Crítica

O sentido da vida

Maugham quis escrever um romance filosófico que desse conta não só da sua experiência desde a infância mas também do seu percurso como pensador.

Somerset Maugham começou a escrever "Servidão Humana" aos 37 anos como uma espécie de catarse para as suas múltiplas angústias e traumas. O romance, cujo título foi retirado da "Ética" de Espinosa, surgiu em 1915, depois de quatro anos de trabalho árduo. É uma típica história de aprendizagem iniciática e surgiu numa altura em que os "Bildungsroman" conheciam um enorme sucesso com autores como Samuel Butler, Arnold Bennett, H.G. Wells, D. H. Lawrence e James Joyce, de tal forma que os críticos de então afirmavam com ironia que não havia escritor que se prezasse que não começasse por contar a sua vida, mais ou menos disfarçada numa trama ficcional.

Maugham cria a personagem de Philip, relatando - com pormenores por vezes demasiado enfáticos - o seu longo caminho da realização pessoal, as tentativas para escapar a uma existência burguesa, acomodada e sem sentido e, mais tarde, a uma relação sórdida e condenada. Philip, à semelhança de Maugham, é um órfão entregue a guardiões mais velhos, estranhos e severos, num ambiente desconhecido e hostil. A primeira parte do livro é dedicada à vida em Blackstable - Maugham viveu em Whitestable - e na escola em Tercanbury - a de Maugham era a King's School em Canterbury - sendo descrito com minúcia o ambiente vitoriano e "dickensiano" da casa e da escola, com as habituais cenas de "bullying" - o ponto fraco de Philip é um pé boto, a de Maugham era a gaguez - a mediocridade da maior parte dos professores - ignorantes, preguiçosos, insensíveis, estúpidos -, o tédio da rotina escolar, o sentido de injustiça e a lenta descoberta da identidade.

Depois de ser tentado no sentido de ser ordenado sacerdote por um novo reitor que lhe reconhece as aptidões excepcionais, Philip escapa-se a um futuro que encara como limitado e desadequado às suas ambições e parte para a Alemanha, onde, em Heidelberg, inicia a sua vida de rapaz independente. É aí que conhece as primeiras raparigas e forma as primeiras amizades, discute Religião, Filosofia e Literatura e entra em contacto com a obra de Goethe, Verlaine e Flaubert, bem como com o teatro de Ibsen que, tal como a música de Wagner, eram considerados como demasiado modernos e terrivelmente blasfemos. É ainda em Heidelberg que um dos seus conhecidos lhe dá a ler "A Vida de Jesus", de Joseph Ernest Renan - o livro que revolucionou o cristianismo no século XIX por contar a vida de Cristo na qualidade de ser humano - que o leva pelo caminho do agnosticismo, como aconteceu com Maugham. Convém lembrar que Philip é um produto perfeito da sua época. A vida "artística" em Paris, o exercício diletante de Medicina, a vagabundagem, a sedução de mulheres mais velhas, as discussões filosóficas e a atracção pelo abismo moral e sentimental que, aqui, é representado pela relação com Mildred Rogers, a criada "cockney", feia, grosseira e ignorante que o explora, rebaixa e humilha, reflectem uma tendência para explorar uma sociedade convulsa e caótica onde artistas como Gauguin e Van Gogh aliavam o cúmulo da genialidade a uma existência de pobreza sórdida e aberrante.

Francis King, um escritor amigo de Maugham, fez uma ligação entre a deformidade de Philip e a homossexualidade do escritor que, já entrado em anos, confessou a um sobrinho que "tinha passado a vida a convencer-se que era três quartos heterossexual e apenas um quarto "gay", quando, afinal, era exactamente o contrário". A criação da figura de Mildred - andrógina, sem peito, magra, destituída de atractivos femininos, tanto físicos como morais - poderia, de acordo com alguns críticos, corresponder a uma necessidade de exorcizar uma relação secreta que Maugham teria mantido durante o tempo em que praticou medicina nos bairros pobres de Londres.

Embora a história de "Servidão Humana" seja principalmente conhecida pela relação masoquista entre Philip e Mildred - o centro da atenção das adaptações cinematográficas -, a verdade é que Maugham quis escrever um romance filosófico que desse conta não só da sua própria experiência desde a infância mas também do seu percurso como pensador. É principalmente neste livro - e mais tarde em "O Fio da Navalha" - que revela a intenção de mostrar os perigos do chamado "conhecimento sensível" - a "imaginatio" de Espinosa - cujas limitações desencadeiam a desordem dos sentimentos, o sofrimento e a paixão. Maugham tinha dificuldade em aceitar a ideia de um estado intuitivo, místico que levasse à felicidade e virtude supremas, as quais, em "Servidão Humana", se consubstanciam na figura de Sally, personagem pouco determinante para alterar o rumo dos acontecimentos. Fortemente influenciado por Maupassant, Zola e Flaubert, Maugham quis lançar um alerta para todos aqueles que se deixam enredar pela armadilha de uma visão romântica da existência, baseando-se nas palavras de Espinosa: "Chamo servidão à impotência do ser humano para governar ou restringir (as suas) emoções". Para ele, que lutou sempre para se libertar dos constrangimentos da lei e da moral, a perfeita epifania seria a que lhe revelasse o sentido da vida, por muito modesto que fosse, como esconjuro contra a inconsequência da morte.