sentindo que se Thomas Mann fosse português teria escrito assim. Hans Castorp, burguês, visita um primo, tuberculoso, no sanatório. Deixa-se abarcar pela atmosfera mágica do lugar. Julga-se ele próprio doente e aí fica até que a guerra de 1914 o desperta do seu sonho. Um dos pilares literários do século XX. M.C.C.

18. Entrevistas da Paris-Review
VV.AA.
Selecção, tradução e notas de Carlos Vaz Marques
Tinta da China

As entrevistas da "Paris Review" são lendárias. Carlos Vaz Marques seleccionou e traduziu dez: as de E. M. Forster, Graham Greene, Faulkner, Capote, Hemingway, Lawrence Durrell, Pasternak, Saul Bellow, Borges e Kerouac. São naturalmente desiguais, entre a excelência de Forster ou Bellow e a indigência de Kerouac. Nenhum autor vivo (havia por onde escolher), nenhuma mulher (idem). "Arquivo de fascínio", chama Vaz Marques à selecção. Assino por baixo. E.P.

19. Luz Fraterna
António Osório
Assírio & Alvim

Depois de ter publicado a antologia "A Casa das Sementes", em 2006, António Osório vê agora editada num só volume toda a sua poesia, desde "A Raiz Afectuosa" (1972) até "Libertação da Peste" (2002). "A Luz Fraterna", título desta compilação, inclui ainda inéditos e dispersos. Oportunidade para reler uma obra que, no seu aparente, e talvez real, anti-vanguardismo, na sua revalorização do sentimento, na sua comunicabilidade, marcou muito mais do que geralmente se reconhece a poesia portuguesa das últimas décadas. L.M.Q.

20. A Ilha
Giani Stuparich
Ahab

Giani Stuparich (1891-1961) escreveu um dos contos mais emblemáticos da literatura europeia do século XX. Um homem doente pede ao filho que o acompanhe naquela que será a sua última viagem à ilha adriática onde nasceu. Debaixo de uma luz crua, desapiedada e agreste, a meditação sobre a morte é transformada num sentimento vital, essencial e positivo. E tudo feito numa escrita elementar, límpida e despojada. J.R.D.